6.18.2012

TRÁFICO DE MULHERES [voltando à realidade para algo importante]


Não sou de seguir causas sociais além da minha seara de histórias em quadrinhos e cultura pop, mas hoje trago um pouco da realidade pra cá porque aqueles que se calam acabam não vendo a bomba chegar e quando estoura ficam perguntando os comos e porquês.

Enfim, toda vez que um país alcança uma visibilidade internacional, inclusive sendo sede de grandes eventos mundiais, os quais abrem às portas dessa casa a outros, assim como muita coisa positiva seguem essa onda, muitas negativas a acompanham, na maior parte das vezes escondidas nas sombras do titã positivista, onde melhor atuam e desenvolvem.

Uma delas, infelizmente, é o tráfico de mulheres. Para muitos difícil de acreditar que tal coisa tenha existido algum dia, pra outros parece impossível que ainda aconteça, mas é uma realidade muito mais próxima do que se imagina. E seus "coordenadores" muitas vezes se apresentam como pessoas gentis e simpáticas - e não se enganem e, pasmem, não são somente homens - que nada parecem querer do que conhecer casualmente suas vítimas, mas possuem objetivos e interesses bem mais obscuros. Eles atuam em todos os lugares: universidades, festas, pontos culturais, e mesmo na sua rua ou apartamento (como um vizinho que viaja muito e já pediu o açúcar emprestado e entrou pra ouvir uma música ou tomar uma bebida). Quando não alcançam nada através de uma abordagem empática, às vezes arriscam raptos - desnecessário dizer o quão isso pode ser horrível. Tudo o que está sendo expresso aqui é fato, tem base de dados de órgãos públicos que cuidam de assuntos desse tipo, como a delegacia da mulher e casas de apoio a mulheres vítimas de violência.

Sei que pareço alarmista e longe de mim querer aqui nesse espaço tão "cabeça fresca" começar uma onda de preocupações onde a liberdade das pessoas - principalmente das mulheres, que sempre lutaram (e ainda lutam) por mais espaço e direitos iguais - é substituída pelo medo, mas acredito que o aviso serve de alerta a todos: homens, mulheres, amigos, namorados, irmãos, pais - todos independente do sexo, apesar da masculinização plural de nossa língua - que prestem mais atenção aos que se aproximam, que evitem situações além da diversão que levam ao "encobrimento dos sentidos" e facilitem a atuação dessas figuras.

Cliquem nesse vídeo veiculado na Europa que mostra um pouco do que quero dizer, e visitem o site [italiano] pra maiores informações. Pra conhecer melhor o pensamento e os dados, entrem em contato com as garotas desse site: CONSCIÊNCIA FEMININA.

6.17.2012

EXPOSIÇÃO ALMA DE DRAGÃO

Há cerca de 4 anos atrás, meu amigo Kaléo Mendes me convidava para uma das maiores aventuras da minha vida: fazer quadrinhos. Assim nascia o ALMA DE DRAGÃO, minha primeira empreitada nos quadrinhos que envolviam eu, Kaléo e meu primo Leônidas Medina. O trio adicionou sua própria pitada de criatividade ao Alma, eu no roteiro, Kaléo criando personagens e desenhando o quadrinho e Leo como designer de monstros. Nós demos muito de nós ao Alma e como retorno - quase um presente das musas - recebemos reconhecimento e aprendizado, principalmente.

Hoje, celebro esses anos de trabalho - feitos de pausa na produção, retornos, reboots etc. - com uma exposição que joga um olhar novo a esse universo e trás ao público uma promessa de que ele retornará com força total.

Vejam e confiram!

5.28.2012

OS 10 MAIS IMPORTANTES FILMES SPANDEX

Com os Vingadores, os filmes de super-heróis firmaram um novo marco - o último, na análise desse articulista, foi X-men, que demarcou a retomada (assim, vou delimitar tudo o que veio antes como AX: antes de X-men, e DX: depois de X-men) - assim, milhares de listas dos 10 maiores filmes-spandex surgiram na net e, como esse site também se propõe a seguir algumas modinhas (e porque listas são legais) o Z&A define seu TOP 10, mas baseado em sua importância e ajuste às ideias dos quadrinhos:

10. Watchmen (Zack Snyder, 2009)




Um dos quadrinhos mais cultuados - e, ao mesmo tempo, mais complicado de se ler - de todos os tempos recebeu uma adaptação bem feita, centrada na criação de uma atmosfera que representasse as ideias, época e pessoas que compuseram a história original (dentro e fora dela). De um tato incomum, Zack Snyder entregou uma obra de entretenimento pop que conseguia aproximar-se consideravelmente de seu original - em alguns momentos melhorando-o, inclusive - levando seus temas a um conjunto simbológico que pudesse ser melhor assimilado pelos espectadores da nova mídia. Pena Allan Moore ser tão "incompreensível".

9. Sin City (Robert Rodriguez, Frank Miller, Quentin Tarantino, 2005)




O trabalho certo nas mãos certas costuma sair melhor que o esperado. "Sin City", filme baseado nos quadrinhos de Frank Miller, é um exemplo cru disso. Depois de algumas decepções no cinema que o fizeram abandonar de vez a mídia, Miller foi convencido por Rodriguez com um curta de que Sin City era possível. Brigas com a Associação de Diretores Americana, convite de amigos ilustres e ressurreição de astros marcaram a produção, que é considerada por muitos a única transposição semiótica perfeita de uma obra de quadrinhos. Depois de 7 anos o segundo é anunciado. Vamos ver se ele será tão bom quanto o primeiro.

8. Batman (Tim Burton, 1989)




Batman é do período AX, e hoje em dia é visto como datado, ultrapassado e questionável. Mesmo a atuação do Coringa de Jack Nicholson é considerada por alguns como "superada" - termo que coloco em xeque, afinal, era outra época e outro filme - e muitos não conseguem entender a escolha de Michael Keaton como Bruce Wayne/Batman. Não importa. Batman foi um trunfo por conseguir mostrar o herói em um tom sombrio, quase adulto - a cena das modelos do coringa é assustadora - e conseguir apreço público (e ainda ser PG 13). O resultado disso foi tão forte que há ecos dessa visão em "Blade" e no primeiro "X-Men", bem como em vários outros filmes de HQ. A sequência, "Batman: O Retorno", foi igualmente boa, mas depois disso a franquia foi se tornando mais carnavalesca e caindo em qualidade. Ainda bem que Cristopher Nolan surgiu para salvar os fãs.

7. X-Men (Bryan Singer, 2000)




Trajes de couro, efeitos mais ou menos, história bobinha e ação razoável foram suprimidos por personagens bem trabalhados por um elenco de qualidade, bem encaixado como uma luva, e uma direção que sabia explorar os dramas daquelas figuras. O longa foi uma grande surpresa e abriu as portas para a Marvel entrar com os dois pés no cinema, firmando o gênero "filme-spandex" com a certeza de sua eternidade. Sem o sucesso desse filme, duvido um pouco se os outros dessa lista (exceto os que vieram antes) teriam sido tão facilmente pensados e tão prontamente feitos.

6. Homem de Ferro (Jon Favreau, 2008)




Toda a importância do Homem de Ferro se justifica em uma palavra: plano. Um esquema "cósmico" para fazer com que vários heróis de franquias independentes se tornassem uma única franquia, grandiosa, poderosa e arrebatadora. Este foi o primeiro e bem sucedido passo, em que Jon Favreau pegou o esquema Raimi de fazer filmes-spandex e inverteu a fórmula, elevando o então bobinho Homem de Ferro ao primeiro panteão popular da Marvel, lugar antes ocupado com folga por Homem-Aranha e Wolverine. Claro que esse bolo teria sido somente um "aperitivo" se seu recheio não fosse Robert Downey Jr., ator que se identificou tanto com o personagem que empregou seu imenso talento pra fazer de Tony Stark o playboy maluco mais adorado do mundo. E a Marvel começava seu plano de dominação.

5. Corpo Fechado (M. Night Shyamalan, 2000)



"Corpo Fechado" possui um sabor diferente de todos os filmes relatados aqui. Simplesmente porque ele não está ligado diretamente a um quadrinho, mas a todos eles, bem como aos seus fãs, entusiastas, críticos e pesquisadores. O filme é sobre a gênese dos heróis e trabalha perfeitamente com a simbologia dos espelhos invertidos, das contrapartes, das nêmesis - elementos comuns a qualquer mitologia heroica desde os homens das cavernas. Dirigido com maestria por Shyamalan, possui as fortes e "graves" vozes interpretativas de Bruce Willis e Samuel L. Jackson criando um dos mais cerebrais jogos de protagonista/antagonista do cinema.

