4.20.2010

Com Grandes Poderes...

Já não sou um colecionador como antes, mas isso nunca me impediu de ser um comprador de quadrinhos. Seja assíduo ou não. Atualmente, tento comprar um quadrinho por mês seja de coisa nova ou antiga. Para não comprar gato por lebre eu me apoio em resenhas de sites espcializados e (ok, me crucifiquem) scans. Quando uma resenha não parece satisfatória para mim, ou há muitas resenhas divergentes sobre um determinado título, eu baixo o material ainda em inglês, leio algumas páginas ou a primeira edição no caso de séries, para enfim tomar a decisão de comprá-la.

Também não sou mais leitor do Aranha. Depois do "dia a mais/novo dia", nada feito em seguida me atraiu (o que logicamente não quer dizer que este "após" seja ruim), então é muito difícil eu comprar material novo do Cabeça-de-Teia. Vivo de edições e arcos antigos além de uma coleção de scans que acho importante ter, tanto em inglês como em portugês, como bilbioteca e catálogo eletrônicos. Assim, sempre que quero comprar algo verifico na minha "lista", saiu à caça em sebos e vou refazendo minha coleçãozinha querida.

Da mesma forma, não sou lá muito fã de colecionáveis. Não pela qualidade do produto, mas por causa do preço. No entanto, sempre que posso compro um ou outro. Por causa disso sinto-me meio culpado por não ter algumas "Bibliotecas Histórias" (calhamaços de antiguidades lançados pela Panini), mas tenho alguns "Maiores Clássicos", como "A Última Caçada de Kraven" (história que acho necessária à estante de qualquer fã aracnídeo) e "A Morte de Gwen Stacy" (que também dispensa apresentações).

Nota-se que sou um fã de velharias. Por conta disso não fico lá muito à vontade com releituras da origem. Mesmo porque, o Aranha é o herói Marvel que constumeiramente é escolhido para testar a editora em outra mídia (se não, é os X-men). Foi o primeiro em um encontro Marvel x DC, foi o primeiro a ter um live-action no Japão (salvo enganos meus, também foi o primeiro a ter uma versão mangá), foi o primeiro na linha Ultimate, primeiro em alguns desenhos pra TV... O mundo está cheio de releituras da origem do HA, e quem acompanha tudo isso já tá meio de saco cheio de ver o moleque sendo picado pela aranha, se retorcer, depois saltar e se fixar numa parede.

Quando Marvel anunciou sua linha MK (Marvel Knights) com releituras de pedaços das vidas de suas lendas, foi meio previsível saber que o Aranha estava nessa listagem e mais previsível ainda que ele seria o primeiro a ser explorado na linha. Assim, fiquei desinteressado pelo meu personagem de quadrinhos favorito em "Spider-man: With Great Power...", apesar de me interessar em ler os outros. Quando li a resenha do quadrinho no Comic Book Resources, passei direto e nem liguei muito para o que eles disseram lá, tamanho minha falta de vontade de ter contato com o material.

Mas aranhas são insistentes.

Um dia em um site que não me recordo, li o comentário de um leitor de scans acerca da obra. Era algo tipo "adorei, acho que vou importar para ter a versão em inglês". Para um scan-reader dizer isso algo diferente tinha naquilo e, inicialmente retiscente, comecei a pesquisar sobre a revista, evitando baixar sua versão pirateada, dando crédito à força do personagem, mas pouco consegui além daquele comentário e novamente deixei para lá uma possível aquisição.

Quando a Panini anunciou sua suposta revolução, decidi dar uma olhada nas assinaturas e vejam minha surpresa ao ver que a aquisição de um pacote Marvel dava direito a um exemplar gratuito da revista. Quase ri. Para mim era a prova de que precisava para considerar o material ruim, já que não vejo uma edição boa sendo dada como um "brinde" por uma assinatura de quase 70 reais. Mais uma vez a novidade da releitura caiu no meu senso comum de que ver Peter se transformando no amigão da vizinhança de novo era chatice demais para um fã.

Mas Parkers são persistentes.

Quase sem querer, em um atribulado dia entrei no twitter e me deparo com um review do Universo HQ sobre o quadrinho "Homem-Aranha: Com Grandes Poderes...". Abri a página, mas só fui lê-la umas 2 horas depois e devo me dizer que me impressionei com a nota 4,5 do site. Acho o pessoal do UHQ meio xiita, fãs do que foi bom e eternos "levanta-garfos" do que tenta ser muito novo. Besteira minha. Eles gostam do que é bom e nem sempre o que é bom é o que a maioria das pessoas gosta (e nisso eu também me incluo). Enfim, o 4,5 dado pelos caras me chamou a atenção. Bem... eu comprei a maldita e perseguidora revista.

