10.08.2010

Arrumando a Casa

Há muito eu tenho pensado em fazer algumas modificações aqui no blog. Inserir umas coisas, retirar outra, enfim, arrumar a casa. A falta de tempo e por vezes disposição me atrasaram, até porque meu interesse era colocar um post novo em um dia e no seguinte já está com tudo modificado, bem novinho mesmo, assim como fiz na última atualização, mas o teor e tipo de material que eu gostaria de apresentar aqui, pede que eu faça as coisas direito, dando um passo por vez, inventando, testando e chegando a um resultado agradável de ver e ler. Por isso decidi parar por algum tempo. Não estou abandonando o Z&A, isso não está em meus planos, mas se eu quiser algo bem feito eu vou precisar passar algumas semanas sem olhar pra isso aqui com o objetivo de colocar imediatamente um material novo.

Por isso, não vos preocupeis, ó, leitores. Imaginem que enquanto vocês veem o header com avisos, este post de esclarecimentos e nenhuma modificação, há um autor do lado de trás da tela, remendando, furando, costurando, colando, mudando de lugar e preparando algo realmente legal para todos. Então, tenham paciência, logo logo voltarei com boas novidades.

Até mais ver!

9.23.2010

Lady's Comics ou Quadrinhos para Senhoritas e Senhoras

Há algum tempo tenho andado um pouco ocupado e, por isso, lendo mais do que escrevendo. Isso me concede um tempo para procurar uma coisa ou outra interessante na internet. Um dia, então, meio que sem querer eu encontrei "um" site de "umas" meninas que resolveram falar sobre a 9ª Arte e outros gêneros ligados a esta.

Lady's Comics é mais que um site, um blog, uma central de artigos. Ele é uma verdade - até meio incômoda para alguns - que elas realmente estão aí - sim, rapaz, "elas", as mulheres - e fazendo um trabalho incomparável.

A premissa básica do site é a premissa básica de milhares de outros (inclusive deste que vos escreve): um ambiente eletrônico para se discutir, divulgar e estudar a nona arte, ilustração, animação, etc. No entanto, com um certo viés: Mariamma, Samanta e Luciana são especialistas em figuras femininas deste universo artístico. E fazem o negócio como especialistas.

O primeiro acerto vem no design do site. Limpo e leve, bem diferente de toda a energia caótica, multicolorida e - por que não dizer - poluída de vários sites e blogs do gênero. O tom de cor claro e o desenho de Lu Cafaggi (lembram do irmão dela? Ele já esteve aqui) dão aquela sensação de calmaria e convidam você a ler os textos, naquele bem pensamento bem oriental de "não espere o fim do texto, vá curtindo o ambiente e cada linha escrita", deixando qualquer um completamente à vontade para se envolver naquele espaço, sem pressa, sem atropelos, sem aperreios.

E se você, "machão", acha que o que vai ler é um bla bla interminável feminino sobre coisas bobas e impressões superficiais acerca de um assunto que elas pouco entendem, então, meu caro, você errou feio! Os textos das meninas além de sintéticos (qualidade que me falta, mas admiro e respeitosamente invejo quem a tem), são precisos e ricos de informações, referências e imagens. Nada é feito irresponsavelmente, pelo contrário, mesmo quando a opinião pessoal das escritoras é, de alguma forma, expressa no texto, é colocada de maneira discreta, com uma educação que o Criador só concedeu ao sexo feminino. Elas se mostram especialistas, já que é possível perceber que há pesquisa, contato com o material e envolvimento com o que está sendo apresentado.

Apesar de tudo, e na afirmação não há uma crítica negativa, a intenção das meninas é revelar, dentro desse mundo aparentemente tão nerd-masculino, a persona feminina em suas variadas formas: personagens, pessoas, autoras, editoras, contribuintes e simpatizantes. Não importa de onde venham ou como fazem, há mulheres do Oriente e do Ocidente, sem esquecer Europa e Brasil. Proposta que elas realmente seguem com uma precisão jornalística e respeitosa. Pelas palavras das autoras:

"A ideia é simples: falar das mulheres que estão presentes (ou que já se foram) no universo da Banda Desenhada. Mostrar que também frequentamos esses lares e que o fazemos em grande estilo! Viemos pra falar das personagens, das autoras, das desenhistas e do que há de novo feito por Ladys'Comics!"

E aí há uma pequena revolução que muita falta fazia ao mundo dos quadrinhos. Algo bem maior e significativo do que colocar mulheres fazendo seu padrõezinhos americanóides com personagens altamente masculinizados, não importa o gênero (sim, Marvel, essa foi pra você). Não é conceder um direito, não é abrir um espaço, é realmente aceitar que há uma força feminina que movimenta toda essa indústria e, muitas vezes mais que muitos outros, o faz de maneira integralmente artística, dobrando os tais padrões a uma visão sensível que só pode ser estabelecida com uma porção de feminilidade obviamente inerente a elas. Mais que uma mera atitude ou movimento, o que as senhoritas Fonseca, Coan e Cafaggi fazem no Lady's Comics é firmar algo que não deveria precisar de afirmação: o lugar de honra que essas mulheres têm, não só no mundo dos quadrinhos, mas em nosso mundo de "nerds-machos-bobões".

Parabéns pelo trabalho meninas. Não direi "sejam bem vindas" a este universo, mas "vocês demoraram a aparecer".


Este post é dedicado a minha noiva, uma mulher que luta pelo direito das mulheres, principalmente aquelas que sofrem violência doméstica, e que pra mim é um exemplo de dedicação e forma de pensar acerca dos problemas sociais e abriu meus olhos para o mundo que eu sequer sabia que existia. Valeu, Amor.

9.14.2010

Pensando no Presente e Futuro ou Obras Transmidiáticas

Criar é uma caixinha. Sim. Diferente do que muitos pensam o ato de criar é uma pequena caixinha feita de um material específico e único para cada um. Essa caixinha possui as bases para toda a obra. Muitas vezes é só uma frase, como "com grandes poderes vêm grandes responsabilidades", ou conceitos, como "Homem de Aço". Enfim, a base que sustenta toda uma estrutura maior está dentro de uma caixa segura, confortável e forte. O resto é tijolo, madeira, cimento e tinta.

No entanto, ter sua ideia em uma caixa não quer dizer que ela deva ficar o tempo todo NA caixa ou ter o diminuto tamanho desta. Eu realmente não acredito em obras que se limitam a tomar um espaço, um veículo, uma mídia. Talvez no século 17, hoje não. Uma boa história deve conhecer todas as maneiras de ser contada, ela deve alcançar todos os lugares possíveis e impossíveis. Nenhum trabalho deve ser fixo ou restrito a um único público e formato.

Games, vídeo, quadrinhos, cinema, paredes de parques, rolos de papel higiênico (que foi?), todos esses e outros são formas de mídias e todos podem ser utilizados para contar uma história. Fico imaginando se, ao invés dos enormes cartazes da TIM que tomam metade de um prédio no Centro de Fortaleza - ou em qualquer cidade que tenha esse tipo de coisa -, tivesse uma tira de Calvin e Haroldo, especialmente feita para aquele cartaz e com uma genial mensagem de Watterson - talvez até sem texto -, quantas pessoas seriam atingidas pela sabedoria do bom cartunista e que tipo de pessoas poderíamos formar com isso?

Acho que prender uma obra a um único espaço de mídia é colocá-la em um pedestal purista insensato e, por que não dizer, atrasado. Um bom livro sempre será imortal - vejam os casos de A Odisséia, A Divina Comédia ou Memórias Póstuma de Brás Cubas -, mas um filme inspirados nesses livros ou uma série de TV que tenta, o mais fielmente possível, transportar essas obras para o formato gravado, consegue algo tão e talvez até melhor que a imortalidade: popularidade.

Guillermo Del Toro, diretor, entre tantas coisas boas, de O Labirinto do Fauno e os dois Hellboy, recentemente deu uma entrevista dizendo que gostaria de tentar várias formas de narrativas, desde cinema, passando por quadrinhos, jogos e livros. Peter "O Um Anel" Jackson também já houvera comentado o desejo de se envolver com jogos. Acho esses posicionamentos e opiniões uma visão madura e pé no chão dos caminhos que a arte narrativa pode (e deve) chegar. Senhor dos Anéis deixou de ser um livro pra ser uma obra transmidiática - hoje temos de quadrinhos a jogos on-line - até com contas gratuitas! Um dos filmes mais comentados do ano, A Origem, além da película lançou um quadrinho on-line completando espaços deixados na história. Isso para comentar exemplos de cineastas que perceberam a importância de se colocar e até mesmo ligar (ou linkar pra ser mais fresc... cool!) eventos narrativos únicos, mas interligados ou não, de um mesmo universo.

Diferente de uma pura estratégia de mercado, acho que esse tipo de atitude possibilita um maior número de opções e formatos para uma história, um conceito, uma ideia etc e, com isso, mostra que qualquer espaço pode ser um espaço narrativo. Assim, um filme que apresenta aquela ideia da caixinha e amplia essa mesma para tiras on line, quadrinho impresso, livros de contos, podcasts, blogs, só pra falar em mídias mais comuns, consegue atingir uma quantidade muito maior de público e não só imortaliza o conteúdo da caixinha, mas faz com que este seja conhecido por todos.

Sei que uns 20% de pessoas vão dizer "e aqueles que não tem internet ou dinheiro pra lan house?". Bem, aí eu mesmo proponho uma ideia: se uma editora resolve investir toda sua grana em um outdoor furreca com uma capa sobre um fundo de cor chifrim e o nome do autor bem grande que muitas vezes vende muito mais que a obra em si, tipo "Caulo Poelho", porque não investir em uma forma de se contar a história - ou parte dela ou um conto no universo dela - naquela mídia? Ou comprar uma parede de um local onde passam muitas pessoas e inserir uma tirinha por lá? Sério? Por que um veículo narrativo deve ser único e imutável? Por que TUDO não pode ser uma "página em branco" e se transformar em um espaço criativo de veiculação de histórias?

Enfim, são ideias e devaneios de um narrador que sempre quer tudo muito além da caixinhas e que não apoia atitudes como as do digníssimo Alan Moore - e que fique bem claro aqui que este redator admira de muitas formas suas obras, mas odeia sua postura e bobagens profissionais - que deveria sim pegar os direitos de Watchmen entre outras coisas que ele fez e mandar ver em outras mídias aproveitando toda sua "genialidade" em espaços muito além dos oferecidos pela sarjeta.

Desculpem o atraso nos posts galera. Até semana que vem.

9.06.2010

EXTRA! EXTRA! TRAGAM SEUS QUADRINHOS!


Olá, leitores, seguidores e fãs da 9ª Arte!

No último sábado, 4 de setembro, produtores, amantes e divulgadores da 9ª Arte se reuniram na Gibiteca de Fortaleza para mapear o movimento quadrinho em Fortaleza, avaliar e discutir possibilidades de publicação em Fortaleza. Nessa reunião estiveram presentes: Paulo Amoreira, JJ Marreiro, Weaver, Marcílio S., Denilson Albano, Fernando Lima, Einstein, Diêgo Silveira, Rédi Roger, Mário Enderson, Everton Little Ton, Falex, Diêgo José, Dom Cabral, Luís CS (eu), dentre outros.