4. Homem-Aranha (Sam Raimi, 2002)




Sam Raimi é um fã que recebeu o direito de dirigir seu herói favorito. Ele não só fez um dos melhores filmes-spandex da história, causando um enorme frisson que levou fãs e entusiastas a incomuns sessões de cinema às 10h da manhã, como praticamente definiu as regras de como apresentar um herói ao público que talvez o desconheça. Sua fórmula foi seguida por praticamente todos os outros filmes que vieram depois - alguns com mais e outros com menos sucesso - e o filme foi o primeiro a quebrar recordes de bilheteria, transformando Homem-Aranha, um herói já bastante popular, a se tornar uma mitologia moderna solidificada na memória de qualquer um.

3. Os Incríveis (Brad Bird, 2004)




Brad Bird é um fã de quadrinhos. Ele falando isso abertamente ou não. Desde "Gigante de Ferro" - com todas as referências à mitologia dos quadrinhos, inclusive ao Superman - sentimos seu forte pé na arte sequencial das grandes editoras. Mas somente com a história da família super-heroica que se esconde da sociedade que um dia protegeu foi que isso deixou de ser uma mera alusão para passar a ser uma verdade absoluta. Mesmo os personagens não tendo surgido nos quadrinhos, tudo o que se relaciona ao gênero está lá - e da melhor forma, misturando drama, aventura, ação e personagens carismáticos. Realmente um dos melhores do gênero.

2. Vingadores - The Avengers (Joss Wheedon, 2012)




Há algo realmente excepcional nesse filme. Ele era tão esperado quanto os primeiros quadrinhos de grupo foram anos atrás (incluindo Os Vingadores), nos quais há sempre aquela promessa de "comprar vários super-heróis pelo preço de 1". Esse filme tem isso. Ele é a sequência lógica de Homem de Ferro, Thor, Capitão América e Hulk, um filme de introdução à Shield e um filme dos Vingadores. Ou seja, um épico spandex que possui todos os elementos que deve ter: uma história veloz de objetivos claros, uma ação empolgante, personagens com seu peso em tela e atividades bem divididos e muitas, mas muitas explosões mesmo. Vendo pela conjuntura maior, de que este é um filme ousado pelo risco de reunir várias franquias - algumas com mais e outras com menos sucesso - e que sugere uma história única que também é a eclosão de várias outras, o filme entra para a história por ter realizado um feito nunca antes trabalhado no cinema - nem mesmo por STAR WARS - o que já valeria ir vê-lo, mesmo que um fracasso. O que não é o caso. Além de bem feito, ele também diverte, pois pega o espírito, a atmosfera e a alma colorida e intensa das HQs mais clássicas do supergrupo, misturando o "antigo" ao "moderno", numa incorporação ideal dos melhores elementos dessas duas "eras". Sob muitos pontos de vista, Vingadores é uma HQ clássica em película. Nota máxima para Marvel, que fincou - com força - a bandeira de seus heróis no cinema. O segundo filme já foi anunciado e, por conta da incerteza de seu diretor em continuar na franquia, sugiro aqui um substituto: Brad Bird.

1. Superman (Richard Donner, 1978)




Não há como negar a importância desse filme. O primeiro de muitos tinha de ser do herói spandex original, o primeiro super do panteão. Assim como Batman de 1989, Superman já está excessivamente datado, com seus efeitos e falas ultrapassados e estranhos ao público atual. No entanto, o iconismo das atuações - não somente a magistral performance de Christopher Reeve, que realmente nos fazia acreditar que Clark e Kal-El eram pessoas diferentes, mas de todo o elenco - o ineditismo da película e o respeito à obra original, suas ideias e motivações, fazem desse o mais importante filme spandex que existe, ajudando a criar um semi-deus moderno, existente na porção social de cada indivíduo do mundo assim como sabemos que água é pra beber e comida é pra comer. O mito máximo contemporâneo.

QUEM MERECIA, MAS NÃO ESTÁ



Hellboy (Guilhermo Del Toro, 2004)
Porque merece... além de ser uma história de aventura de primeira, toda a ação do filme parece muito com a estrutura de uma história de quadrinhos, com movimentos bem mostrados em tela e "splash pages", dando um caráter divertido à obra de Mike Mignola.
Porque não está... apesar dos pontos a favor e da ótima sequência, o filme não traz novidades e se usa de uma estrutura comum a qualquer outro filme spandex. Vira um dos herdeiros de Homem-Aranha, mas dificilmente assumiria o legado do antecessor.

American Splendor (Shari Springer Berman, Robert Pulcini, 2003)
Porque merece... Harvey Pekar foi um dos maiores baluartes dos quadrinhos undergrounds. O filme tenta resgatar sua importância para as HQs de uma forma geral, relembrando sua vida e pensamentos em uma direção competente que mistura sua obra com sua rotina - amálgama presente nele enquanto vivo. Além de ser um dos poucos ótimos trabalhos sobre quadrinhos autorais.
Porque não está... o forte caráter autobiográfico e os maneirismos hollywoodianos me fizeram retirá-lo da lista - irônico, não? Afinal, minha lista está bem pop - fora que ele acabou se tornando o filme de um nicho tão fechado que ele não é "filme-spandex", é filme arte.

V de Vingança (James McTeigue, 2005)
Porque merece... Um dos melhores filmes políticos do cinema é um drama baseado num dos quadrinhos mais geniais do mundo, e chatos também, defeito que a película soube corrigir prontamente. Com uma trama dinâmica e bem elaborada, e um drama elevado ao máximo pelas atuações impressionantes de Hugo Weaving e Natalie Portman o filme é quase a melhor adaptação de um quadrinho do mago.
Porque não está... porque "Watchmen" pegou seu lugar.

Batman Begins e Batman Cavaleiro das Trevas (Christopher Nolan, 2005 e 2008, respectivamente)
Porque merece... Transformar Batman num combatente ao crime real, dando integridade, drama e consistência a uma justiceira (e louca) causa, trazendo sua merecida honra do cemitério hollywoodiano onde Joel Schumacher havia enterrado, não é uma vitória, é um milagre. Nolan ressuscitou Batman e, de quebra, fez a melhor versão do personagem no cinema de todos os tempos.
Porque não está... apesar dos rasgados elogios, não considero os Batman de Nolan filmes baseados em quadrinhos. Na verdade, são filmes sobre ideias, motivações, e sobre um combatente do crime que, por ventura, se chama Batman, mas ele poderia ser o Cavaleiro da Lua, Darkman, Demolidor, Besouro Verde etc., mas falta algo que me dê segurança de chamar esse personagem de Batman. Falta uma tristeza, uma obsessão, uma dor e um foco excessivo na "causa". Nolan fez dois ótimos filmes policiais, mas não fez nenhum filme spandex pra mim.

Persepolis (Vicent Paronnaud, Marjorie Satrapi, 2007)
Porque merece... é inegável a qualidade do quadrinho de Satrapi. Toda a inocência dos primeiros anos de uma jovem vivendo em um mundo onde a liberdade de pensamento - e vida - é ceifada brutalmente em nome de uma causa não clara, aparentemente absurda e sem esperança de mudanças faz seu trabalho ser de uma sensibilidade - e documentação, diga-se de passagem - ímpar. Um dos 10 melhores quadrinhos do mundo.
Porque não está... simplesmente porque ainda não o vi. Não tenho como julgar então.

O Corvo (Alex Proyas, 1994)
Porque merece... baseado na graphic novel de James O'Barr, o último filme de Brandon Lee conseguiu criar uma atmosfera que mistura terror/super-heroísmo/mediunidade/shamanismo/mistério/tom gótico que até hoje ressoa em filmes, quadrinhos e jogos como Matrix, Batman Begins/Cavaleiro das Trevas, Devil May Cry, Spawn etc. Verdadeiro clássico pop e um dos retratos mais crus da fantasia de uma época
Porque não está... "Sin City" pegou seu lugar.

Outros filmes spandex que acredito que poderiam estar nessa lista: Hulk (os dois), Quarteto Fantástico (os dois), Blade (o primeiro), Superman: O Retorno e X-Men: First Class.


Filmes que nunca deveriam estar em lista alguma: Batman de Joel Schumacher, Demolidor, Justiceiro: Zona de Guerra, Motoqueiro Fantasma, A Liga Extraordinária, Spirit e Mulher-Gato.