Um Parker com poderes é um universo a ser explorado.

Capa dura, papel de qualidade, impressão de primeira. Os R$19,90 pareciam valer a pena, mas até ler o material, eram somente R$19,90 gastos com papel colorido (na verdade só R$18, pois minha banca me dá desconto). Ainda bem que foi mais que isso.

Não conheço o roteirista, David Lapham, o cara é mais conhecido por Balas Perdidas, uma HQ que nunca pus a mão. Tony Harris (desenhos), por sua vez, é um cara sempre revisitado por mim em Ex-Machina. Ambos possuem falhas nesta revista. A voz narradora de Lapham é mais confusa que emotiva e acaba sendo um incomodo em alguns momentos, a tradução nacional não ajuda, há erros chatos e adaptações sofríveis (sou tradutor e corretor, sei do que p#$$@ eu tô falando) e Harris não perdeu a mania de deixar seus personagens estrábicos em um quadrinho ou outro (duvidam de mim? Prestem atenção melhor). As primeiras duas histórias parecem mais um episódio de "The OC" com dublagem SBT com uma tentativa pretensiosa de se fazer um flashback só pra por a roupa vermelha e azul pra galera saber que existe um HA ali e eles podem comprar a revista.

Mas, assim como os Parkers, os autores evoluem.

O roteiro pega corpo com o passar dos capítulos e o "pretensioso" se torna "premissa" encorpada e muito bem apoiada em uma única e veloz página da Amazing Fantasy que apresentou ao mundo um de seus mais populares heróis. A história de origem se torna então a história de "um moleque aprendendo a tirar proveito de suas espetaculares habilidades" e só há uma coisa a dizer sobre isso: muito bom.

Vou ser franco. Não é a melhor história do Aranha, nem a mais bem desenhada, ou a mais tocante, nem sua melhor releitura, mas é muito boa mesmo assim. Digo pelas escolhas de contexto e situações: o ambiente de luta-livre, um moleque querendo ser mais que mais um moleque e, ao mesmo tempo que se deixa seduzir por toda aquela novidade, luta com a própria consciência para ser melhor aos tios-pais que o amam, um herói que ainda nem entende o que é ser isso. É um quadrinho humano como toda HQ de super-heróis deveria ser. É um quadrinho Parker.

Como já dito o contexto é de Peter aprendendo a usar os poderes ao mesmo tempo que tenta tirar proveito deles. Se torna uma celebridade por usar suas habilidades em lutas-livres e depois na TV. O tímido Peter se tornando o jocoso Aranha é um dos pontos altos da história, seu envolvimento ingênuo dentro de um mundo perigoso e por vezes amoral que é o show business é algo bem cinematográfico, a aparição de outros heróis dão sustentação a um personagem que ainda não sabe o real poder que tem. Todos os elementos são bem apresentados e funcionam harmonicamente para seu clímax e fim, aquele que todos já esperam e que mesmo assim consegue supreender sem macular a lenda de Stan Lee. Sim, há um teste de radioatividade e uma aranha, há um bordão que foi dito e ainda não entendido, há um ladrão que não foi pego, há carros da polícia em frente a uma casinha em Forrest Hills, mas tudo ainda assim vai te surpeender.

Também engulo o que disse sobre Lapham. Ele escreve como um fã do Aranha (mesmo talvez não o sendo), ele respeita os fãs clássicos de um jeito cavalheiro. Apesar de essa origem acontecer nos dias de hoje, ela funcionaria para os anos 60 simplesmente apagando duas frases e refazendo dois desenhos no Photoshop, sem intervenção dos autores e isso valoriza e mantém a imortalidade e eternidade literária do personagem, algo que agradeço como fã e respeito como estudante de literatura.

Ok, Harris ainda desenha estrábicos, mas isso é pouco se compararmos todo o grande trabalho de caracterização que ele fez. Os não-mascarados são expressivos e vivos, seu Homem-Aranha é dinâmico e ágil. Nada há nada que desagrade aos fãs (bom, talvez o cachimbento tio Ben e o semi-careca Flash).

Obras como essa são oásis em meio a um deserto de ideias e originalidade que ao meu ver tem surgido no título sequencial do Aracnídeo. Sustentar um roteiro "reconta-a-origem" sobre Parker e seu alter-ego sem apelar para coadjuvantes de peso como os Osborns e Mary Jane ou Gwen Stacy é... bem, espetacular.

Aqui eu não gosto de dar notas ao que eu leio, mas vou hipocritamente aferir conceitos. Assim, trataria "Homem-Aranha: Com Grandes Poderes..." como bom, nem excelente, nem regular, nem ruim. Um que vale à pena ter em sua coleção, mas não a macularia não o ter. Então, comprem e leiam!

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