4.26.2010

Revendo Filmes e Quadrinhos ou Assim Caminha a Humanidade 1

Desde que a Marvel passou por problemas financeiros e foi comprada pela Toy Biz entre as décadas de 1980 e 1990, os novos gerentes da Casa decidiram que suas aquisições deveriam aparecer em outras mídias de maneira bem mais glamurosa que os vergonhosos filmes do Quarteto, Capitão América e Justiceiro. Muito foi feito, refeito, e recomprado e agora Vingadores, um filme que anuncia a união de vários personagens em película, é o futuro Marvel.

Aproveitando a semana de estreia de Homem de Ferro, decidi fazer uma retrospectiva desta nova fase da editora nos cinemas, vendo os erros, acertos e projetando o futuro, nesta que é a Semana de Ferro do Z&A.

Blade (1998, Stephen Norrington), Blade 2 (2002, Guillermo del Toro), Blade Trinity (2004, David S. Goyer)

Certos passos devem ser dados aos poucos. Uma lição que serviu para a Marvel quando resolveram deixar de lado os "grandes" e colocaram Blade como seu primeiro personagem em longa-metragens. O primeiro filme, de roteiro limpo e preciso e ambientação sombria com cenas cheias de lutas e ação de primeira, atraiu fãs de vampiros e de filmes casca-grossas e redefiniu o gênero ao mostrar dentuços mais fodas e machões (apesar de ser o único exemplo que eu conheça), contrapondo o senso comum de sua sensualidade quase homossexual ao mesmo tempo que criou fãs de Blade que desconheciam sua ligação com HQs. Wesley Snipes e sua kataná funcionaram tão bem que mais dois filmes foram encomendados, todos sem a riqueza e bom trato do primeiro, mas com melhores efeitos especiais. Curiosidades: David S. Goyer, roteirista do primeiro e diretor do segundo, foi um dos escritores do filme de outro herói obscuro: Batman Begins. Guillermo del Toro seria conhecido mais tarde por outro super-herói: Hellboy. Ryan Reynolds faz um papel no terceiro filme que é um melhor Deadpool do que o seu real Deadpool em X-Men Origens: Wolverine.

X-men (2000, Brian Synger), X-2 (2003, Brian Synger), X-men: O Confronto Final (2006, Brett Ratner), X-men Origens: Wolverine (2009, Gavin Hood)

Depois de um acerto com Blade e um desenho animado que popularizou seus mutantes, a Marvel decidiu dar um passo maior. Com o direito de seus personagens nas mãos da Fox, produção de Lauren Shuler Donner e Ralph Winter e direção de Brian Singer, o primeiro filme dos genes-X prima por repetir a fórmula criada por Stan Lee: um grupo de pessoas que é mal visto pela sociedade por serem diferentes, mas essa diferença é o que os faz especiais... e heróicos. Estrapolando os conceitos do relacionamento de Xavier e Magnus, o primeiro filme dosa de forma bem "povão" racismo, política, heroísmo e aventura, apresenta os X ao mundo e cria uma mitologia única ao cinema, apesar da peruca de Hale Barry e dos efeitos mais ou menos.

Visando criar uma franquia tão grandiosa quanto Star Wars, o espaço entre o primeiro e segundo filmes foi pequeno e Brian Synger provou sua qualidade como diretor dos pupilos de Charles ao fazer uma continuação com mais personagens, mais dramas, mais ação e mais Wolverine, mutante que na pele de Hugh Jackman encontrou seu lugar ideal na tela grande. O final com a premissa da Fênix fechou de maneira magistral o que parecia ser a melhor ideia de super-heróis para o cinema que já havia surgido.