5.18.2012

PUBLICANDO INDEPENDENTE

"Eu comecei assim, fazendo por mim mesmo"
Antes de iniciar esse artigo é preciso fazer uma pergunta: o que é "quadrinho independente"? Eu já vi diferentes interpretações - todas muito válidas por sinal -, mas para evitar delongas e citações, eu tratarei quadrinho independente da seguinte forma:

"é o trabalho feito sem o envolvimento de um editor"

Parece simplista demais, tendo em vista que muitos imaginam que a "real" definição vem de uma prerrogativa econômica - lançar sozinho, tirando do próprio bolso, mas parando pra pensar a grana pode vir de qualquer local, desde financiamento paterno a ganhos por editais de cultura - mas eu não vejo assim. Bem como "editor", do jeito que acredito que tem de ser, é uma figura semelhante a Sérgio Bonelli, que estava presente em todas as partes do processo de produção, dando pitaco - criativo, mercadológico etc. - do roteiro à distribuição.

Pensando dessa forma, surge logo a dúvida: "se não tem editor, quem exerce essa função?" - elementar - o próprio artista, o qual, novamente simplificando tudo, não chamo de editor porque muitas vezes - ou, na maioria das vezes - produz se utilizando de seu critério pessoal e não possui muita noção de outras partes do processo, ou seja, sabe escrever/desenhar/colorir, mas não entende de impressão ou distribuição ou público-alvo e vice-versa.

Quando se está sancionado por uma editora - e, porventura, um bom editor - as questões de quem/como/onde a veiculação da obra vai ocorrer são meio irrelevantes porque não viram uma preocupação prioritária do autor. A editora sabe quem se interessaria por aquele material (inclusive aqueles que nem fazem ideia de que ele existe), qual o melhor formato a esse público e como chegar até ele. Inclusive, tendo uma noção a curto, médio e longo prazo do sucesso - e do insucesso - que o trabalho pode atingir. Quando se faz a coisa por si só, no entanto, isso meio que foge ao controle do produtor e acaba sendo o maior problema de quem faz as coisas no meio "independente".

E essa "parte final do processo" é que acaba sendo realmente relevante e influenciando todo o resto: valores, formatos, impressão etc. Por isso, antes de sair empolgadíssimo pensando em imprimir na gráfica da esquina toda sua megassaga de 300 páginas, pense em quem, como e onde sua história vai estar.

DESCOBRINDO-SE

Vai parecer meio rude o que vou dizer, mas é preciso ter vergonha na cara - além de coragem, claro, e um bom plano - pra admitir seu lugar nos quadrinhos. Pense bem: você é Mark Waid? Adam Hughes? Danilo Beyruth? Daniel Brandão? Alguém além dos seus colegas de sala e família conhecem seu trabalho? Você participa de alguma rede social de desenhistas como o deviantart ou o CGHub e possui mais de 1000 acessos em cada, consegue ter pelo menos 30 acessos por mês? Você tem um blog? Trabalha pra alguma editora/agência de publicidade/estúdio/estamparia? Já montou um portfolio? Não? Então, meu caro, por que eu iria atrás do seu trabalho? No que ele seria relevante pra quem já leu Watchmen ou Cavaleiros das Trevas ou Turma da Mônica? Antes de publicar qualquer coisa em qualquer canto, seja como for, é preciso que essas perguntas possam ser respondidas, perguntas que se resume a uma - repetindo as palavras de Scott McCloud - "Qual seu lugar nos quadrinhos?"

Você acha que tem boas histórias a contar? Ok, convença-me: conte uma história interessante em uma página ou em duas ou em quatro. Escreva um conto em três páginas e divulgue. Mostre ao mundo que suas ideias podem ser modernas, novas, criativas e interessantes e que você pode ser até um bom "reciclador de ideias", fazendo o que era bom/razoável/ruim ter um aspecto interessante e não somente repete as fórmulas dos 2000 enlatados que assiste/lê por dia na internet ou TV. Divulgue-se.

Vitor Cafaggi passou alguns anos produzindo gratuitamente
Punny Parker até ser conhecido e poder fazer as próprias
obras com a certeza de que iria ter algum retorno, tanto
em sucesso quanto financeiramente.
Na verdade você sabe que não é um grande contador de histórias, mas que pode ser um ótimo narrador de quadrinhos e tem um desenho bonito e estiloso? Ora, então procure alguém que tenha boas histórias e conte-as! Sempre há roteiristas precisando de desenhistas. Na pior das hipóteses, veja que obras já estão em domínio público e reconte-as do seu jeito. Divulgue-se.

Não importa como, o que importa é que você tem uma habilidade que muitos não têm e essa habilidade é a chave que vai te levar ao primeiro passo de sua jornada: ser conhecido, fazer com que as pessoas queiram ter mais de você. Uma vez esse objetivo atingido é hora de delimitar sua área de alcance.

LOGÍSTICA E DISTRIBUIÇÃO

Quando se tem um trabalho feito, tudo o que se quer é que ele chegue a alguém, que as pessoas leiam, apreciem, mandem algum retorno. Com relação a isso não existe ambiente melhor do que a internet. Fácil e gratuitamente você pode montar um site/blog/perfil em rede social em que tudo o que você faz é postar seu trabalho. Com os tablets e ipads da vida isso ampliou o alcance e as possibilidades. Mesmo assim ainda tem gente que se perde no caminho das pedras. Como? Se sua obra é boa, se seu desenho é legal, se sua vontade não acaba, como as pessoas ainda não te viram? E mais importante: como fazer para que vejam? Conversando com bloggers e gente que possui algum retorno on line, pude identificar algumas atitudes que os ajudam nisso:

Will Tirando é um exemplo de site com design simples, bonito
e com conteúdo da hora!
1. REGULARIDADE. Decida um momento em que você vai postar algo e mantenha-se nele. Pelo que notei, o tempo entre uma postagem e outra define muito bem o retorno de visualização - claro que ninguém vai forçar a barra e publicar 20 trabalhos por dia, um a dois por dia é um bom número, 3 vezes por semana é excelente e uma vez por semana é aceitável, mais ou menos que isso é correr o risco de perder público.

2. BELEZA, DESIGN E SIMPLICIDADE. Outra coisa importante é como você vai mostrar seu trabalho. Pense em um design minimamente atraente e que combine com aquilo que você está oferecendo. Serviços gratuitos costumam ser bem limitados quanto à personalização de seus ambientes, mas podem ser uma grande chance de oferecer simplicidade em um visual criativo. Sempre mostre o design de seu site à outra pessoa e escute opiniões. Às vezes o que você acredita ser "muito massa" é poluído e desagradável. O WIX é uma boa opção para quem gosta muuuuito de personalizar e sabe utilizar o flash.

Um Sábado Qualquer de Carlos Ruas investiu bem
em subprodutos.
3. SUBITENS E MERCHANDISING. Outra opção comum em blogs é a venda de subprodutos como blusas, chaveiros, agendas, bonequinhos etc. Para quem está começando acho um pouco difícil pensar em algo como os dois últimos itens, mas os primeiros costumam ser um investimento de baixo orçamento e com um retorno considerável se você tiver visitas de pelo menos 50 pessoas ao mês. Caso contrário não custa nada fazer parceria com alguém que faça trabalhos manuais e ambos dividem custos e lucros. Pensar também em um joguinho on line ou outras formas de diversão interativa pode vir a trazer positivos e inesperados resultados. Um bom site nacional de serviço para trabalhar com contas na internet é o PAGSEGURO.

4. PROMOVA-SE SEMPRE. Vá a eventos, convenções, entre em outros sites, compartilhe nas redes sociais, visite estúdios de outros artistas, divulgue, mostre. Não há limites pra isso, mas não deixe de fazê-lo, porque é algo essencial.

MATERIAIS IMPRESSOS

Apesar de toda a interatividade, há aqueles que preferem os bons impressos - e não são poucos - pois, por alguma razão os materiais impressos mantém-se quase como itens colecionáveis únicos, como se feitos especificamente para cada um que os comprasse; um pensamento bem peculiar, mas válido. Afinal, se na internet é de todo mundo, o impresso é único e de propriedade, "cuidado e compartilhamento" somente daquele que o comprou, ou seja, há uma satisfação individual e fetichista de ter uma material físico. O simples fato de ele ser independente - e, por isso, limitadíssimo - faz com que adquiri-lo se torne algum tipo de "vitória de poucos", mas, enfim, longe de mim ficar aqui procurando as razões das pessoas ainda quererem papel.