O principal assunto foi o projeto HQFor – título provisório que tenta aproveitar uma verba pública da prefeitura destinada à publicações para desenvolver projetos ligados a quadrinhos. Paulo Amoreira soube da existência de tal "fundo" e reuniu o Fórum para articular este projeto a ser apresentado à Secultfor. O projeto objetiva a publicação de 12 revistas de 20 páginas cada (4 capas e 16 páginas de miolo), colorida ou não (dependendo do estilo de cada autor), tamanho A5. Serão 1000 exemplares organizados em uma caixa e Weaver sugeriu que sejam feitas 500 caixas e que cada autor receba uma caixa e 500 exemplares de sua publicação para poder distribuir e vender como quiser.

A idéia é que essas 12 revistas funcionem como mapa do que, como e por quem os quadrinhos são feitos em Fortalza, por isso não há NENHUMA restrição de gênero ou estilo. As restrições são apenas de formato, número de páginas e o fato dos autores terem que ser todos de Fortaleza. Eles devem estar vivos e terem nascidos aqui ou residirem aqui por mais de 2 anos.

E agora, tio Luís, como faço pra participar?

Siga as seguintes instruções:

Os trabalhos podem ser feitos individualmente ou em equipe;

O projeto deve ser apresentado em quadrinhos com uma só história ou histórias curtas ou tiras, contanto que o total de páginas somem 16 (arte em lápis ou esboço é válida, contanto que fique claro o que está escrito e desenhado e já mostre como o quadrinho vai ser). Elas devem ser entregues para o conselho em TRÊS vias impressas em A5. Apresentar uma capa é opcional;

Os autores terão um mês para entregarem os projetos na Gibiteca de Fortaleza. Não esqueçam, pelamordeDeus, de incluir nome, endereço, contato, um breve histórico sobre os autores e descrição da HQ. Qualquer material a mais é válido como sketches de personagens ou roteiro à parte. Incluam como anexos;

Paulo Amoreira, Weaver e Jesuíno serão os responsáveis pela seleção;

O fórum pretende se reunir, pelo menos uma vez por mês, no primeiro sábado de cada mês, à tarde (por volta das 16h), na Gibiteca de Fortaleza.

O calendário definido para as reuniões do Fórum e avaliação das HQs é o seguinte:

25/09/10 – 16hs – reunião extra do Fórum. Pauta: eleição da equipe de coordenação do Fórum. Os presentes devem apresentar sugestões de futuras pautas;

02/10/10 – 16hs – deadline da entrega dos projetos para a equipe que irá selecionar as 12 publicações que se realizará de 14h às 17h, na Gibiteca de Fortaleza – Que funciona dentro da Biblioteca Dolor Barreira – Av. Da Universidade, 2572 – Benfica.;

09/10/10 – o resultado da seleção será divulgado online (http://gibitecadefortaleza.wordpress.com e por este humilde blogger). Os selecionados que tiverem que finalizar suas páginas terão cerca de três semanas para isso;

06/11/10 – deadline para a entrega do arquivo final que irá para a gráfica;

21/11/10 – As 12 publicação irão para a gráfica.

Meu povo, a hora é agora! Falem com suas mães, pais, amigos, namoradas, tranquem-se em algum lugar e CRIEM! PRODUZAM! FAÇAM! Essa é a chance de muitos divulgarem seus trabalhos e de termos cada vez mais espaço para os quadrinhos aqui em Fortaleza e, quando esse projeto der certo, no Ceará inteiro! Então, mandem ver!

Aos que querem alguma dica sobre o que fazer, segue o link da minha ideia de Quadrinho Panfleto. Vocês baixam o arquivo e desenvolvem algumas páginas nisso, principalmente o pessoal que pretende fazer mixes!

Qualquer outro esclarecimento procurem nos sites do ARMAGEM ou no blog da Gibiteca de Fortaleza.

MOVIMENTO QUADRINHOS PARA TODOS!!! FINALMENTE!!!

8.30.2010

Review Apneico: Tempestade Cerebral

Na época do KIMOTA! Podcast, um dia surgiu a ideia de se fazer resenhas sobre zines. A razão era simplesmente divulgar a produção nacional, seja de quadrinhos on-line ou impressos. Fizemos duas resenhas "no ar", antes de nossos tópicos do dia e de maneira bem rápida. Ao pensarmos na reformulação do site, alguém propôs a ideia de por o review escrito no corpo dos posts, assim as pessoas poderiam ler e reler a resenha quando quisessem ao invés de passar um tempão tentando encontrar onde porventura ela estaria no arquivo de áudio além de se decepcionar um pouco por ser muito rápida.

Enfim, eu fiz a primeira resenha escrita, que coincidiu, por sua vez, com o quadrinho feito pelos alunos do Daniel Brandão, fanzine que contempla o fim do curso da cada turma. A resposta ao texto foi muito positiva e me incentivou a fazer outras, mas fui sanado primeiro pelo fim do podcast e atualmente pela aparente escassez de material atual em minhas mãos (possivelmente estava indo aos lugares errados).

Aqui retorno a resenhas e, novamente, tenho um material fruto do Curso de Quadrinhos do Daniel. Material esse que já me trouxe grande felcidade pela quantidade de páginas (60), recheadas de narrativas gráficas e desenhos. Virtuosismo não é raro e tanto há promissores desenhistas, quanto argumentistas criativos, dando seus passos iniciais que não parecem ser tão "novatos" assim.

Diferente da coletânea anterior dos alunos de DB, nesta parece haver uma maior quantidade de pessoas diretamente ligadas ao mercado de quadrinhos, tendo em vista que os temas distanciam-se da postura de "contra-cultura" que parecia existir no último número. O título, Tempestade Cerebral, e a capa têm essa aparência. Explosões, personagens de faroeste, lutadores de espadas enormes, gladiadores, cientistas de ficção científica e mesmo uma mulher nua em um cavalo (mantendo a devida "censura") já adiantam o conteúdo do Zine, na detalhista capa de Vicente L. Reis.

Como dito antes, Tempestade Cerebral é um quadrinho virtuoso, simplesmente porque os que o fizeram, levando em conta que são todos novatos, tiveram grande apreço por seus trabalhos. Não falarei sobre todos, mas procurarei pontuar qualidades e dificuldades que verifiquei. Logo de início devo dizer que a capa é por deveras atraente, lembrando os primeiros trabalhos da revista Heavy Metal em seus caos ordenado. Infelizmente a impressão em preto e branco, formato tão comum ao estilo fanzine, acabou por dificultar a qualidade da apresentação, confudindo o nome dos autores com o desenho central e mesmo fazendo com que os personagens no carro parecessem um amontoado pouco claro se vista um pouco de longe. As artes internas, no entanto, aproveitaram o PB para valorizar suas obras com sombras bem posicionadas. Alguns pecaram por usaram tons de cinza e suas narrativas sofreram com a impressão.
Todos acertam por escolherem histórias curtas e precisas, sem muitos floreios ou conflitos. Mesmo algumas que podem ser consideradas o primeiro passo de uma possível série são organizadas, possuem começo meio e fim e não confudem ou enganam. Elas estão ali com suas funções, designs e narrativas fáceis de se entender e absorver. Para alguns pode parecer simplismo, mas analisando que os autores são iniciantes contadores de histórias gráficas, as escolhas de seus roteiros e saídas para estes é de uma sabedoria e bom senso que falta a muitos no mundo dos quadrinhos.

Entre os artistas temos um misto de desenhos mais simples, lembrando o cartum, óbvias influências dos comics americanos e alguma coisa mais underground. Nesta edição as influências do mangá são mais discretas e podem ser vistas principalmente em alguns desenhos de tokusatsus (é assim que se escreve mesmo?). Todos com certo cuidado e apreço. No entanto, três desenhistas se destacam, Ivo Soares (por Jon Dizeo em Fúria), Vicente L. Reis (capista e por A Vingança do Bastardo) e Bessa Jr. (por Round 1 Fight e Bosco).

Ivo é um grande narrador gráfico. Suas "câmeras", escolhas de perspectivas e enquadramentos revelam um autor de quadrinhos iniciante com uma bagagem acima da normal. Sua história quase sem falas é de uma qualidade única. Possui ritmo, velocidade e dinâmica. Algo em seus desenhos deve ser melhorado, coisa que vem com a prática, mas eles já possuem uma identidade, obrigação de qualquer desenhista que deseja uma carreira sólida e reconhecida. Realmente um achado dentro do curso de Daniel.

Vicente L. Reis, por sua vez, possui um seguro pé no estilo dos comics, com personagens icônicos e sobre-humanos e sombras trabalhadas. Seus desenhos aproveitaram com segurança a impressão PB. Sua arte me faz lembrar desenhistas dos anos 90, em suas qualidades, a quadrinização também, mas isso já não é mais uma vantagem na minha opinião, pelo menos em termos de enredo. Sua composição de página é boa e a narrativa também, apesar de merecer um cuidado nas viradas de página e na clareza do argumento. Mesmo conselho de Ivo cabe a ele: prática constante e mais referências, tanto em termos de quadrinhos quanto em outras mídias, vai ajudá-lo a seguir com mais segurança numa carreira profissional.

Talvez o grande achado, sem desmerecer qualquer um dos autores da HQ, mas reconhecendo que não importa que ambiente genial seja, sempre há um que se destaca, é Bessa Jr. Um nome que não deve ser esquecido por ninguém. Seus traços cartuns mostram certeza e maturidade profissional. Devo confessar que senti uma certa "preguiça" em seu desenho, mas longe de ser uma desvantagem, o que acaba por dignificar ainda mais sua arte (afinal, se com uma aparente "preguiça" ele fez isso tudo...). Seus desenhos são expressivos e divertidos, me lembra as fases de Looney Tooneys e Tom & Jerry em que o produtor era Chuck Jones, um dos grande mestres de "gags" em animações. Bessa é um daqueles artistas que alegram a gente por simplesmente existirem, mas que alegrariam ainda mais se publicassem regularmente outros trabalhos. Então, meu caro, pense na ideia de criar um blog e divulgar seu trabalho ou mesmo entrar me algum grupo de quadrinhos e produzir algo impresso. Se desejar, cedo espaço para você e para qualquer um que tenha interesse, aqui no Z&A para colocar seus quadrinhos.

Enfim, não me alongarei com os outros, não por não merecerem, mas pra não ter de deixar este texto maior do que já está, mas merecem destaque, então segue o nome da galera:

Diogo Loureiro
Will Silva - wilton_ks@hotmail.com
Cássio T. C. Andrade
Calebe "Kapan" Pereira - kapan_agerbond@hotmail.com
João de Victor de Sousa - sadlerplaga@hotmail.com
Vicente Luiz Reis Alexandrino - vicenteluizreis@hotmail.com
Bessa Jr. - bessajr@hotmail.com
Ivo Soares

Completo o post de hoje com um comunicado: Desde "não sei quando" tem acontecido na Gibiteca de Fortaleza o Fórum de Quadrinhos, onde autores e entusiasta das narrativas gráficas se reúnem para pensar em estratégias de divulgar e produzir HQs em nosso lindo Estado. Então, meninos e meninas, 14h ou 16h, todo sábado, apareçam na Gibiteca de Fortaleza e levem seus quadrinhos para lá.