Milhares de discussões depois e o caldo desanda. Synger vai fazer o mal recebido Superman Returns e Ratner assume os mutunas. Apesar de tentar se focar nos mesmos pontos abordados por Synger, o novo diretor cria um filme lotado de ação, conflitos bem colocados, mas mal explorados, uma Fênix meio imbecil (nas HQs a mulher é uma entidade que consome mundos! Qualé?), uma Ororo líder (ideia do c@#@%#*) e um Wolverine bem mais militar, mas não tão Wolvie quanto nos outros filmes, apesar de ter mais espaço neste. Arriscou umas doideiras como matar parte do elenco principal e debilitar outros e acabou a primeira trilogia mutante com um grande CONTINUA. O filme, apesar de bem recebido por alguns, não teve a mesma intensidade e sucesso que os outros, mas conseguiu fechar a trilogia mutante. Mesmo assim, a Fox não queria parar, mas preferiu ser mais paciente.

Depois de um bom tempo sem X-men nos cinemas, muita água já tinha rolado para os spandex desde o magistral início dos filhos do Átomo, então começou-se uma conversinha de se fazer um filme só com Wolvie. Hugh Jackman/Logan/James Howlett/Wolverine havia se tornado de ilustre desconhecido "X" para astro hipercarismático que pode fazer o que quer em Hollywood e acabou assumindo a produção do filme solo do Caolho, respeitando a vida em película do personagem que o tinha levado ao estrelato. Com um diretor bem cotado e uma premissa interessante, dava-se início a uma produção que era carro-cehfe de vários solos de mutantes, entre eles um filme do Magneto. Talvez por discussões entre os produtores e o diretor, talvez pelo vazamento da fita na internet antes mesmo que ela fosse finalizada, talvez pelo excesso de empolgação de Jackman ou talvez pelo momento de mudança e adequação que os filmes-spandex estavam passando após Batman: Cavaleiro das Trevas e Homem de Ferro, X-men: Origens não agradou tanto público e crítica e conseguiu ter uma repercussão razoável em bilheteria mais pelo fascínio que o personagem e seu ator despertam do que pela qualidade da produção. Mesmo assim ampliou o universo mutante nos cinemas e ajudou a consolidá-lo introduzindo novos personagens, mostrando um Dentes de Sabre bem mais crível, revelando algumas coisas do passado do Carcaju e dando espaço para mais filmes. Dois momentos do filme são bem explorados: seu início, com os irmãos-lobo se escondendo através de guerras na história, e o fim de William Stryker adicionado ao aparecimento de Xavier, o resto é balela.

A franquia mutante, no entanto, ainda pode ser explorada de muitas maneiras, um segundo filme de Logan foi encomendado, bem como X-men: First Class, sobre a primeira turma de Charles, o tal do filme do Magneto, e alguns falam de um 4º X-men ampliando a cronologia criada com os primeiros filmes. Independente disso, os mutantes foram importantes por mostrarem que era possível fazer grandes filmes de quadrinhos para um público que não era leitor assíduo destes. Curiosidade: Lauren Shuler Donner, produtora do filme foi quem escolheu Jackman para ser o canadense, ela é esposa de Richard Donner que escolheu (e dirigiu) Christopher Reeve para imortalizar Superman nos cinemas. Ambos personagens se tornaram a cara de seus atores os quais dificilmente serão esquecidos e superados nesses papéis.

Homem-Aranha (2002, Sam Raimi), Homem-Aranha 2 (2004, Sam Raimi), Homem-Aranha 3 (2007, Sam Raimi)

Homem-Aranha sempre foi um personagem muito popular, por isso fazia sentido arriscar primeiro com ele nos cinemas, pois parecia certo seu sucesso. Mas suas manifestações em outras mídias nunca foram lá um realmente um "sucesso" (desenhos, série live action, herói super sentai, mangás...) e depois de milhares de propostas que nunca iam pra frente (até James Cameron já quis fazer um filme do aracnídeo) parecia melhor colocar a cabeça no lugar e esperar o momento certo. Blade preparou o terreno, os X-men fizeram o cenário e Sam Raimi fechou a equação. Fã declarado do Aranha - todo mundo cansou de ler que ele tinha um poster do personagem na parede do quarto - e de suas fases clássicas, o diretor de Evil Dead fez um filme que fazia jus ao título de "ícone pop e imortal" do cabeça de teia. Quase nada foi mudado em sua história de origem: a aranha que pica o nerd está lá, mas sem radioatividade, a menina que ele ama está lá, mas é a ruiva que ele só conhece depois, ele se balança em teias, mas dessa vez as lança de seus pulsos, não de um lançador mecânico, ele ainda deixa um ladrão fugir e perde o tio no processo, aprendendo que "com grandes poderes, grandes responsabilidades", tudo de maneira bem colocada, adaptada à nova década sem conspurcar o original, com um elenco de bons atores, uma direção madura e um bom departamento de marketing. Sucesso na certa.