A verdade é que sem o auxílio de uma editora, tudo o que o autor precisa é... gastar, mesmo que a grana não venha dele! Destinar parte do impresso a pessoas-chave que façam alguma divulgação, como sites de podcast, críticos de jornais/revistas/blogs etc., é uma boa saída para se fazer conhecido - e neste instante, cabe aqui a lição máxima: "falem mal, mas falem de mim e indiquem meu site". Fora, logicamente, toda a publicidade que pode-se fazer na rede mundial ou fora dela. Depois disso, é concentrar-se em manter "pontos de venda" que tanto podem ser seu próprio site, como alguma banca ou loja onde você consiga fazer parceria e tire uma porcentagem menor que a comum (uma das médias pra perda em banca é de 25% o valor de capa para o vendedor, por exemplo).

Apesar disso, possivelmente os melhores lugares para venda de quadrinhos independentes impressos ainda são as convenções e encontros, onde o público participante está realmente à procura do gênero. Então, fique atento aos eventos os quais você pode participar e ter alguma visibilidade, como o FIQ. Certas vez os irmãos Bá e Moon falaram que no começo de sua carreira gastaram uma nota preta somente indo a festivais no mundo inteiro e... bem, funcionou pra eles, né? Três dicas básicas a quem decide ir pra evento e divulgar seu material: seja sempre cordial, venda seu próprio material - as pessoas sempre desejam falar com os autores e pegar autógrafos - e separe cópias pra quem possa ser uma boa divulgação pra você.

Pois bem, pessoal, é isso. Espero que o texto possa ter esclarecido algumas dúvidas e aberto à mente de que é possível fazer acontecer sim, só leva tempo, dedicação e disciplina.

Até o próximo texto!

4.23.2012

DICAS DE ROTEIRO DE ROBERT McKEE


Em 2011, Robert McKee, professor de alguns dos mais premiados roteiristas de Hollywood, esteve no Brasil em uma palestra sobre roteiro e técnicas de escrita. Na ocasião, a revista ÉPOCA fez uma entrevista com o mestre - que foi publicada na edição de abril da revista - e listou alguns de seus ensinamentos, os quais transcrevi a seguir. Leiam e pensem a respeito.

LIÇÃO MAIOR DE TODAS: O CINEMA [ao meu ver, qualquer obra] DEVE ENSINAR ALGUMA COISA

MANDAMENTOS

1. RESPEITARÁS TUA AUDIÊNCIA jamais subestime a inteligência de seus espectadores. Supere suas expectativas e apresente algo a mais;

2. PESQUISARÁS estude o tema a ser abordado parar tornar o filme atraente para leigos e especialistas;

3. DRAMATIZARÁS TUA APRESENTAÇÃO torne atraente, dinâmica e bem amarrada a história que pretende contar;

4. CRIARÁS CAMADAS DE SIGNIFICADOS SOB TEU TEXTO a superficialidade não é perdoada por espectador algum, seja o comum, seja o mais treinado;

5. CRIARÁS PERSONAGENS COMPLEXOS, NÃO HISTÓRIAS COMPLICADAS ninguém entende histórias difíceis ou se identifica com personagens simplórios;

6. NÃO USARÁS FALSO MISTÉRIO NEM SURPRESAS BARATAS truques como acordar de um sonho para resolver o problema do filme estão fora de cogitação;

7. NÃO USARÁS DEUS EX-MACHINA PARA TEUS ENCERRAMENTOS se a solução vem de alguém que não estava na história, o espectador se sente ludibriado;

8. NÃO FACILITARÁS A VIDA DE TEU PROTAGONISTA se não houver transformação, não há porque contar a história;

9. LEVARÁS TUA HISTÓRIA ÀS PROFUNDEZAS E EXTENSÕES DA EXPERIÊNCIA HUMANA apresente ao público o que ele espera e ainda assim o surpreenda.

10. NÃO DORMIRÁS COM NINGUÉM QUE TENHA MAIS PROBLEMAS QUE TU licença poética. Você é quem tece as tramas.

4.05.2012

O ETERNO E A ETERNIDADE

Dia 10 de março, Moebius morreu. Ele foi um dos maiores artistas que existiu. Em uma semana, isso já tinha virado notícia velha. Agora então, nem sei. Antes dele, ainda esse ano, outros tantos também partiram. Artistas de importância ímpar, pioneiros e geniais dentro de suas searas. Mas a verdade é que muitos não vão mais lembrá-los.

Talvez nem devam. Mesmo que essa seja uma afirmação ridícula por parecer generalizada demais.

A verdade é que o mundo pede por renovação de suas artes. Quando o assunto é quadrinhos, que possuem uma "fase de vida" muito curta, estritamente ligada às mudanças sociais, aí sim a coisa se torna evidente: mestres do passado são superados pelo mercado "narrativo" ditado pela tecnologia e novas formas de entretenimento. Boas fórmulas são repetidas exaustivamente em tão pouco tempo que é impossível não se desejar uma mudança.

No entanto, que mudança seria essa?

Houve uma época que os quadrinhos não passavam de desenhos lado a lado em piadinhas forçadas. Will Eisner, Winsor McCay e vários outros trouxeram iluminação, narrativa, design de página, histórias e personagens mais complexos e elementos que elevaram essa mídia a um ponto em que ela pode realmente ser reconhecida como ARTE. Anos depois, quando essas mesmas fórmulas precisavam de renovação, Frank Miller, Neil Gaiman, Allan Moore e outros malucos deram um novo salto, consolidando temas adultos e amadurecendo as HQs. Desde então nada foi como antes. Ou melhor, nada mais é de outro jeito...

"Na verdade e na mentira, no bem e no mal, [Will Eisner, Moebius, Al Rio, John Buscema etc.] representam uma época [ou, no caso, várias]... que agora se encerra! Novos heróis surgirão, mas não serão melhores homens!"
Willy 'Poe' Richards - Mágico Vento 100

Essa é uma grande verdade. A Era dos Quadrinhos chegou ao fim. Os tablets e eletrônicos de portabilidade trazem uma nova possibilidade de narração de histórias, mas, infelizmente não têm trazido novas histórias. E os autores regurgitam fórmulas antigas, repetindo-as como referências com fonte 2 tamanhos menor e recuo de 3 centímetros, o que serve como base para um argumento, mas não sustenta ou imortaliza uma história.

Sei que pareço negativo com todas as minhas afirmativas. Mas venho aqui com a função mínima de arauto carregando o aviso de uma verdade que está excessivamente óbvia em nossas caras: os mestres estão partindo. É preciso aceitar isso. É triste e desolador e é ainda pior saber que seu legado pode vir a ser esquecido. E a coisa parece ainda pior porque não existe ninguém para substituí-los, para, enfim, guiar as gerações que cada vez se afastam mais deles.

Falta quem inspire os novos. Simplesmente porque somente nos murmuramos sobre a perda daqueles que nos inspiraram ao invés de aprendermos com eles e darmos o passo seguinte.

Afinal, que autores estamos nos tornando? E pra que leitores? Acho que são questões pertinentes e que tem de começar a ser respondidas por nós mesmos.

3.16.2012

RELATOS HISTÓRICOS DE QUADRINHOS

Amigo e apoio do Fórum de Quadrinhos do Ceará e um dos articulistas deste blog, Eduardo da Silva é também um grande pesquisador sobre a história das Histórias em Quadrinhos. Em seus estudos ele encontrou uma matéria editada anos atrás por uma revista com a entrevista de três das mais importantes figuras dos quadrinhos nacionais, Storni, Yantok e Loureiro, responsáveis pela revista Tico-Tico.

Confiram a matéria a seguir:


TRÊS CARICATURISTAS DA VELHA GUARDA

STORNI-YANTOK-LOUREIRO

OS PIONEIROS DAS HISTÓRIAS INFANTIS RECORDAM OS BONS TEMPOS E CONTAM ANEDOTAS DE SUA VIDA. ENTREVISTA COLETIVA CONCEDIDA A “REVISTA DA SEMANA” PELOS TRÊS MOSQUETEIROS DA CARICATURA INFANTIL.

Desde os tempos saudosos dos irmãos Grimm e de Anderson, que a literatura infantil vem constituindo uma séria preocupação dos homens cultos. Os contos para crianças têm sido, há muito tempo, difundidos através de edições sucessivas de livrinhos e folhetos, por todas as escolas e por todos os lares. Antes do aparecimento das coleções editoriais especializadas já existia, entretanto, uma modalidade de difusão de histórias infantis, através das “contadeiras”, que percorriam as fazendas e os banguês, levando à criançada a alegria dos romances orais que tinham, contados por sua boca, um encanto todo próprio. Em torno à chama de lampeão, a garotada antiga ia aprendendo, através das histórias de “siá” Maria, todo um folk-lore engraçado e terrífico, cujas figuras lendárias acompanhariam por tôda a vida a sua imaginação. Quando faltava a visita da “contadeira” à casa paterna, os meninos se deleitavam com as histórias de Carlos Magno e dos Doze Pares, que os mais velhos liam em voz alta.