Até semana que vem, galera!

8.19.2010

Anuário de Quadrinhos UGRA

Hoje vou fazer um post diferente. Por sinal, minhas mais sinceras desculpas a alguns leitores deste blog porque havia prometido uma resenha de fanzine. Estou com um na mão e uma resenha engatilhada, mas não irei publicá-la agora por conta de um e-mail que chegou ao grupo Mercúrio e espero dividir com todos.

A UGRA Press é uma iniciativa que tem como objetivo principal "divulgar trabalhos, tomar conhecimento de outras publicações e estabelecer contatos" e está realizando o I Anuário de Fanzines, Zines e Publicações Alternativas, para isso, logicamente, eles precisam de muito material! Então, FANZINEIROS DE TODO O BRASIL, UNAM-SE, SEUS PARVOS! Aproveitem a UGRA e divulguem seus materiais, pelamordeDeus!

Vejam como participar pelo site da UGRA e vejam o vídeo dos caras sobre seu anuário!


Próxima semana tem mais!

8.11.2010

Entrevista com Geraldo Borges, do Ceará para o EUA


Olá, caros leitores!

Mais uma entrevista para vocês. Dessa vez o artista é um ilustre cara que já trabalhou para grandes editoras americanas e recentemente terminou um trabalho para a DC Comics. Tem uma arte detalhista e bem cuidada, prova de responsabilidade e respeito aos fãs. Tive o prazer de ter esse cara como primeiro divulgador deste humilde blog e constante visitante, por esse e vários outros motivos, o link de seu blog estará sempre aqui. Cearense, desenhista, uma cara super chapa e pai de três mocinhas, para os que já conhecem e para aqueles que ainda não, Geraldo Borges no Z&A, galera.

1. Olá, Geraldo, é muito bom tê-lo aqui pelo Z&A. Seja bem-vindo. Como primeira pergunta vou ser bem clichê e gostaria de saber qual foi seu primeiro contato com quadrinhos? Alguém levou um até você ou sozinho olhou pra uma obra numa banca e disse: "deixa eu ver aqui..."? E quando isso foi determinante quanto ao rumos que tomou até chegar onde você está?

Não lembro ao certo qual foi o primeiro quadrinho com o qual entrei em contato. Provavelmente, Mônica, Disney, Trapalhões, Dartagnan (uma adaptação de um desenho animado)... mas recordo que o ato de colecionar veio na época de Crise e Secret Wars, logo depois com o Novo Universo Marvel. Nesse ponto virei realmente um fã de colecionar HQs.

2. Qual sua melhor lembrança como leitor de quadrinhos? E como artista profissional na área? Que gêneros você mais gosta de ler/assistir/colecionar?

Uma coisa que sinto falta hoje é de não ter mais quadrinhos nas bancas comuns; quando era criança sempre saía de casa na expectativa se a minha HQ predileta havia chegado na banca, de imaginar como a edição continuaria a história anterior, essa é uma boa lembrança. Como profissional, uma grande lembrança foi quando recebi o convite pra desenhar uma edição da Mulher Maravilha da DC Comics; estava de férias com a minha esposa e filhas em Natal quando veio essa notícia... Além das férias extremamente divertidas, receber essa notícia deu mais alegria a elas. Sobre os gêneros, fantasia e ficção (incluindo os super-heróis) são os meus gêneros prediletos nas HQs.

3. Há pouco você terminou uma minissérie pra DC Comics, Rise of Arsenal, e nela você desenhou muitos personagens clássicos da editora, como Batman (com uma incrível cena de luta), Arqueiro Verde, antes você já tinha feito trabalhos com Mulher Maravilha e chegou a desenhar Galactus em uma HQ do Nova. Como foi desenhar esses mitos? O que a "criança" Geraldo sentiu ao ter esses trabalhos em mãos?

Na verdade, esse é o barato de trabalhar com quadrinhos: é a realização de um sonho de criança, pois sempre desenhei e contei histórias; fazer isso como profissão é algo extremamente prazeroso e mais ainda quando o trabalho envolve personagens que fizeram parte da sua vida e autores que lia como fã de quadrinhos e que agora me vejo como colega de trabalho (como foi o caso do arte-finalista Scott Hanna, que trabalhou comigo em R.E.B.E.L.S.).

4. Alguns artistas, depois de um tempo no mainstream, costumam ter ojeriza em voltar a trabalhar com as grandes editoras alegando, entre tantas coisas, desrespeito destas com seus trabalhos. Como brasileiro e cearense, imagino que tenha sido difícil para você chegar até Marvel e DC. Fala um pouco de como é essa relação para você, eles realmente se mostram meio "frios", preconceituosos ou "mal-educados"? Tem algum trabalho que você tenha desistido ou negado a fazer por conta de algum desrespeito por parte dos contratantes?

Não tenho nada a reclamar do relacionamento que tive com as editoras de um modo geral. Principalmente nas grandes editoras, tive um bom retorno dos editores e artistas envolvidos, uns mais, outros menos. Na DC minha experiência foi mais intensa no relacionamento com os profissionais, entrando em contato direto com o escritor, finalistas e editores. E as grandes editoras normalmente nos pagam com regularidade, ponto que as editoras menores sempre têm dificuldade de honrar - mas nunca levei nenhum calote :^) - E fazer parte de uma agência como a Impacto, que tem experiência nesse mercado, facilitou ainda mais essa relação com as editoras.

5. Há um tempo você integrou o quadro de profissionais que criaram o Curso Prático de Histórias em Quadrinhos online da UNIFOR e, atualmente, muitos autores e desenhistas, como Adam Hughes, dão "aulas online", descrevendo e ensinando a prática em vídeos curtos para YouTube, em "blogs-apostilas" e outras mídias digitais. Como é produzir trabalhos assim e o que você acha desse movimento? Você acha que tem os resultados esperados?

Acho que todo esse movimento tem o intuito de disseminar o conhecimento e isso é algo muito positivo. Quem trabalha com quadrinhos há um bom tempo sabe o quanto era difícil encontrar bibliografia ou cursos sobre o assunto e hoje esse panorama mudou, com um auxílio enorme da internet, que nos conectou ao mundo e possibilitou um aumento na troca de experiências. No meu caso específico com o curso de quadrinhos da UNIFOR, foi muito gratificante poder utilizar todas as ferramentas virtuais que a educação a distância oferece, além da oportunidade de conhecer grandes artistas (uma grande parte já profissionais na área de ilustração e design) e tê-los como alunos. Isso foi fantástico! Em breve reuniremos todas as HQs produzidas no curso e faremos o lançamento dessa coletânea.

6. Fora isso, você tem experiência com aulas através de cursos que já ministrou com Daniel Brandão e JJ Marreiro. Como é dar aulas de desenho e narrativa gráfica (dessa vez ao vivo haha)? Que histórias você viveu que mostram que esse trabalho foi gratificante (ou não)?

Além dos cursos com o JJ e o Daniel, também fui professor de desenho e quadrinhos do Centro Cultural Cláudio Santoro, em Manaus-AM, e sou atualmente professor de Animação e Infografia do Curso de Graduação de Audiovisual e Novas Mídias da UNIFOR. Por mais que a internet hoje encurte distâncias, nada substitui o contato direto, de você estar presente, adaptar uma mesma aula de acordo com as pessoas que lá estão, e poder trocar experiências da forma mais intensa possível, com esse contato vida-a-vida. Muitos dos meus alunos hoje trabalham com quadrinhos, são grandes profissionais; mas mesmo os que não seguiram na área, sempre percebi que o curso ajudou em algum aspecto, e isso realmente é gratificante.

7. Falando um pouco sobre a prática de se produzir quadrinhos. O que é mais difícil no desenvolvimento de uma página: narrativa, enquadramentos, ajuste do roteiro ao desenho? Houve algum trabalho que você demorou mais que o esperado para resolver por ter se deparado com problemas desse tipo? Conta o caso pra gente e como você o "solucionou".

Na verdade, o grande desafio é escolher a melhor maneira e a mais interessante de contar uma história, pois existem infinitas formas de fazê-lo; e dentro das HQs existem vários aspectos a serem levados em consideração nessa hora: as expressões faciais e gestuais, os enquadramentos, as cenas de impacto (que tem que ser bem dosadas de acordo com o ritmo e o clima da história), as viradas de páginas (algo que só os quadrinhos possuem), a relação espaço x ritmo/tempo... Não lembro de ter um trabalho que tenha demorado mais por conta de dificuldades, mas no trabalho que fiz para o R.E.B.E.L.S., o grande desafio era entender toda a história do grupo até então pra poder desenhar essa única edição; pra isso, li todas as 11 primeiras edições que o editor me enviou e tive que aprender a desenhar cerca de 30 personagens que nunca havia desenhado na vida, com o grande cuidado com a continuidade, tentando não errar seus uniformes e características. Sobre isso, tem um fato curioso: um dos personagens, Starro, tinha várias referências que o editor havia enviado e todas, mas TODAS elas apresentavam o Starro sempre com uniformes diferentes, me deixando na dúvida sobre qual versão escolher. A minha opção foi fazer um mix de todas as diferentes versões que eu tinha e fazer uma versão própria :) Em JL: the Rise of Arsenal, a grande dificuldade foi desenhar a morte da filha de Roy Harper, uma cena muito forte que foi realmente complicada devido a grande carga emocional.

8. Seu estilo tem um tom clássico, remetendo a quadrinhos de Byrne, Romita Sr, entre tantos daquela época, mesmo assim com um traço bem mais forte e realista, cinematograficamente moderno. Você se usa de referências como filmes, fotos, pessoas de sua casa, amigos ou você prefere ir atrás de suas referências dentro da área? Que materiais você gosta de utilizar nos seus desenhos (lápis, lapiseira, papel, borracha, etc)?

Uso os dois tipos de referência (fotos feitas mim – com a ajuda da minha família – ou de internet e filmes ou ilustrações). Quando necessário, também faço montagens a exemplo do Mike Deodato (não com a mesma maestria, diga-se de passagem) e em cima das montagens (que imprimo depois), faço meu esboço prévio pra depois passar a limpo na mesa de luz pro papel final. Hoje estou usando muito um software 3D chamado Sketchup (que os artistas da Marvel usam com bastante frequência) pra ajudar a compor os cenários das minhas páginas e fazer as montagens de layout.

9. Falando de quadrinhos atuais. O que você tem achado do mercado em termos de histórias e publicidade (megassagas que reescrevem tudo o tempo todo, anéis de plástico, capas rasgadas, heróis se tornando vilões)? Você acha que há um movimento para tornar os heróis excessivamente reais a ponto de descaracterizarem seus significados básicos ou isso é balela de leitores mais xiitas e os quadrinhos estão seguindo uma evolução natural de seus estilos?