Um dia, vindo da Inglaterra, chegou até nós o primeiro magazine infantil, apresentando histórias ilustradas em cores. Não apareciam ali os personagens de Grimm. Rolando não era aproveitado nos quadros das historietas. As figuras eram novas, contemporâneas, usavam roupas iguais às dos homens da época, falavam em linguagem compreensiva e usual. Ademais, a revista aproveitava sempre em suas histórias as aventuras de um herói juvenil, mostrando-o como paradigma para lições de moral à criançada daquele tempo.

À idéia fez sucesso em todas as latitudes e os povos de idioma diferente aproveitaram-na sem reservas. A França teve os seus periódicos infantis em grande quantidade. Depois foi a vez da Suíça. O Brasil não ficou atrás. “Após as tentativas frustradas, apareceu um semanário: O Tico-Tico”, que fez as delicias de muitas gerações. A revista era uma adaptação dos magazines estrangeiros do gênero, mas primava justamente pelo caráter nacional de suas idéias e de seus personagens, do tema e dos ambientes das historietas em quadrinhos.

A imprensa periódica dedicada às crianças brasileiras nos apresenta, ao contrário, uma mudança brusca, do primeiro número de “O Tico-Tico” às atuais edições das coletâneas de histórias americanas traduzidas para o nosso idioma, que os jornais especializados nos mostram em tricromia.

Os garotos contemporâneos afeitos à leituras exclusivas dessas fôlhas já não aprendem os problemas brasileiros, já não sabem quem foi Fernão Dias. Nenhum dêles conhece um herói nacional; a sua admiração é toda dedicada aos heróis fantásticos das histórias irreais dos semanários americanizados. Standardizaram-se assim as inteligências jovens da nação, que pensam agora de acôrdo com os croquis traçados pelos sindicatos novaiorquinos de copyright e as agências de publicidade de Chicago. Queremos aqui lembrar o perigo que algumas vêzes representam para a formação intelectual das novas gerações.

Histórias estandardizadas espalhadas pelo Brasil.

Na America do Norte, um garoto que lê as aventuras do “Super-Homem” encontra um antídoto para essa ficção venenosa na biografia de Lincoln para crianças ou nas histórias de Washington e de Benjamin Franklin. Mas no Brasil, não fôra as edições relativamente pequenas das histórias de Narizinho e Emília, nada mais teríamos de aproveitável hoje, além de poucas coisas que nos apresentam, raramente historias próprias e sim histórias importadas.

Através de uma conversa com os pioneiros das histórias em quadrinhos - Loureiro, Yantok e Storni - todos êles, relembrando a épocas em que faziam a delícias dos garotos de todo o Brasil, repetirão em côro a frase de seus antigos leitores: “eram bons tempos, aqueles”...

CONVERSA COM O PAI DE BENJAMIN

O primeiro a ser procurado pela nossa reportagem foi o desenhista Loureiro, antigo autor histórias de “Chiquinho, Benjamin e Jagunço”, que apareciam sempre na última capa externa de o “O Tico-Tico.

Foi com saudade que o nosso entrevistado se lembrou das mais interessantes passagens daqueles tempos distantes. O grande sucesso de suas histórias infantis começou justamente em 1918, quando terminava na Europa o drama sangrento da Grande Guerra.

Quisemos, de início, saber a opinião do artista sôbre a atual imprensa infantil do país. Ele responde:

- Há atualmente apenas a realidade das histórias americanas, importadas através de grandes organizações comerciais, que mais não visam que o lucro direto. E essas histórias, muitas vezes, têm um fundo nocivo, ao contrário do que deveriam realmente ter. Quando as histórias da ùltima página de “O Tico-Tico” estavam sob minha responsabilidade, procurava, tanto quanto possível, dar-lhes um cunho instrutivo e educativo, encaixando-lhes, discretamente, alguns conceitos de moral. E, a julgar pelas cartas de leitores que me chegavam às mãos, o meu intento logrou êxito.


- Veja por exemplo - continua Luiz Gomes Loureiro - a história de Chiquinho em 1918.

E o desenhista mostra-se uma capa de “O Tico-Tico”, onde aparecem os seus heróis aprendendo com o “Papai” alguma coisa em tôrno dos “almofadinhas”, arcaísmo que, em boa linguagem da gíria atual, se traduz por “granfo” ou “bacano”. Na história, o autor revela aos meninos do Brasil a ação nefasta da ociosidade dos rapazes da cidade, em contraste com a miséria do Jeca Tatú.

A historieta era uma boa lição de verdadeira brasilidade, escrita em estilo e linguagem acessíveis, graciosa e amena, assimilável por qualquer criança, sem o pêso da linguagem usada pelo autores de hoje.

No último quadro apareciam os três famosos bonecos, “Chiquinho, Benjamin e Jagunço”, impressionados com a situação nacional. A imagem dos personagens nos traz aos lábios uma pergunta:  Os seus bonecos eram originais, ou simples adaptação de revistas estrangeiras? O desenhista explica:

- Chiquinho e Jagunço eram decalcados de um magazine inglês. O primeiro era a cópia do personagem “Maister Brown”, o segundo era o seu cachorro, ambas criações de Bud Fischer Senior. As histórias, porém, eram todas baseadas em argumentos brasileiros. E eu procurava dar-lhes sempre um cunho moral e patriótico. Para que elas se tornassem mais brasileiras, resolvi encaixar-lhes outro personagem típico.

CAPÍTULO INÉDITO NAS AVENTURAS DE CHIQUINHO: DE COMO BENJAMIN “SENTOU PRAÇA”

Loureiro continua a contar a história de suas histórias:


- O personagem a que me refiro foi o terrível Benjamin, o negrinho que tinha sempre os planos mais demolidores para as molecagens da turma. O trio fazia das suas. A princípio Chiquinho sempre se portava como uma espécie de Sancho Pança, temeroso de que as idéias de Benjamin dessem na clássica surra de escova que o “papai” coroava as suas aventuras. Mas tanto insistia Benjamin em seus planos "terroristas”, que Chiquinho perdia o bom senso e, acompanhados por Jagunço, êles faziam o diabo.

Nessa altura perguntamos ao artista: Benjamin foi apenas uma ficção, ou uma personagem inspirada em pessoa real?

- A figura do moleque não foi apenas inspirada numa pessoa viva. Foi, antes, decalcada de um pretinho, empregado em minha casa. A Inglaterra me dera o Chiquinho, na figura de Maister Brown. O Brasil me ofereceu Benjamin na pessoa de meu menino de recados. E isso foi motivo de muitos fatos pitorescos. Senão vejamos: um dia Benjamin, isto é, o meu empregado, se aproxima de mim e declara que está disposto a deixar o serviço. Inquirido sôbre a causa da decisão, o moleque declara que estava ficando nervoso com a sua popularidade. Não podia ir à quitanda, à leiteria, à farmácia sem que os garotos da rua lhe gritassem: “Olha o Benjamin do Tico-Tico, Pessoal!”.


Para não perder a minha fonte de inspiração, fui obrigado a convencer o negrinho de que o que se lhe afigurava um transtôrno, era coisa cobiçada por muita gente ilustre. E o moleque aquiesceu, convencido já de sua glória.

- E Benjamin ainda existe?- Indagamos.

- Até hoje não sei. Na última vez em que me encontrei com ele, estava de boa saúde e envergava com orgulho uma farda da polícia militar. Mas como isto se passou há bastante tempo, não sei onde ele se encontra agora.

AS PÁGINAS DE ARMAR E AS CRIANÇAS GRANDES

Além de criador de Chiquinho, Loureiro foi também introdutor de uma novidade nas revistas infantis do Brasil: as páginas de armar. Essas consistiam em figuras coloridas, feitas especialmente para serem montadas em cartolina, formando máquinas, figuras humanas, conjuntos arquitetônicos, etc. Também a respeito das páginas de armar, Loureiro tem muitas coisas a dizer. É ele quem fala:

- Lembro-me de um fato, ocorrido do aparecimento da locomotiva “Chiquinho”, uma das primeiras páginas dêsse gênero por mim desenhadas. Logo após a publicação das figuras que serviriam de base à construção da máquina, entrou na redação um senhor de idade perguntando por mim. Apresentei-me, e o visitante foi logo dizendo que vinha reclamar contra a locomotiva. “Aquilo não era coisa para menino”, dizia êle. E continuou: “Eu mesmo, apesar de engenheiro, custei a montar a bicha”. O meu interllocutor só se deu por satisfeito quando lhe fiz ver que as páginas eram feitas justamente para que os meninos aprendessem a armá-las com o auxílio das explicações paternas.

E idéia continuava a fazer sucesso. Bondes de oito rodas, casas coloniais, tudo era oferecido aos leitores de “O Tico-Tico” que para possuírem êsses brinquedos desenvolviam a sua habilidade manual num trabalho paciente e instrutivo. Essas páginas constituíram aliás um dos maiores fatores de êxito da revista. Acontece que as crianças que se dedicavam à sua montagem muitas vêzes tinham títulos de doutor e cabelos brancos. Todos queriam ter a glória de armar com perfeição um bonde elétrico ou um presepe de cartolina.


YANTOK, CACHIMBOWN E CIA  

Passemos a falar de Yantok, outro dos pioneiros das histórias infantis no Brasil. Até hoje o criador de Cachimbown ainda se dedica com entusiasmo aos seus velhos personagens. Pipoca, Cachimbown, Gaspar, o inventor-maluco, ainda aparecem periodicamente nas páginas das revistas e dos jornais.

Queremos aqui, entretanto, mostra ao público, através das próprias palavras de Max Yantok, um pouco da sua vida de judeu errante da arte, vivida em muitas terras e no meio de muitas gentes. Quando lhe pedimos que  nos contasse a sua história, o caricaturista começou pelo princípio:

- Nasci há muito tempo no Rio Grande do Sul. Sou filho de pai italiano, neto de iugoslavo e de índio. Com seis anos de idade dei por mim em Nápoles, onde me criei. Ali vivi muito tempo e muito estudei. Consegui arranjar um título de agrimensor, outro de contador. Também me titulei em pintura e em violino. Agarrado à minha rabeca, deixei a Itália como primeiro violino de uma orquestra, que ia “fazer a  América” na Alemanha. Mas quem fez a América foi somente o “caixa”. Fez também a miséria da orquestra, fugindo com a receita de várias récitas, deixando os músicos a ver navios nas ruas de Munich.


Fui obrigado, então, a mudar de vida. Parti para Paris, onde tudo devia ser mais fácil. Lancei-me à caricatura, que era o que podia dar mais dinheiro. Ilustrei contos e “charges”, colaborei em “L`Ilustration” . Vendi muitas produções a cinco francos. Peregrinei depois por toda a Europa.

Um dia resolvi voltar ao Brasil, minha terra natal. Vinha fazer jornalismo. Eu já havia fundado e dirigido em Nápoles o jornal satírico “Monsenhor Perrelli”, que fez sucesso na época. Até 1921 tive notícias de que o jornal ainda vivia. Mas veio o fascismo e nunca mais soube nada dêle. Foi animado pelo sucesso de meu primeiro jornal que resolvi tentar aqui a caricatura e a “charge”. Havia conhecido Matania na Europa, e o seu sucesso me animava.

Desembarquei no Rio e comecei a caricaturar os maiores da época. Era no tempo da campanha do Hermes. As anedotas andavam de boca em boca. Foi então que lancei um vocábulo novo, que acompanhou durante muito tempo o nome do candidato. Esse têrmo, “urucubaca”, deriva-se de duas palavras tupi-guarani, língua que eu havia aprendendo em minha infância: “urubú” e “acabaca” que traduzidas ao pé da letra, significam “cheiro de urubú”. O vocábulo era utilizado como sinônimo de “peso”, “macaca”, “pitimba”, palavras que não se usavam ainda naqueles dias.

Passemos, porém, à parte que interessa à reportagem. Em 1908 comecei a colaborar em “O Tico-Tico”, criando a turma do Cachimbown e, mais tarde, lançando o Barão  da Rapapé, Parachoque, Pandareco e vira-lata. Até hoje os meus bonecos ainda aparecem para gerações novas, com a mesma disposição de espírito e sofrendo a mesma “urucubaca” que sempre fez com que tudo o que pensavam realizar saísse ao contrário.

Durante todo êsse tempo os meus heróis sofrem os mesmos males, têm os mesmos problemas insolúveis. O cachimbo de Cachimbown ainda é o mesmo cachimbo barato de 1908, e pipoca não conseguiu até hoje fazer uma operação plástica no nariz. No entanto, eu procuro torna sempre humorístico as situações críticas em que os meus bonecos se metem, tôdas as vêzes que pretendem realizar algo. O “Inventor Maluco”, Rapapé, todos eles sofrem no fim de cada história o pêso de suas próprias maluquices e a eficiência de seus inventos arrojados.

Deve frizar que os meus bonecos feitos para meninos não tinham atitudes políticas, ao contrário das caricaturas que fazia para jornais. E penso que, até agora, têm, tanto Rapapé quanto Cachimbown e Pipoca, cumprindo fielmente o destino que eu tracei para êles em 1908: Divertir a garotada.


STORNI FALA POUCO E DESENHA MUITO       

Agora Storni, falou pouco. Deu-nos um papel escrito a lápis, onde marcava os principais fatos de sua vida e de suas caricaturas. Aliás como quase todos os artistas, Storni deixa em seus bonecos um pouco de sua própria pessoa. Para prová-lo, nada melhor que os dois extremos de sua vida artística, representados pelas auto-caricaturas que ele nos ofereceu. Falemos da vida e da obra de Storni. É ele próprio que nô-las conta:

Cheguei ao Rio em março de 1907. Vinha o chamada de Luiz Bartolomeu. Para trabalhar em “O Tico-Tico” e “O Malho”. De santa Maria eu já havia enviando os meus bonecos que, publicados, alcançaram sucesso. Quando desembarquei na “côrte”, encontrei-me num trapiche de madeira. Envergava com orgulho um terno de xadrez marron e um colarinho da mesma côr. Um carregador me perguntou se eu pertencia a algum circo de cavalinhos, e se queria que ale carregasse a mala. Guardo até hoje bem vivas estas memórias das recordações de minha chegada triunfal à Cidade Maravilhosa, podendo me lembrar até, com nitidez, que na mala eu trazia outro terno e uma camisa. O resto do espaço era ocupado pelos meus castelos e pelas ideais de moço, que viajavam comigo. No outro dia eu era acolhido com a maior indiferença pelo proprietário de “O Malho”, que me apresentou ao velho Reis (Cabuhy Pitanga) e a Renato de Castro, diretor de “O Tico-Tico”. Comecei a fazer caricatura política em “O Malho” e a decalcar histórias estrangeiras para a revista infantil.

Um dia revoltei-me contra a monotonia das historietas estrangeiras e resolvi criar alguma coisa bem brasileira, para os leitores mirins. Foi então que me vieram à cabeça as figuras de Zé Macaco, Faustino, Serrote e Baratinha. Explorei com essa família, composta de mulher, marido, filho e cachorro, temas de interêsse local. O êxito foi estrondoso. Eis porque, sem uma interrupção, vem a família Zé Macaco, há 37 anos, aparecendo periodicamente às crianças do Brasil. E, como obra nacionalizante, penso que as aventuras desse pessoal têm alcançado o fim que eu visava.

Além disso, pretendo incutir nos espíritos infantis, através do grotesco e do ridículo, a verdadeira concepção da modéstia, da serenidade e de tôdas essas virtudes, que cada dia se tornam mais esquecidas dos homens. Zé Macaco, por exemplo, é o tipo do vaidoso, do “granfíno” que compra um automóvel sem saber onde irá buscar dinheiro para o carvão. E Faustino lhe segue nas ações. Mas nos fim das histórias a sua mania de granfinismo é sempre castigada e eles acabam caindo em ridículo.

Assim falou Storni a seu respeito e a respeito de suas figurinhas e com as suas declarações encerramos a nossa entrevista com os três mosqueteiros da caricatura infantil, os pioneiros das histórias em quadrinhos brasileiras. Em verdade, muito valiosas se tornam hoje as palavras desses três lideres da literatura e do desenho infantil, que divertiram e até hoje divertem os garotos do Brasil com a graça de suas historietas e as atitudes de seus personagens.