Na verdade, Watchmen e Cavaleiro das Trevas definiram o rumo que os quadrinhos tomaram hoje, deixando de lado o maniqueísmo e fazendo pairar um lado sombrio nas sempre coloridas aventuras de super-heróis. O problema é que só existe um Alan Moore (que praticamente abandonou os quadrinhos) e um Frank Miller (quer dizer, não existe mais “aquele” Frank Miller). Essa relação quadrinhos-cinema tão estreita (que é ótima, afinal valorizou a nona arte como nunca antes visto) provoca um efeito colateral em algumas HQs: a busca por “conceitos” que possam ser convertidos em filmes e merchandising; isso faz com que se esqueçam muitas vezes do objetivo principal de uma HQ, que é contar boas histórias. Mas ainda bem, existem artistas que ainda mantém isso como foco principal, pra nosso deleite como fãs de bons quadrinhos.

10. Uma pergunta que sempre faço: o que você está lendo/assistindo/colecionando atualmente em termos de quadrinhos, livros, revistas, vídeos, séries? E o que você acha indispensável de ler para qualquer pessoa que deseja trabalhar com quadrinhos?

Atualmente estou lendo o O Livro do Cemitério, do Neil Gaiman, um livro sobre roteiro do Syd Field e um outro sobre animação, e relendo aos poucos um livro chamado Da Fera a Loira, da Marina Warner – psicanálise sobre contos de fada. De quadrinhos, li recentemente a série Predadores, desenhada pelo Enrico Marini (recomendo) e acompanho alguns títulos Marvel/DC. De séries de TV, as únicas que acompanho mesmo são Big Bang Theory e CSI (minha esposa é fã, assisto sempre com ela). Quem deseja trabalhar com quadrinhos deve sem dúvida, dentre outras coisas, conhecer a obra do mestre Will Eisner, não só os seus quadrinhos, mas como também os livros didáticos que ele deixou, além de vários diálogos com outros grandes artistas (Shop Talk). Hoje existe uma bibliografia muito rica pra quem quer se aprofundar na arte sequencial, além da internet em si.

11. Geraldo, a derradeira pergunta: quais seus próximos projetos? E dá uma palavrinha para a galera que tá começando a desenhar e quer alcançar o mercado americano como você.

Agora que conclui a minissérie do Arsenal, estou aguardando meu próximo trabalho - que não sei ao certo qual é - dos EUA. Tenho algumas colaborações pendentes com artistas nacionais que preciso concluir e finalmente um projeto de um álbum que vou produzir em parceria com um roteirista pro mercado nacional a princípio. Espero que ele fique pronto esse ano ainda ou no máximo ano que vem. Além disso, no segundo semestre de 2010, devo lançar pela UNIFOR mais uma turma do Curso de Histórias em Quadrinhos Online. Pra quem está começando, a palavra é determinação! Nunca desistir se realmente tem a certeza do que quer fazer. Estudar bastante, praticar bastante e, caso queira ouvir algum conselho de um profissional da área, escute-o com bastante atenção (mesmo que a priori você não concorde com o comentário dele). E principalmente ter paciência, pois nunca começamos nos comics desenhando o Superman, nem trabalhando numa editora conhecida como Marvel/DC. Até chegar lá, há uma estrada importante a ser percorrida e que vai lhe fazer chegar e ficar onde você quer.

Cara, novamente, muitíssimo obrigado mesmo por conceder essa entrevista. Eu e alguns amigos admiramos muito seu trabalho, colocando-o entre os mais importantes artistas que estão aqui. Sei de seu começo com o Capitão Rapadura. Cheguei a ter uma revista com desenhos seus dessa época, inclusive emulei sua arte, mas que se perdeu em meio às várias mudanças que tive na vida. É realmente um prazer tê-lo como um conhecido eletrônico e devo dizer que me admiro por sua simpatia e humildade, muitas vezes incomum para autores, mas relativamente normal para desenhistas e artistas cearenses. Desculpe qualquer falta que por ventura sem querer cometi como fã empolgado. Espero ver mais do seu trabalho e conhecê-lo melhor com o tempo, mas, por enquanto, me sinto feliz por seu tempo concedido a este blogger.

Eu que agradeço mesmo sua paciência por esperar minhas respostas, por acompanhar meu trabalho e espero poder estarmos juntos mais uma vez em breve!! Um abraço!!

Querem mais do Geraldo? Visitem seu blog em nossa barra de links e vejam seu perfil como artista Impacto!

8.10.2010

Toy Story 3 [Spoilers]

Ok, vou confessar uma safadeza pra vocês. Estou sem ideias para escrever. Aquele tal de bloqueio criativo, sabem? Mas longe de mim fazer com que isso atrapalhe o andamento deste blog (já basta a rotina do meu trabalho, meu computador quebrado e minha internet irregular). Por isso, peguei uma matéria que escrevi há um tempo, mas por alguma razão resolvi não colocar. Sei que na altura do campeonato ela já está bem atrasada, mas acho que nem todas as pessoas seguem os mesmos tempos que a indústria do entretenimento, então vejam aí meu review de Toy Story 3. Mas antes, uns recados pra vocês.

Recado 1: Vejam o header novo. Um desenho gentilmente cedido por Geraldo Borges, desenhista cearense que já fez trabalhos pra Marvel e DC. Espero ter mais caras nacionais não só nos títulos mais em entrevistas e em outros posts. Mandem seus desenhos para roteirozeapneia@yahoo.com.br que eu publico aqui e os melhores viram o header do mês. Preparem alguns de Natal, estou sem ideias...

Recado 2: Fanzineiros do Brasil, mandem seus materiais para o e-mail: roteirozeapneia@yahoo.com.br. Gostaria muito de por uns reviews e críticas aqui, mas falta material recente (e que eu não esteja envolvido) em minhas mãos. Eu ia lançar uma resenha de um Fanzine bem legal, mas descobri que a revista era de 2008, então deixei pra lá. Mandem materiais novos que eu adoraria divulgar aqui.

Recado 3: Vejam que acrescentei dois links na lateral: o que leva ao blog de Warren Ellis, para mim um dos mais criativos escritores de ficção científica da atualidade (lembram dele na minissérie "Extremis" do Homem de Ferro?), e de Emma Ríos, que atualmente está desenhando Homem-Aranha nos EUA e é uma artista de traço muito bom e que recebeu minha admiração por desenhar um quadrinho sobre Amadis de Gaula, possivelmente a primeira novela de cavalaria da história. Então acompanhem essa galera que eles são muito bons.

Recado 4: Vi Príncipe da Persia também. Muito Legal. F$%@*$# os frescos!

Toy Story 3

Há obras que são imortais por marcarem a criação de uma nova tecnologia para um meio de comunicação, como foi Tron, Parque dos Dinossauros, Avatar. Há obras que são imortais porque estão acima de muitas obras dentro de seu gênero, como E o Vento Levou..., Psicose, Star Wars – O Império Contra-Ataca. Toy Story se engloba nas duas características. Magnificamente. O filme é uma verdadeira joia do cinema moderno, não somente do de animação. O chato é que dificilmente uma sequencia de um filme desses funciona. Talvez só 2% de continuações de obras incríveis são realmente boas. Toy Story 2 está nesses 2%. O filme logicamente não possui toda a enorme e grandiosa novidade do primeiro, mas diverte e encanta com uma narrativa atraente e tocante. Em nada perde em relação ao primeiro. A iclusão de novos personagens e o aprofundamento dos antigos foi na medida.

Mas a coisa pareceu parar ali. Mesmo com tantos filmes bons no currículo da Pixar, o fim da série não parecia tão atraente. Até as chamadas para o filme davam a entender que seria uma sequência meio "boba" apelando para um conjunto de piadas que só tiram alguns risinhos. Ledo engano. O terceiro da série é a consumação de uma verdade inquestionável já repetida aqui mesmo neste blog inúmeras vezes: a Pixar não sabe errar. Nem quando ela tem a chance para isso.

Toy Story 3 é uma pérola tão, quiçá mais, brilhante que qualquer outro episódio da trilogia. Não há erros, ou cenas desperdiçadas, ou falas vazias, ou momentos cansativos. Toy Story 3 é uma obra completa que fecha a mais importante série animada para o cinema desde que o primeiro TS foi feito. Mais que isso, a trilogia marcou uma geração de maneira completa (desde crianças que agora estão bem mais crescidas, até adultos que já não são mais tão jovens) sem tratá-los como imbecis descerebrados ou intelectualoides convencidos. A história desde o primeiro até aqui é tão única como um parente que você reconhece os passos, ou convidativa quanto um abraço de pessoa amada, ou doce como o melhor momento de suas férias. Toy Story 3 não esperou seus espectadores crescerem, pelo contrário, convenceu-se que eles amadureceram.

Não vou aqui explicar o enredo. Não há necessidade de fazer tanto. Woody é o cowboy, Buzz o astronauta. Eles são brinquedos de Andy. Isso é tudo. Um contexto de díspares criando um conto de fadas moderno, cheio de mensagens engrandecedoras, verdadeiras e tocantes.

Enfim, o terceiro filme começa com uma grande homenagem aos filmes anteriores e antes que se imagine que é uma mera encheção de linguiça, ele respeita os que nunca assistiram à obra (existe realmente gente assim?) ao mesmo tempo que diverte os ansiosos fãs. Assim, todos sabem quem está ali, Senhor e Senhora Cabeça de Batata, Rex, Porquinho, Jessie, Bala no Alvo, Slinky, os três ETs e Barbie. Alguns fazem falta e o mero espectador se pergunta "onde está Turbo, Tela Mágica, Microfone, Wheezy?", mas o espírito do filme é realmente esse: a falta que fazem os que já não estão mais ali e a alegria por alguns poucos ainda ficarem. Isso sem ser abusivo, obscuro, duro. São as certezas de uma vida que vai, com pessoas que ficam pelo caminho e às vezes não voltam, mas fazem falta. É uma mensagem tão humanamente real que podemos associá-la a praticamente toda nossa vida: a saída de seu bairro de infância, o fim das aulas do colégio ou da faculdade, a demissão de um emprego que você ficou anos. Enfim, mudanças.

O filme é uma parábola para essas e outras mudanças e de como elas inevitavelmente levam ao fim. Mesmo com o começo divertido com os brinquedos chegando na creche, ou com Ken e seu "metrossexualismo plástico", ou com a hilária e emocionante coragem de Senhor Cabeça de Batata (um tubérculo acima de qualquer suspeita e um herói nato) o tempo todo a dificuldade das mudanças e como elas são impactantes mesmo quando aceitas ou traumatizantes quando soam como abandono surge na certeza de que aquele fim definitivo é inexoravelmente inevitável e está bem próximo.

Logicamente, nem tudo é dor e mesmo todas essas verdades, por mais crueis que sejam, ainda podem nos trazer alegrais. Há sempre uma saída. Com essa frase é inevitável não encher os olhos d'água quando os brinquedos dão as mãos, fieis àquela amizade, quando sua destruição parece tão certa quanto a verdade de que tudo é consumido pelo fogo. Impossível não ir à lágrimas quando Andy, em uma prova concreta de amadurecimento e humildade, dá todos seus brinquedos, inclusive o eterno amigo cowboy a uma menina que partilha de sua imaginação. É um fim definitivo, recheado de mensagens de amizade, fidelidade, velhice e mesmo amor fraterno.