Apesar da concorrência das pinturas estrangeiras, que contam para sua divulgação com dezenas de “of set” espalhadas por muitas cidades, alguns dos personagens de Storni e Yantok ainda vivem e têm um número avultado de “fans” espalhado por todo o território da nação. É interessante notar como esses bonecos, apesar da idade, ainda conservam os mesmos traços fisionômicos dos seus primeiros dias. Cachimbown, no qual, como já dissemos, aparece muita coisa de Max Yantok, é um sujeito já velho e, apesar de perseguido por todos os azares, continua vivo e com saúde, e dá ainda hoje, todas as semanas, o seu passeio hebdomadário pelo país, divertindo as novas gerações. Apareceram outras figuras, as técnicas de paginação transformaram completamente a feição dos magazines juvenis. Mas Zé Macaco e Faustino ainda são os mesmos e têm sempre algo de novo para os seus leitores de calças curtas. Quanto a Loureiro o caso mudou de figura. Para as histórias infantis ele está hoje aposentado. Mas o seu nome ainda vive nos anais da imprensa brasileira, como um dos pioneiros de uma nobre causa. E a sua maior glória consiste justamente em ter sido o introduzir das páginas de armar em nossa terra. Talvez ainda hoje, quase vinte anos depois do aparecimento da locomotiva “Chiquinho”, alguém ainda guarde esse brinquedo de papelão, como uma lembrança amiga daqueles tempos saudosos, quando ainda não existiam o “Super-Homem” e “Brucutú”. Aos meninos de hoje, agarrados ao mistério do “Falcão da Caverna” e de “Zé Mulambo”, seriam de muito proveito, estamos certos, as leituras sadias das histórias dos três mosqueteiros da caricatura infantil, que falavam, pela imagem e pela legenda, apenas daquilo que podia trazer alguns benefícios para a educação de seus leitores.

Aqui ficam as palavras dêsses três veteranos, como uma revista passada a um antigo álbum de fotografias familiares, um registro de saudade que oferecemos ao sentimentalismo de nossos irmãos mais velhos. E aos leitores maiores de trinta e menores de cinqüenta... Mas não esqueçamos: Ruy Barbosa declarava, sinceramente, ser um admirador – não se dizia “fan” – de Chiquinho, Zé Macaco e Cachimbown...
  
Dados da Publicação
Nome da Revista: Revista da Semana  Número: 13  ANO: XLVI
Data: 31 de março de 1945.   Local da Publicação: Rio de Janeiro
Transcrição: Eduardo da Silva Pereira  Paginas: 19 á 25


Dados, Notas e Correções por Quiof Thrul
O nome do personagem é Buster Brown e foi criado por Richard Felton Outcault (mesmo criador do Yellow Kid), Bud Fisher foi criador da tira Mutt & Jeff. Curiosidade, na Holanda, aconteceu o mesmo que no Brasil, lá o Buster Brown se tornou "Sjors van de Rebellenclub", e teve publicações até 1999.

3.09.2012

DECIDINDO POR QUADRINHOS: MERCADO INTERNACIONAL

"Calma aí, galera! Tem emprego pra todo mundo... eu acho..."


Uma das mais populares opções para quem decide por quadrinhos como forma de vida é o mercado internacional. Grandes editoras como Marvel, DC, Dark Horse, Image, entre outras sempre estão à procura de pessoal para completar seus inúmeros títulos mensais. Esse mercado, além de claramente interessante pelo seu status, possui promessas grandiosas para aqueles que querem uma renda além da normal. A verdade é que sim, fazer parte do quadro de uma editora - mesmo que como um artista que "complementa" o time de um título vez ou outra - é uma adição magnífica ao seu currículo (adicione: "desenhou BATMAN" a sua lista de experiência pra você ver), e a parte da grana não é tão falsa assim, apesar de incrivelmente superestimada. As editoras americanas talvez sejam as que melhor pagam páginas de quadrinhos. No entanto, é preciso ver que há muito mais por aí.

Na última FIQ, editores e artistas europeus e orientais foram bem patentes em dizer que procuravam profissionais de outros lugares do mundo e para que mostrassem seus lugares de origem, seus costumes, ambientes e histórias, desmistificando a ideia de que pra trabalhar lá fora você tenha de "dançar a música deles". Isso é muito bom para artistas que procuram editoras que lhes propiciem mais liberdade de trabalho e que deem créditos às suas próprias ideias. Fora isso, no Brasil, a Maurício de Sousa Produções costumeiramente procura por novos desenhistas e roteiristas e algumas iniciativas, como as da Quadrix, abrem espaço para novidades.

Enfim, mas o foco aqui é mercado internacional e nesse quesito - apesar das enormes exceções - algumas regras devem ser seguidas para aqueles que têm essa pretensão. A seguir eu defino cada uma:

PARA DESENHISTAS, ARTE-FINALISTAS E COLORISTAS

Estude sempre. Sem estudo seu trabalho
nunca chegará onde você deseja.
Antes de tudo, há regras de ouro em qualquer uma dessas artes: estude sempre, desenhe todo dia, nunca pare de aprimorar. A indústria de quadrinhos é muito exigente e segue numa progressão: 1º saiba o básico, 2º melhore esse conceito, 3º diferencie-o e 4º estilize caso se sinta em necessidade de fazê-lo. Muitos desenhistas nem chegam a quarta etapa, mas com certeza os mais conhecidos foram até a terceira e os mais disputados e adorados extrapolam o último. Isso é necessário: fazer mais, querer mais, ser mais. Independente de estar numa forma de arte que se adora, ainda é uma empresa, uma indústria, e ela vai ser exigente. Se tem esse objetivo, você não será só um artista dela, mas um funcionário e só os melhores ficam no quadro da parece, né?

Uma vez treinado e estudado o bastante (lembre que um desenhista de quadrinhos não somente desenha, mas ele entende de narrativa, design, desenvolvimento, história, virada de página etc. etc etc.) é hora de seguir na trilha. Se não é americano e nem mora na mesma cidade que as editoras (e mesmo pra quem mora) a melhor saída é procurar uma empresa que agencie seu trabalho. Antes de fazer parte dela você vai fazer muitos (e quando digo "muitos" é muitos mesmo) testes para que vejam suas habilidades de desenho e como contador de histórias. Os agenciadores são muito bacanas porque eles veem onde determinado trabalho pode melhorar e dão toques (o que pode fazer com que os seus "muitos" desenhos se tornem "mais") até que você esteja em um nível aceitável para que eles possam te passar para um trabalho pago - o que pode vir de todos os lugares, desde trabalhos de pessoas físicas com muita grana pra gastar até editoras grandes. E nisso você vai progredindo até alcançar seu objetivo (que pode ser algo como um Romita Jr. que só desenha, mas do jeito dele, até um George Pérez, que faz o que quer onde quer).

PARA ESCRITORES

Muitos falam da dificuldade de se entrar no mercado internacional como roteirista de quadrinhos. Ela é real. A própria Marvel já disse que prefere escritores de seu país ou que falem língua inglesa - o que na verdade é que eles querem dizer: "que estejam inseridos na cultura do tio Sam ou de seus associados" - e uma rápida passada pelos créditos que cada edição comprovam isso. No entanto, dificuldade não é sinônimo de impossibilidades ou mesmo desistência. No máximo, devem ser consideradas como degraus para o eterno aprimoramento. Bom, mas não é isso que o leitor quer saber.

Antes de tudo, é preciso saber alguma outra língua que não português - pense em que mercado você procura: Europeu? Francês é uma boa pedida. Oriental? Seria legal ter conhecimento de japonês e coreano. Americano/inglês/indiano? Um bom conhecimento em inglês e/ou espanhol seria uma mão na roda. Outra coisa importante é ter sempre um desenhista amigo - ou saber desenhar - que converta seus roteiros escritos em peças mais acessíveis à leitura de um editor ou avaliador. Acredite, muitos editores não se dão ao trabalho de pegar um arquivo completamente em texto que não tenha, no mínimo, uma sinopse logo no começo, então o que você puder fazer pra despertar o interesse para seu texto é mais que válido. Também lembre que a atividade de escrita, por mais difícil que possa ser, ainda é mais rápida que a do desenho, então entre um roteiro e outro escreva contos, faça matérias, artigos, reviews, blogs, entre outras formas de texto, elas também te ajudam a evoluir e a ser reconhecido. Depois disso, os caminhos não são muito diferentes do que os para desenhistas: procure agências que sirvam para roteiristas ou mesmo editoras que procuram esses tipos de profissionais.