Não há como assistir TS3 e não se sentir emocionado, triste e feliz por tudo aquilo. Por aquele fim tão respeitoso aos fãs da série e tão engrandecedor ao cinema. Mais que uma animação, a Pixar criou uma ilha de preciosismo que coloca suas obras acima de qualquer coisa que está sendo feita em tela grande atualmente. Desenvolvendo enredos maduros que servem a todas as idades ao mesmo tempo que se tornam imortais pelo simples fato de existirem.

Bem, acho que fui longe demais... realmente me empolguei aqui... mas não há mentiras em minhas palavras. E, se você duvida, é porque ainda não assistiu da maneira certa os filmes da Pixar. Aproveite, alugue os dois Toy Story e quando acabar corra pro cinema e assista a conclusão dessa que é a mais bela história de amizade já feita.

Até a próxima, galera.

7.27.2010

Voltando à Labuta

Como alguns já devem saber, dei uma pausa no blog porque fiquei meio aperreado com a pré-estreia no SANA 2010 do Alma de Dragão, quadrinho criado pelo Kaléo, que tem minhas mãos e palavras em seus alicerces. O evento veio, fomos deveras bem recebidos, reorganizamos nossas agendas para o próximo ano, quando relançaremos a primeira edição colorida bem como todas as outras edições (esse é aquele momento em que procuramos pessoal de apoio, corremos atrás de investidores, analisamos aquilo que fizemos, corrigimos o que não está tão bom e melhoramos o que já é muito bom) e agora estou de volta a este blog que tanto me agrada.

Como muitos devem ter percebido, deixei a semana inteira a entrevista do JJ e não atualizei o blog. Isso foi bacana porque ajudou o JJ a ter mais gente em sua palestra (que aconteceu sábado passado da Gibiteca de Fortaleza - quem perdeu se f#$&%, pois foi muito legal) e, por meio dos incríveis contatos do palestrante, ajudou a divulgar o Z&A. Assim, gostaria de agradecer a todos que vieram aqui semana passada para ler a entrevista e ficaram mais um pouco lendo os outros (longos) posts. Agradeço também ao Sidney Guzman que divulgou o blog no Universo HQ (nunca eu iria imaginar que isso aconteceria), ao pessoal do HCast por também ter divulgado, ao Vitor Cafaggi que foi o primeiro a me dedicar uma entrevista e sempre me motiva a continuar, ao JJ por ter sido bem bacana e aguentado minhas perguntas e importunações e a todo mundo que veio, leu e passou a dica adiante. Valeu mesmo, galera!

Enfim, depois de tudo isso acho que dizer que eu ando bem ocupado é pouco. O bom é que finalmente estou entrando nesse mundo doido de quadrinhos tendo apoio de uma turma experiente e gente fina e com uma equipe responsável e talentosa (que não vou citar aqui, mas logo logo vocês vão ouvir falar deles). Estou em um "berço" legal.

Como ainda estou revendo textos e reorganizando tudo, decidi fazer um post especial sobre coisas que preocupam minha cabeça (e outras nem tanto) sobre o mundo nerd atual. Principalmente sobre as novidades de cinema e quadrinhos.

1. Ok, escolheram o Peter Parker. Pra mim, nada de mais. Tobey era um grande ator, mas um Parker descartável. O que realmente me preocupa são os substitutos de Willem Dafoe (um magnífico Duende Verde), James Franco (um Harry melhor que o esperado), J. K. Simmons (o próprio Jameson encarnado) e Rosemary Harris (uma atriz shakespereana excelente e uma tia May na medida). Não se acha um elenco de apoio desse em qualquer esquina!

2. Apesar dos uniformes nada nórdicos, mas muito bonitos e deveras divinos, Thor parece ser uma das melhores promessas para o próximo ano e tudo o que é revelado - diga-se de passagem aos poucos, em doses beeeem homeopáticas - mostra coerência, cuidado e responsabilidade na adaptação. Falem o que quiser, mas realmente acho que o Deus do Trovão vai ser tão bom quanto Homem de Ferro 1! Se eu estiver errado, bem... que pena...

3. As artes conceituais e figurinos e cenários de Tron estão belíssimas, só superadas por uma pessoa no elenco, Oliva Wilde, que acabou abandonando House M.D. pelo filme. Não sei se choro por ter perdido uma das minhas personagens favoritas ou se sorriu por ver a moça em tela grande. O que assusta é saber que a Marvel vai lançar quadrinhos de Tron (afinal, Disney, Marvel... Tá tudo em casa)... Adoro a editora, mas essas adaptações nunca foram lá tão boas, pois eles pegam um roteirista preguiçoso e um desenhista empolgadamente despreparado para fazer histórias que nem sequer animam. O jeito é esperar pra ver. Talvez eu esteja pré-julgando demais...

4. Falando em belezuras, o louco/desvairado/nerd/noventista/amalucado, Zack Snyder, lançou o trailer mais toscamente legal do ano (depois de Machete, lógico) de seu novo filme, Sucker Punch, com um bocado de atrizes menininhas que tentam provar que se tornaram mulheres usando espadas samurais, armas e robos gigantes! Doido, não? Confira aqui a bagaça! Uma maravilha para os fãs do trash, como eu, ou para pedófilos, como o Pedo Bear! Quer algo com mais qualidade ligado ao diretor, então veja A Lenda dos Guardiões, uma animação que promete muito.

5. Falando em animação, Pixar continua não sabendo errar. Ainda não assistiu Toy Story 3? Corra, possivelmente vai ser a melhor coisa que você viu no ano inteiro!

6. Aproveitando o comentário sobre Sucker Punch. Scott Pilgrim contra o Mundo mais o longa supracitado definem os traços de um novo tipo de cinema, meio que inaugurado com Kill Bill, cheio de referências em misturas devastadoramente batidas em algum liquidificador cerebral com câmeras de alta qualidade e excessos mil! É esperar pra ver no que dá.

Falando em excessos...

7. O uniforme do Lanterna Verde todo em computador foi uma ótima sacada, Tom Strong é um cara magnífico para fazer um vilão magnífico, mas Paralax? Ok, não sou especialista DC, mas me pareceu um pouco demais, não?

8. Ainda nos excessos, eu meio que virei a cara em saber que os Defensores estariam no filme do Capitão América. Daí saiu uma notícia do Cubo Cósmico... sei não. Posso estar sendo negativo, mas ainda me parece demais da conta. E quem me garante que não vão mudar a origem do Bandeiroso e o cara vai parar no futuro através do artefato ao invés de ficar congelado? Sei não... Cubo Cósmico, Manopla do Infinito... Todos são desafios para Vingadores com "V" maiúsculo, mas investir nisso logo de cara, assim, sem cuspe? Ou a Marvel tem um plano infalível a la Jarod, de The Pretender (quem lembra desse?), ou a la Cebolinha...

9. Pensamentos negativos à parte, o "casting" de Vingadores já foi apresentado no ComicCon (veja aqui). Devo dizer que fiquei feliz com algumas coisas: a empolgação quase nervosa do diretor, Joss Whedon, meio que soou como um "vou fazer de tudo para que fique legal, galera", o que, por mais estranho que pareça, me deu segurança. Tô cansado de rasgar elogios ao Downney Jr., mas, fora o corte de cabelo, ele realmente me trouxe felicidade ao coração quando apareceu e apresentou, do jeito que apresentou, a equipe depois do Sammy Jackson. Dizer que aquele era "o projeto mais audacioso do cinema" quase trouxe lágrimas aos meus olhos. Ele está certo. Realmente é audacioso. Se der certo vai dividir o mundo do cinema e dos filmes-spandex principalmente. Se der errado nenhum crédito positivo será dado a Marvel e seus futuros trabalhos relacionados a qualquer coisa e, consequentemente, a qualquer filme de grupos super-heroicos. Ou seja, cruzaremos os dedos pra que tudo vá bem.

10. Ainda falando da versão em película dos maiores heróis do planeta, apesar de todas as discussões envolvendo nosso prezado Ed Norton, a escolha de Mark Rufallo para interpretar Bruce Banner/Hulk foi melhor que a encomenda. O cara é bom ator, tem a cara do Banner e me lembra muito a versão Ultimate do personagem. Duvido que façam, mas acho que deveriam pensar em construir o boneco com a cara do ator, como foi no filme do Ang Lee.

Voltando ao mundo dos impressos...

11. Marvel fez um trabalho bacana com Reinado Sombrio, Cabal (Cabala) e Siege (Cerco). Nada impressionante, mas algo bacana ao meu ver. Curto Marvel e, pra mim, tudo o que aconteceu é a evolução natural no universo social de seus personagens (fora as forçadas de barra, claro), mas vampiros? Eles decidiram abrir uma cova (literalmente)? Desde de muuuuito tempo que quadrinhos de vampiro não são lá um "sucessão", talvez só em quadrinhos mais específicos, para um público específico, em momentos e contextos específicos, mas em um mundo de super-heróis? Posso estar completamente equivocado e o negócio surpreender todo mundo, mas só pelas imagens promocionais já me trouxe tristeza. Ainda bem que o Demolidor está aí pra virar vilão e relembrar que a Marvel é boa nisso, quebrar os estereótipos e propor novas leituras em sua linha regular, sem precisar ser tão absurda (ou foi boa) - meu comentário pareceu contraditório. Vampiros? PelamordeDeus...

12. Enquanto isso na DC... milhares de anéis e capas que lembram cartazes de filmes dos anos 1970. Gostei disso. Deu uma diferenciada muito criativa e atrativa. Nota 10 pra concorrência por suas capas fenomenalmente retrôs, fora toda a postura editorial deles de relançarem histórias esquecidas, pela publicação "páginas de jornal", espaços para novos artistas e outras tantas atitudes que só elevam o moral das HQs e fazem com que sejam realmente consideradas formas de arte. Quem é clássico tem de se manter clássico, até em suas atitudes e posturas, mesmo que traga os personagens Vertigo para o mainstream, coloque Jim Lee para redesenhar o uniforme da Mulher Maravilha ou Grant Morrison pra bagunçar a vida do Batman...

Enfim, galera, é isso. Minhas impressões sobre as novidades das últimas semanas, mesmo que eu não curta muito ficar repassando isso e prefira ver uma coisa ou outra, velha ou nova, e comentar por aqui. Peguei uns zines no SANA e depois gostaria de dividi-los com vocês. Então, resenha em breve.

Talvez eu ainda coloque outro post esta semana, mas não vou arriscar dizer uma coisa e não acabar fazendo. Enfim, foi uma semana complicada, mas proveitosa. Espero ter mais novidades em breve... ou na próxima semana. Até lá.

7.16.2010

Entrevista com JJ Marreiro, um João no Quadro

Minhas mais sinceras desculpas a todos pelo atraso em tão especial postagem, mas eu e o amigo Kaléo estávamos loucos organizando a primeira apresentação de nosso quadrinho no SANA 2010 e isso ocupou muito nosso tempo, por isso o atraso. Mas como o blog é semanal, aqui está, ainda nessa semana, o tão esperado post que, devo dizer, foi muito bacana de fazer. Antes de suas leituras vou vender meu jabá e dizer: caso ainda não seja domingo (18.07.2010), corram para o SANA desta data lá no Centro de Convenções de Fortaleza e conheçam o quadrinho feito por mim e o amigo Kaléo, o Alma de Dragão, e comprem sua primeira edição especialmente feita para o evento. Se domingo já tiver passado, então acessem nosso site, vejam como foi o evento e acompanhem a produção desta obra até seu lançamento oficial em 2011! Sem mais delongas, aproveitem esse papo com JJ Marreiro!