... MAS NUNCA ESQUEÇA DE PRODUZIR SEMPRE

Lembre: "Tentar não existe.
É fazer ou não fazer".
Apesar de todas as dicas - quase uma cartilha - a verdade é que você pode ser "encontrado" sem necessariamente seguir essa trilha, mas, para tal, mantenha sempre sua produção constante: faça zines, produza blogs, apresente seu trabalho para outros artistas e aprenda com eles, vá a convenções e troque ideias e experiências. Quem sabe você não consegue encontrar um atalho para seu sonho...

PRÓXIMA MATÉRIA: PUBLICANDO INDEPENDENTE!

2.29.2012

PAPO RPG: DUNGEONS & DRAGONS 5ª EDIÇÃO?



Mudanças, todos parecemos temê-las de alguma forma. E não é que um dos hobbys mais NERDs do planeta está para mudar? Dungeons and Dragons, um jogo baseado na cooperação entre pessoas que imaginam e interpretam o papel de heróis está prestes a ganhar sua nova edição.

Nova edição é sinônimo de caça às bruxas. Foi assim com as edições anteriores e é assim hoje. O "mimimi" de jogadores de RPG (jogo de interpretação de papéis, categoria em que o Dungeons and Dragons se encontra) já é algo habitual.

Em suas várias edições presenciamos a batalha ferrenha entre entre jogadores e edições. Grupos vendo dragões em edições mais novas e princesas puras e virginais em suas edições "ultrapassadas". A guerra das edições, estranhamente não promovida pela antiga TSR ou pela atual Wizards of the Coast/Hasbro é orquestrada por jogadores e mestres presos a visões no mínimo estreitas.

O que já foi dito é que essa 5ª edição buscará ser o amálgama de todas as outras. Reunir o "feeling" do maior e mais famoso RPG da galáxia numa única edição através de um Frankestein das edições anteriores. As direções apontam para um D&D customizável, onde integra-se os elementos e regras que aquele grupo deseja, mas sem tirar o gostinho de hack 'n slash clássico de D&D.

A opinião do Mestre da Masmorra é uma só: "É muita bola de fogo para pouco kobold!". A 4ª edição não possuiu um tempo de amadurecimento. O testes de implorar dos que se julgam old school fizeram até com que uma linha chamada Essentials fosse desenvolvida para acalmar as banshees que choravam pela 3.5. Antes de ver as vantagens incontestáveis para o Mestre e para o gameplay - o jogo realmente ficou cooperativo pela primeira vez em uma década - preferiram apelar com feats e combos podres que alegavam perda do flavor, perda da interpretação (como se a 3.5 fosse isso ou mesmo D&D), D&D MMO, preferência pela aberração altamente videogame da Paizo, enfim, uma hora tinha de acertar a defesa de Vontade da Wizards/Hasbro.

De repente, e mais uma vez, parece que nós, jogadores e mestres experientes, perdemos a percepção de que um bom jogo se faz com bons mestres e jogadores e não com edições. 90% das afirmações que ouvi e ouço de pessoas reclamando da 4ª edição são risíveis, no mínimo. Elevando edições anteriores ao status de divindade vamos aos poucos nos tornando os sacerdotes de crenças obscuras que vez por outra enfrentamos em sessões de jogo nos finais de semana. Somos nosso próprio dragão, deitados sobre aquilo que julgamos ser nosso tesouro. Liches julgando que uma edição é a nossa filacteria. Mas e quando os novos aventureiros chegarem? O que faremos?


A verdade é que mudanças, chorem ou não os adeptos da 4ª edição estão por vir. Pelos motivos errados, mas estão por vir. As mudanças apontam para um portal mágico, mas na prática não vai ser apenas rolar um d20. Como todas as edições anteriores de Dungeons and Dragons, haverá sucessos decisivos e falhas críticas na concepção da nova edição. De qualquer maneira, já estou vestindo a armadura e com os dados na mão. O que quer que venha por aí, que seja D&D!


Bruno Palhano é mestre/jogador/estudioso/criador de RPG de diferentes sistemas desde eras imemoráveis. Ele possui mais miniaturas e dados em casa do que existem jogadores de RPG no mundo. Nos tempos livres, ensina às mentes jovens os segredos da leitura e produção de literatura de verdade. Alguns aprendem e chegam ao 20º nível de seres humanos, outros não...

2.24.2012

CADA UM A SEU MODO de Júlio Belo


Sempre penso que as melhores obras podem ser definidas em poucas palavras. Apesar do título longo, "Cada um a seu modo", de Júlio Belo, um dos integrantes do bem sucedido The Comics Café, pode ser definido em uma: 'poesia'. É essa a sensação que o livro causa de suas primeiras páginas até as últimas. Ele possui a leveza de um livro de poesias, sem se preocupar se segue a jornada do herói ou não, sem ligar se está ajustado a alguma cartilha ou manual de "como fazer quadrinhos" e, por isso, acerta maravilhosamente em seu produto final.

Em formato grande, o livro possui três histórias: 'Sofia', '50 por hora' e 'A frase riscada', em cada uma delas os personagens principais são pessoas incrivelmente comuns em narrativas mais normais ainda. Este "despretensiosismo" é a grande sacada do álbum, pois a identificação com as situações e pessoas das histórias - magnificamente bem feitas em um traço limpo e belo, com seus detalhes harmônicos bem encaixados em um desenho que nunca cansa e que merece ser revisitado sempre - é imediata, tornando a obra completamente atemporal e com idade indefinida, servindo a todo e qualquer público.

Falando rapidamente sobre cada um dos "poemas". Em 'Sofia', somos levados a compartilhar um dia da vida da garota do título, uma criança que espera pela chegada do pai. Aqui, o passar do tempo e o caminhar da história são completamente imersivos, onde a proximidade com a personagem é tão forte que a "câmera" mantém-se quase sempre à altura da garota e cada um de seus movimentos são seguidos, numa verdade rotineira tão segura que o desfecho, apesar do impacto "sonoro" que ele gera, chega a ser pouco importante. O caminhar das pequenas coisas, tendo nisso a protagonista como condutora desse detalhe, é realmente o mais relevante.

Melhor texto ilustrado do álbum, '50 por hora' é um conto agradável de final deveras impactante - ao menos foi pra mim - nele há mais sons - e até esse momento é interessante ver como o autor se usa desse detalhe em seus quadrinhos, a sinestesia das onomatopeias (ou a falta delas) é uma daqueles caracterísitcas relevantes que ajudam a levar a história pra frente e abrem precedentes interessantes nas possibilidades das abordagens mais tradicionais da 9ª Arte. Este não deveria ser muito comentado. Deve ser lido pra ser sentido.

'A frase riscada', conto que fecha o trabalho, talvez seja o que mais gere "ruídos" - seria isso possível num material tão curto? - Em resumo, conta a história de um escritor que volta a sua cidade natal e como relembrar o passado muda os rumos de seu futuro. De todos é o que mais segue a cartilha de "como uma história deve ser contada" (por mais que eu odeie o termo), mesmo assim, Júlio o faz com o mesmo espírito dos outros e isso sim é o grande diferencial desse conto e de todo o quadrinho.

Uma coisa mais deve ser lembrada sobre o álbum: a riqueza e precisão com que o cenário é feito. Muitos autores inserem o cenário em suas histórias e esse parece plástico, um detalhe irrelevante em meio a milhares de outros rabiscos que em nada acrescentam, mas Júlio Belo consegue, com a maestria dos grandes, dar integridade e força ao cenário, colocando-o como um coadjuvante agradável que dá um diferencial a cada história, seja na ida de Sofia do universo micro de suas coisas ao macro de seu bairro e de seu ambiente final, seja no macro do mundo social em que começa '50 por hora' até o micro de sua conclusão, chegando enfim a 'aldeia do planeta' em 'A frase riscada', onde um ambiente específico se torna qualquer lugar do mundo, o autor eleva o ambiente, enriquecendo em muito suas histórias.

'Cada um a seu modo' pra mim teve um significado único, pois foi a primeira vez que vi lugares comuns a mim, que pertencem às coisas que vivo (e arrisco dizer, amo), impressas com a delicadeza e carinho que merecem. Esse comentário me fez ser suspeito, pois acabei de elevar um grupo o qual adoro pertencer: o de fortalezenses. Mas acho que o quadrinho de Júlio Belo serviu realmente pra isso: pra que cada um de nós, muitas vezes 'autodiminuídos' pelas desigualdades e mazelas que vivemos, olharmos pra nós mesmos e nossa cidade, diminuirmos os passos e vermos que não há nada mais belo que as pessoas e o lugar que agregamos no significado da palavra 'lar'.

SELO 80's