Há muito tempo atrás eu fui até o estúdio do Daniel Brandão com um punhado de desenhos toscos e alguns calhamaços de manuscritos grampeados desordenadamente para saber sobre os cursos de quadrinhos e desenhos. Depois das informações dadas, conversamos um pouco sobre quadrinhos, autores, roteiros e outras coisas do gênero. Talvez ele nem lembre mais da conversa. Enfim, durante esse papo ele me falou de alguns autores nacionais e principalmente J.J. Marreiro. Fiquei fascinado quando Daniel me disse que o homem de dupla consoante era roteirista já que, ao meu ver, a espécie inexistia em Terras do Sol. Desde então, se tornou um tipo de meta conhecer esse cara. Bem, o destino é uma caixinha de surpresas, assim em um dia qualquer e quase sem querer conheci o roteirista, quadrinista, escritor, editor, professor, ilustrador - entre outras 200 profissões e 300 ofícios ainda não nomeados pelos seres humanos - João Marreiro, que gentilmente concedeu a entrevista que vocês podem ler a seguir.

1. J, há um tipo de "registro" do seu envolvimento com quadrinhos em um período bem bacana para as HQs cearenses, quando vários jovens vindos de cursos universitários formaram o Curso de Quadrinhos da UFC e, dali em diante, muitos não pararam. Hoje em dia alguns deles são vistos como mobilizadores da prática de se fazer HQs e grandes mestres de outros tantos jovens. Fala um pouco desse momento pra gente.
JJ: O Movimento ao qual se refere foi na verdade uma iniciativa do Professor Geraldo Jesuíno que fundou a Oficina de Quadrinhos do Ceará por volta de 1985. Tratava-se de um curso de extensão ligado ao curso de Comunicação da Universidade Federal do Ceará e tinha por objetivo pesquisar e produzir HQs. Com o tempo os professores e monitores do curso, munidos de alguma estrada e experiência, resolveram oferecer como retorno à sociedade um treinamento em quadrinhos, um curso aberto ao público, onde o conhecimento adquirido como fruto das pesquisas e estudos de grupo seria dividido com a sociedade e novas informações poderiam ser apreendidas deste contato. Além do Professor Geraldo Jesuíno, ainda atuante na área da arte seqüencial, estavam presentes nesse período o PC Amoreira (que hoje representa a Secretaria de Cultura Municipal junto à Gibiteca de Fortaleza entre ouros projetos), o jornalista Fernando Lima, o Professor Ricardo Jorge (responsável pela nova versão da Oficina), Weaver Lima, Marcílio S, Silas, Walber Feijó e vários outros artistas... até o brega star Falcão freqüentou a Oficina nessa época.

2. Um dos primeiros quadrinhos que você participou foi o fanzine Manicomics, que acabou ganhando vários prêmios e depois ficou conhecido em vários lugares do globo, inclusive no Japão. Como foi trabalhar em algo assim, manter equipe, prazos e qualidade sem receber praticamente nada? Vocês esperavam toda essa repercussão?
JJ: O Manicomics estava entre os primeiros, mas bem antes publiquei no Pium (revista de quadrinhos da Oficina) e no Pergaminho (um dos primeiros fanzines de RPG do Brasil). O Manicomics ficou muito conhecido porque nossa tática de divulgação era quase terrorista. Nós enviávamos para praticamente todas as revistas que eram publicadas no Brasil naquela época... Homem-Aranha, X-man, Conan, Wizard, Comix Show, Herói, Máster Comics, Casa Cláudia, Arquitetura e Construção, Veja, Isto é, Ti-ti-ti, Contigo, Revista Pôster Metal Iron Maiden. Separamos (Daniel [Brandão], Geraldo [Borges] e eu) em torno de 120 exemplares pra enviar para as revistas mais inusitadas possíveis, falassem ou não de quadrinhos. Conseguimos xerox de graça numa universidade pública porque um amigo trabalhava lá e conseguiu a chave da sala da xerox e, na surdina – praticamente na base da espionagem –, conseguimos imprimir lá todos esses exemplares e mais alguns. De certo modo demos um jeito de fazer o sistema ajudar os corruptores do sistema. Nosso objetivo era chegar ao maior número possível de leitores e o número zero do nosso zine foi distribuído nas primeiras tiragem de maneira gratuita. Quando enviamos pras revistas colocamos um texto no interior do envelope dizendo: “Por favor se vc não tem interesse em quadrinhos não jogue no lixo entregue a quem possa se interessar”. Distribuímos para tantos amigos quanto pudemos e pra nossa surpresa enviamos apenas um exemplar para a Wizard Brasil, mas descobri depois que lá na redação chegaram pelo menos 5 outros exemplares... Ou seja, nossos amigos gostavam e enviavam pra ajudar na divulgação.
A distribuição do Manicomics foi tão massiva que tínhamos leitores no Japão, França e Espanha (brasileiros que moravam lá e pediam exemplares via correio).
Nós não esperávamos repercussão alguma, nós só queríamos colocar na mão do maior número possível de pessoas a nosso alcance. À partir do número um passamos a cobrar um real por exemplar. A tiragem do número zero girou em torno de 900 exemplares, contando as xerox financiadas secretamente pela universidade e as que pagamos do próprio bolso. O número um teve 700 exemplares de tiragem. Depois, fiz outras tiragens de 200 exemplares quando as primeiras se esgotaram. E a tiragem média ficou entre 200 exemplares pra cada edição por muito tempo. Antes da era da internet, o trabalho do Geraldo, Daniel e meu era conhecido basicamente por causa do Manicomics e da revista Capitão Rapadura, cuja arte fazíamos simultaneamente.

3. Atualmente você tem estado (empolgadamente) envolvido em projetos de estilos clássicos de sci-fi (Beto Foguete, Astronauta), remetendo a obras como Buck Rogers e Flash Gordon. Sempre teve esse vontade de trabalhar com o gênero ou a coisa apareceu de repente e você aceitou de braços abertos? O que você deseja trazer à este momento dos quadrinhos criando e trabalhando com obras desse gênero?
JJ: Meu primeiro personagem era um herói espacial e os primeiros desenhos dele datam de 1979, chamava-se Levram (Marvel de trás pra frente. Depois troquei o "M" por "N". Ele parecia um amálgama do ROM com o Homem de Ferro). Era um andróide enviado para destruir a Terra e no caminho até aqui desenvolvia sentimentos. Ao chegar percebia que o planeta era cheio de maravilhas naturais e o homem o estava destruindo, passando então a defender o planeta.
Passei a desenhar a Mulher-Estupenda (1998) com traço retrô em 2000 e criei nessa época outros heróis com apelo retrô: As Garotas da Selva, Colt Malone e Bob Rocket, que viria a se tornar Beto Foguete. O motivo é que eu queria desenhar HQs de aventuras na selva, faroeste e futurâmica espacial. Aos poucos vou trabalhando esses universos e fechando blocos de HQs para cada personagem.
Quando era guri minha leitura era Tarzan, Fantasma, Batman e Robin, Zorro, Flash Gordon, Pato Donald, Zé Carioca. Minha mãe sempre lia quadrinhos para mim e eu viajava nas figuras. Ela ia lendo e eu ia imaginando os personagens se movendo, lutando, falando. Quando comecei a ler sozinho entrava num processo de imersão total. Ainda faço isso hoje quando acho um bom quadrinho. O mundo pára de existir e aquela se torna a minha realidade pelo tempo que durar a leitura. Abdicação espontânea de realidade.

4. Muitos falam dos milhares de problemas envolvendo a produção impressa de quadrinhos nacionais, mas a verdade é que a internet tem sido um grande palco para produção e divulgação de autores brasileiros, com muitos deles inclusive deixando de lado a impressão de suas obras só pra se concentrar em seus trabalhos on line e alcançando considerável notoriedade dessa forma. Como você vê isso?
JJ: Essa é uma faceta do cenário atual da produção nacional, mas é impressionante como mesmo no pessoal que fica famoso pelos blogs e webcomics o que laureia a carreira é um álbum impresso. Uma revista em quadrinhos impressa pra mim é como um beijo... Ele pode vir por telefone ou via web e sempre será um carinho, um gesto bonito, atencioso. Mas o que faz tremer as pernas é o beijo tátil com troca de fluidos.
Não consigo ler livros inteiros no computador. Minha vista arde, não tenho paciência pra barra de rolagem, zoom, page up, page down. Me perco totalmente na translineação. Com quadrinho também tenho pouca paciência. Acho que o quadrinho europeu funciona melhor no monitor que o quadrinho gringo de heróis uniformizados. Os europeus tem uma quadrinização mais filme, mais clássica. Não abusam de requadros esdrúxulos.

5. Sei que não acredita no fim dos quadrinhos impressos (quem acredita, afinal?), mas você acha que o futuro (e o presente) dos quadrinhos nacionais estão no universo digital ou isso tudo é um "ensaio" para uma possível mudança no mercado editorial dos trabalhos brazucas em bancas?
JJ: O mercado dos impressos em geral está padecendo de um mal comum: a força do poder econômico. Quem manda no mundo hoje são as corporações e empresas de tecnologia. Daqui a pouco ler material impresso vai ser falta de educação porque a mídia vai trabalhar a substituição do papel por aparelhinhos com baterias extremamente caras e nocivas à natureza e todos vamos comprar felizes com novos gadgets e traquitanas. O alvo principal das corporações hoje são as crianças, [as empresas] vendem videogames de todos os tamanhos e preços para acostumá-las à sua futura posição de escravo da tecnologia. O homem está esquecendo da natureza, está esquecendo da beleza de plantar milho e feijão pra ficar fascinado com TVs gigantescas e computadores de bolso. As pessoas são educadas para consumir e adestradas para repetir o que a sociedade diz que é o correto. Quem busca um sonho hoje é considerado idiota porque o correto é passar num concurso público e conseguir estabilidade financeira para trabalhar em algo massante, humilhante e massacrante ao longo da semana e extravasar com cachaça-tchan-reboleition-faustão no fim de semana. O universo digital é uma imposição dos grupos econômicos que decidem o destino e as cotas de trabalho de cada nação. Porque é que a educação digital só é imposta à partir da formação universitária? Porque até chegar na universidade o aluno não tem nenhum estímulo à autonomia e isso lhe é cobrado abruptamente no curso superior?
As novas tecnologias são uma nova forma de controle social, mas que bom que há algo nesse contexto que pode ser usado à favor do indivíduo. Cabe ao indivíduo esquivar-se no meio dos mainframes e descobrir onde está seu lugar na revolução.

6. Você e Allan Goldman estão fazendo Comando V. Fala como é ter de fazer um quadrinho "sequencial" em que cada edição é "independente". Quais os problemas nesse tipo de estrutura narrativa? Você sente que há uma necessidade de sempre apresentar os personagens, se sim, como acontece sem que consuma páginas necessárias ao roteiro ou cada edição tenha uma parte que seja a reprise da anterior?
JJ: A chave é saber onde você está e pra onde você quer ir. Cada edição tem um motivo, um problema próprio para ser solucionado. Veja as revistas do Tex. Qualquer pessoa pode comprar o Tex à partir de qualquer número. Não é preciso apresentá-lo porque a presença dele na história é um fator natural. Ele está na capa, ele tem uma vestimenta típica e o seu aspecto físico nos informa o básico que precisamos saber sobre ele. As apresentações detalhadas ficarão por conta das ações dele ao longo da revista. O Tex já está na revista de linha no número quatrocentos e tanto, sempre com HQs fechadas sem ser reapresentado a cada número. Personagens bem construídos não precisam de apresentação. Eles entram em cena e agem, a medida que falam e tomam iniciativa vamos conhecendo-os um pouco mais.

7. Há algumas semanas no "Viga Mestra do HCast" você tinha um texto sobre como a prática, o gosto e o esforço constante são características que fazem um artista, contrapondo a idéia de que para se ser ilustrador é obrigatório se ter o "dom". O texto gerou uma repercussão interessante com muitas respostas em prol da prática ou tentando esclarecer o que realmente seria esse tal dom. Como professor e incentivador da prática quadrinística você deve ter se deparado com essa discussão muitas vezes. Fale-nos de suas empíricas experiências acerca disso. Quando a prática pareceu o necessário a um desenhista? Quando o dom prevaleceu para o resultado de um trabalho?
JJ: O que tenho testemunhado é que as pessoas que alegam a existência desse chamado “dom” utilizam o termo como uma muleta para não sobrepujar um desafio, ou como palco para se projetar num nível acima dos outros. Todas as pessoas possuem uma habilidade especial em alguma coisa, isso é o que me diz a experiência. Mas aquilo que você não sabe fazer na vida, você aprende se quiser aprender, se tiver interesse genuíno. Na psicologia o que leigamente chamamos de dom é chamado de pulsão, você direciona sua pulsão para a área que tem interesse ou se sente confortável.
A prática sempre se fez necessária em todos os casos de evolução de traço que tenho testemunhado. Todos os alunos que vi evoluírem o fizeram por meio da prática.
Acho que o dom não se manifesta concretamente em um trabalho. Acho que ele surge (se é que realmente existe) para revelar sua área de interesse, para mostrar o caminho. Seguir o caminho é o metier da prática.
Acho muito difícil acreditar que um ser humano seja superior a outro, eles são distintos, aptos a tarefas diferentes. Alguém que tenha estrutura óssea mais robusta pode se tornar um bom boxeador ou quem tenha raciocínio lógico pode se tornar um bom programador. O fato é que se você tem bom raciocínio lógico e não trabalha esse potencial será apenas um programador razoável, enquanto alguém que se imponha exercícios diários e prática constante chegará a condição de excelência.

8. Como era a produção do Manicomics? Cada artista fazia sua HQ ou se estabelecia parcerias e divisões de tarefas dentro de cada HQ. Vocês juntavam tudo e levavam pra uma gráfica rápida ou uma editora pequena?
JJ: Reuníamos a grana como desse, cada um colaborava com quanto podia. Nunca houve stress com isso. Se a gente não tinha o financiamento, esperava até algum freela e então direcionava a renda para a edição.
E como vocês o veiculavam?
JJ: Depois do bum das primeiras edições. Fechamos em 80 endereços de revistas só de quadrinhos e entretenimento, mais faneditores, gibitecas, lojas de quadrinhos e cadernos de cultura. Enviávamos e pela divulgação que esses 80 endereços rendiam fazíamos a venda via correio. Também distribuíamos nas comicshops da cidade ou quando algum amigo se dispunha a ajudar enviávamos para comicshops de outras cidades.
Que conselho você daria a quem quer editar seus quadrinhos impressos atualmente?
JJ: Esqueça a esperança ó vós que entrais” e manda ver com toda energia que tiver porque tudo vai aparecer contra você. Obstáculos imensos vão surgir a sua frente e tudo vai parecer conduzir a um gigantesco abismo sem significado onde só existirá dor e sofrimento... Entretanto se você estiver embuído de fé e de vontade genuína: FAÇA! Independente do que te digam: FAÇA! E nunca jamais deixe alguém desacreditar seu sonho, ao invés disso procure meios objetivos de realizá-lo!

9. Você escreve e desenha, talvez como a maioria dos autores brasileiros. Quando está produzindo um trabalho sozinho, como você faz, escreve tudo antes e só depois começa leiautes de páginas e desenhos finalizados, ou prefere ir rabiscando traços para aos poucos ir moldando o texto?
JJ: Quando escrevo para o Allan desenhar, sempre conversamos sobre a história e as cenas legais que poderíamos colocar, então escrevo decupando os quadros e envio pra ele revisar e sugerir alguma nova cena ou fazer alguma modificação. Depois recebo as dicas dele e fecho o texto da edição. Quando escrevo para meu desenho faço em forma de leiaute toda a HQ junto com os diálogos. Eventualmente, quando surgem muitas idéias de uma vez, anoto os argumentos para desenvolver depois.

10. Você tem alguma exigência em tipo de lápis, nanquim, papel ou usa o que tiver à mão?
JJ: Prefiro desenhar com 2b sempre com um limpa-tipos por perto. Quando faço ilustrações que serão finalizadas com mesa de luz uso 4b.
E quanto ao computador? Você prefere usar tablet ou desenha antes e escaneia?
JJ: Só uso tablet se o prazo estiver apertado. Normalmente gosto do tremido humano que vem junto com o traço. Mas, sobretudo acho fascinante o ruído do atrito do grafite com a celulose.

11. Quais a exigências para um roteiro de quadrinhos dar certo?
JJ: Essas são as minhas exigências, ok? É o que exijo das minhas HQs. A história tem que ser auto-contida, ter começo, meio e fim. Os caras maus se dão mal... James Bond Law: “Quanto pior o vilão pior seu fim!” Uma história deve passar algum sentimento, bom humor, nostalgia, bondade, determinação. Não gosto de histórias que deixam o leitor deprimido, pra baixo, com vontade de se matar.
O que você acha que uma história deve conter para ser interessante e prender o leitor?
JJ: Honestidade. O autor tem que acreditar na sua história, mesmo que seja uma história depressiva, ou de temas escatológicos, o autor tem que acreditar que faz sentido contar aquilo.

12. A pergunta derradeira. O que você tem lido atualmente?
JJ: Consegui ler uns quadrinhos digitais muito legais de um espanhol chamado Carlos Gimenez. Li também o Kick Ass e achei fantástico. Fizeram tanta propaganda do Mesmo Delivery que resolvi ler. Não gostei, a narrativa visual do Grampá é muito boa, mas não entendi o final, fiquei me sentindo burro. Talvez eu seja mesmo, pelo menos sou um burro honesto.
O que sempre tem como referência para seu trabalho em termos de livros, música, filmes e quadrinhos (lógico)?
JJ: Ultimamente Alex Raymond, Wally Wood, Russ Maning, Alex Toth, Steve Rude têm sido minha bússola no desenho. Gosto das narrativas do Frank Herbert (Duna) e do Douglas Adams (O Mochileiro das Galáxias). Estou lendo agora o Poderoso Chefão do Mario Puzzo e O Nome do Vento de Patrick Rothfuss. Sempre leio mais de um ao mesmo tempo.
Hmmm... música... Depois que viciei em podcasts passei a ouvir menos música. Creedence, The Who, Steve Vai, Jean Michel Jarre, Queen + Paul Rogers e Michael Bublè fazem parte das coisas que estou escutando ultimamente. Também escuto trilhas de filmes enquanto desenho, a trilha de Cruzadas e do Hulk são muito legais.
Tem filmes que são referenciais pra mim e de vez em quando revejo: O Campo dos Sonhos, Poder além da Vida e Rocky 3.

J. Caso você tenha chegado até aqui respondendo cada tópico desse, muito obrigado mesmo. Quero dizer que o Z&A é um blog direcionado a quem está no mundo dos quadrinhos e quer produzir de alguma forma, seja através de textos, desenhos, finalizando, pintando, etc. e sempre é ótimo ter a palavra de quem já fez, faz e ainda vai fazer muito nessa longa estrada dividida pela sarjeta, por isso realmente obrigado.
JJ: Amigo Luis, eu é que devo agradecer por essa oportunidade e dizer que estou feliz de poder contribuir um pouco para o Z&A.

E aí, gostaram? Querem mais? Pois acessem os links:

7.09.2010

Luís Carlos vs Scott Pilgrim

Ok, vou deixar de ser hipócrita e assumir logo de uma vez: adoro essas coisas indies. Certo, menos as músicas, mas todo esse material moderninho cheio de referências pops (que muitas vezes ninguém conhece) em bobinhos contextos românticos de relacionamentos metidos a reais, mas que na verdade são um reflexo simplista daquilo que consideramos como o que vivemos, enfim, toda essa m&#%@ é bem legal. Em meio a esse contexto de cena independente e vinda de lugares inesperados que resolvi comprar Scott Pilgrim contra o Mundo (tem um amigo que jura de pé junto que SP não é indie, mas, falemos a verdade, quem leu a HQ pode garantir que a personagem principal do filme - indie -500 Dias com Ela teria o comic em sua prateleira). Enfim, o negócio foi levado por uma quantia que não costumeiramente dou a um quadrinho que não conheço, então o bagulho deveria ser muito bom mesmo, ou eu iria me arrepender seriamente pelo dinheiro gasto.

A primeira coisa que tenho a dizer sobre é que Scott Pilgrim é um canalha. Um grande canalha mesmo. Nada naquelas 368 páginas de arte sequencial me dizem o contrário. O personagem é um grande, sacana e terrível canalha. Ele é quase uma versão imaturamente mais nova e lisa do Stark de Downey Jr. O moleque é muito canalha. Talvez por isso tenha conseguido um público tão cativo como Edgar Wright, diretor da película inspirada no impresso, entre tantos de público e crítica. Ele é um personagem tão seguramente real, cheio de defeitos e divertido, que parece que você pode olhar para um de seus amigos ao ler a revista e dizer: "Ei, esse cara é você". Essa precisão na criação do personagem é tão forte que toda a turma de SPvsM (vou colocar em siglas e que se dane quem me achar preguiçoso) parece com pessoas de verdade, em situações reais, com opiniões, posturas, manias e atitudes reais... ou nem tanto assim.

Brian O'Malley, o autor, já seria considerado um bom escritor por este que vos escreve por ter construído os personagens da HQ. Todos adolescentemente divertidos e, apesar de serem bem centrados na juventude de hoje, acho que possuem pontos de interseção com qualquer adolescente de qualquer época (ok, talvez só dos anos 1980... 1990 pra cá), principalmente quanto a romance, amigos, sonhos, comodismos, relacionamentos etc. No entanto, O'Malley sabe no que está se metendo e fazer um quadrinho apoiado simplesmente nisso é quase loucura. Qual o nerd que vai se assumir tão bobinho ou canalha sem um sabre de luz na mão? (ok, acho q esse comentário não teve nada a ver). Assim, os tais elementos pops do começo da matéria estão por lá. Muito bem estabelecidos dentro de um mundo semelhante a um arcade de 16 a 32bits. Fãs deThe King of Fighters, Darkstalkers, Street Fighters, Metal Slug e outros jogos do gênero vão adorar muitos momentos da história. Não há uma aparente explicação para combos, hits, magias, portas e passagens extradimensionais, itens que surgem do nada e saltos que desafiam a gravidade, tudo é jogado ao leitor - como em uma boa fantasia - e cabe a ele aceitar aquela loucura ou desviar disso e se concentrar nos relacionamentos de Scott e amigos.

Em termos quadrinísticos, Brian sabe usar a página. Em um estilo cuspidamente mangá e moderno (estabelecendo uma identidade bem uniforme e específica a seus desenhos), ele sabe aproveitar os quadros (estando eles lá ou não), colocando consistência e velocidade ao seustorytelling, sem se tornar resumido ou excessivamente preocupado com detalhes irrelevantes. Novamente aí fica a marca de um bom criador de personagens. Tudo funciona dentro da narrativa a fim de englobar e explorar os personagens sem esquecer quem são os protagonistas. Fora as inclusões de elementos não necessariamente narrativos, como partituras e receitas de pratos, conceitos extralinguísticos que exploram a metalinguagem, criando uma conversa meio descompromissada com o leitor, deixando-o à vontade nos cômodos e ambientes da história e meio que fazendo-o parte do grupo de Scott.

Se parar pra pensar, SPvsM não é necessariamente um quadrinho, mas uma mídia impressa bem "única" assim por dizer, por conta de sua narrativa bastante interacional. Muitos autores de HQs de tempos pretéritos e artistas que ensinam sobre traço, narrativa, etc torceriam um pouco o nariz para esse trabalho (ora, porque eu gastaria uma página com o lamento de Scott acerca de seu cabelo grande? No que isso ajuda na história?), mas a verdade é que o comic retrata bem o tipo de juventude que lê quadrinhos hoje em dia e a linguagem deste. Incrível, ao meu ver, ele ser lançado em impresso e preto em branco. Não que isso o faça perder sua qualidade e estilo, muito pelo contrário, mas SP possui uma cara de quadrinho para internet, que deveria ser colorido e adicionado de sons e maiores opções de interação. Ou talvez eu esteja falando besteira.

Assim, vejo Scott Pilgrim contra o Mundo como um quadrinho ícone. Um quadrinho canadense, com traços japoneses e narrativa indie americana. Uma pequena salada, daquelas bem lights mesmo. Nada que mereça ganhar prêmios ou entrar na sua lista de as "100 mais legais", mas com certeza um quadrinho que define esses novos ares do "fazer-quadrinho", que possuem uma "aura" divertidamente interativa, independente, bobinha, real e cheia de fantasia contemporânea.

Apesar de tudo, fica um conselho: procure um amigo que comprou e peça emprestado, leia em uma tarde, ou noite, em um dia de domingo quando toda a loucura da semana passou e sinta a alma levinha dessa HQ, que logo virará filme com Michael Cera como o protagonista canalha, se depois disso você decidir que gostaria de comprar a revista, espere mais um mês ou dois para que seu preço diminua e tenha-a sua em casa, não faça como eu fiz e compre imediatamente agora quando a revista está super-valorizada. E quando a edição 2 sair, pode me pedir pra ler que eu empresto.

Quer fazer seu bonequinho Pilgrim como o da imagem de exibição do post? Então, clique aqui.

6.30.2010

O Confuso Mundo dos Relacionamentos Super-heróicos

Ok, este é um daqueles típicos textos "esse-cara-não-tem-nada-melhor-pra-fazer" que todo mundo gosta de ler. Tendo em vista os milhares de filmes-spandex e seus atores que atingem sucesso, se repetem e se proliferam, decidi criar um tipo de guia de como esses caras se relacionam. Os filmes em parênteses referem-se ao encontro do "caso" citado, onde os dois atores tiveram o tal do relacionamento. Se não aparece nos parênteses é porque o relacionamento é real (como o da Scarllet e do Ryan). Espero que possa ser divertido para você ler assim como foi divertido para eu escrever.

Tudo começou com Wolverine (Hugh Jackman) que depois dos X-Men teve um caso com a Viúva Negra (Scarllet Johansson - em Scoop) e a moça tempos depois casou com o Lanterna Verde (Ryan Reynolds) que também é o Deadpool, ex-assassino de vampiros conhecido como Hannibal King (em Blade: Trinity), e ex-colega de massacres do Wolverine, e que chegamos a pensar que havia morrido (em X-men Origens: Wolverine), mas que logo voltará à ativa depois de servir à corporação dos lanternas. Um cara com muitas profissões.

Ainda no mundo X, Jean Grey (Famke Janssen) quase passa uma "gaia" no Ciclope (James Marsden) com Wolverine - o mesmo carcaju fez uma rápida parceria com Batman (Christian Bale - em O Grande Truque) que, na época, pegou a Viúva Negra (Scarllet Johansson) também. Revoltado, Scott deixa a ruiva e pede Lois Lane (Kate Bosworth - em Superman Returns) em noivado, mas descobre que o antigo namorado dela, Superman (Brandon Routh), engravidou a moça antes de se picar pra outro planeta. Talvez ele até tenha tentado uma aproximação com Jean, mas no passado da Fênix tinha um tórrido romance com Happy Hogan (Jon Favreau - em Love & Sex), guarda-costas de Tony Stark (Robert Downey Jr. - em Homem de Ferro), antes advogado e melhor amigo de Matt Murdock, o Demolidor (Ben Affleck - em Demolidor: O Homem sem Medo). Tal verdade desiludiu de vez o bom moço Summers, que terminou ficando com a ex-namorada do Máscara, Tina Carlyle (Cameron Diaz - em A Caixa).

As crianças X também são meio serelepes. A pequena e bobinha Vampira (Anna Paquin), depois de quase ser chifrada por Bobby Drake (Shawn Ashmore - em X3: o Confronto Final), perdeu os poderes, desceu todos os degrais da decência, levou o nome mutante a sério e foi viver de sexo e confusão dentuça com Bill Compton (Stephen Moyer - em True Blood). E Kitty Pride (Ellen Page), que teve um casinho meia boca com o gelado, esqueceu o garoto, sodomizou o pedófilo Coruja (Patrick Wilson - em Menina má.com) e deu seu filho com Scott Pilgrim (Michael Cera - em Juno) para a Elektra (Jennifer Garner - também em Juno). Talvez seja a influência do pai, J. Jonah Jameson (J. K. Simons - ainda em Juno).

Falando nisso, o citado Superman é um cara cheio de relacionamentos sexualmente complicados. Depois de abandonar a grávida Lois, revelou-se um homossexual ao assumir seu romance com Brandon (Justin Long - em Pagando Bem, que Mal Tem?) e acabou sendo descoberto como o ex-namorado do mal de Ramona (Mary Elizabeth Winstead), onde era conhecido pela alcunha de Todd Ingram (em Scott Pilgrim vs The World), e por isso colega de Lucas Lee, ou Johnny Storm, ou Steve Rogers (Chris Evans)... nem sei mais! Sem esquecer que na época da revelação de seu casinho gay, ele reencontrou Betty Brant (Elizabeth Banks - em Pagando bem, que mal tem?), que trabalhou no Clarim Diário com J. Jonah Jameson (J. K. Simons), pai da Kitty Pride (Ellen Page - em Juno). Por sinal, ainda nesse ínterim, Betty fica com Zack (Seth Rogen - de novo em Pagando bem, que mal tem?), que tempos depois descobriu ser Britt Reid, o Besouro Verde, namorado da esposa de Scott, Tina Carlyle (Cameron Diaz - em O Besouro Verde). Pobre mutante, realmente não dá sorte com relacionamentos...

Como falamos do Clarim, é importante não esquecer de seu ilustríssimo fotógrafo, Peter Parker (Tobey Maguire), que passou por milhares de apuros para ficar com Mary Jane (Kirsten Dunst), mas casou com Padmé Amidala (Natalie Portman - em Entre Irmãos), moça que depois começou a namorar com Thor (Chris Hemsworth - em Thor). E, muitos não sabem, mas ele teve um negócio meio mal-explicado com Tony Stark, o Homem de Ferro (Robert Downey Jr. - em Trovão Tropical), possivelmente por influência de seu irmão, Dastan, outrora Príncipe da Persia (Jake Gyllenhaal - em Entre Irmãos), o qual chegou a ter um namoro "secreto" com o amalucado Coringa (Heath Ledger - em O Segredo de Brokeback Mountain), doente mental que ao deixar Gothan de pernas pro ar, matou Rachel Dawes (Maggie Gyllenhaal), também irmã de Dastan e que ia noivar com Harvey Dent (Aaron Eckhart - em Batman: O Cavaleiro das Trevas), advogado bom moço e ex-consultor da indústria de cigarro que há muito já pegava a menina Dawes (dessa vez Katie Holmes - em Obrigado por Fumar). À pobre Mary Jane (Kirsten Dunst) não sobrou muito, só um coleguismo tempestuoso com a mesma Rachel (novamente Maggie - em O Sorriso de Monalisa) e um pedófilo/charmoso/estranho/novamente mal explicado romance com um imortal Loui (Brad Pitt - em Entrevista com o Vampiro), o qual, em uma época mais máscula, chegou a matar o Hulk (Eric Bana - em Troia), mesmo esse voltando com uma outra cara (a de Ed Norton) para encarar o mundo Marvel e esquecendo seu caso de amor eterno com Abigail Whistler (Jessica Biel - em O Ilusionista), possivelmente porque ela já tinha se agarrado com um sobrenatural Motoqueiro Fantasma (Nicolas Cage - em O Vidente), rebelde que já foi filho do mordomo Alfred (Michael Cane - em O Sol da Cada Manhã) e teve um rápido e motorizado caso com Lara Croft (Angelina Jolie - em 60 Segundos) a qual, durante suas pesquisas históricas, chegou a se amarrar em um espartânico Leônidas (Gerald Butler - em Tomb Raider: A Origem da Vida).

Pra fechar, é importante lembrar que o mesmo Bruce Banner/Hulk (Ed Norton), depois de toda a bagunça de seu retorno, começou um romance legal com Betty Ross (Liv Tyler - em O Incrível Hulk), moça de família que em um outro passado (quando era Jennifer Connely) chegou a casar com o Coruja (novamente Patrick Wilson - em Pecados Íntimos) que, por sua vez e na mesma época, teve um caso com a ratinha Rita (Kate Winslet - novamente em Pecados Íntimos), a qual preferiu ficar com Roddy (Hugh Jackman - em Por Água Abaixo), o Wolverine que, como todos sabem, foi quem começou isso tudo...

Haha... Confuso, não? Para os que não entenderam, peguem a lista de filmes e personagens e assista durante o fim de semana. Tenho certeza que, além de muita diversão, vão rir muito lembrando do textos e das comparações.

Até próxima semana, galera!