E que sucesso. À sua época, o primeiro filme bateu recordes de bilheterias, transformou o quase desconhecido elenco em estrelas da noite para o dia, fixou a marca do Amigão da Vizinhança na mente de todos os seres viventes, tendo eles conhecido a obra em HQs ou não, e causou uma comoção em um nível equivalente a seu nascimento em 1962, mas com 100x mais intensidade (até tema de micareta em Fortaleza o personagem foi, com meninas gostosinhas em trajes sumários que lembravam o do personagem), além de ter criado uma cena que entrou para a história do cinema e dos namoros que surgiram na época: o beijo de cabeça pra baixo.

Sucesso feito, contratos assinados, era hora de um segundo filme. Toda a equipe retorna e Sam Raimi recebe dinheiro e liberdade criativa. Coloca Octopus como vilão e "semi-mentor" de Peter, pega todos os relacionamentos criados nos primeiro filme ([MJ + Peter + Harry]/Homem-Aranha + [tia May]) e eleva ao quadrado. Mesmo não alcançando os resultados de bilheteria do primeiro, Homem-Aranha 2 foi o melhor na opinião de público e crítica. E como não poderia? Era perceptível sentir os argumentos de Conway e Lee em cada fala e cena de Peter, ou perceber a dinâmica e velocidade dos desenhos dos Romitas em cada nova sequencia de ação. Aos fãs, aquele era o Aranha dos quadrinhos com seus 40 anos de história vivo, repaginado e sendo ele mesmo. O filme acaba por ser mais que um filme-spandex, era um filme-homenagem à lenda surgida em Amazing Fantasy. Depois de tudo isso como as coisas poderiam dar errado?

Eu falo: anos 90 e fãs imaturos.

Não sai da minha cabeça que toda a culpa de Homem-Aranha 3 não ter fechado de maneira magistral a trilogia partiu dos fãs, daquelas milhares de cartas/e-mails/comentários em blogs que pediam Venon, de Joe Quesada pressionando Raimi para fazer um filme de fãs, do John Dikstra que se mandou pra fazer Hot Wheels e ninguém nunca viu a porcaria do filme de carrinho. A verdade é que, apesar de HA3 ter sido um sucesso de bilheteria (inclusive derrubando o 1º filme), ele tinha ideias boas e ruins. O triângulo amoroso Peter/Mary Jane/Harry conseguiu dar seu passo seguinte e fechar de maneira bem "Marvel" de ser, ver Bryce Dallas Howard sempre é bom, inserir o Homem-Areia foi uma jogada de mestre, deformar e depois matar Harry foi o melhor clímax do filme, mas... e sempre há um "mas"... o uniforme negro parece uma desculpa tão injustificada quanto uma cueca por cima das calças em um cara que é a prova de balas, Flint Marko desaparece tão sem explicação e conclusão que a palavra "coadjuvante" quase se tornou similar a "elenco de apoio", o emo-aranha foi uma prova de que alguém ali realmente não estava em contato com o público que assistia o filme, o pobre Eddie Brock quis ter função no filme, mas nem para ser antagonista de Peter o coitado conseguiu, Harry já tinha esse posto desde o fim de HA2.

Depois de tudo isso, a Sony, proprietária dos direitos do Aranha e seu universo nos cinemas, resolveu dar um tempo e demoraram um bocado pra anunciar um novo filme. Como em time que ganha não se mexe, todo mundo da produção original foi chamado para... nada. As ideias de Raimi não casavam com o novo roteiro e a visão de seus produtores e o material foi cancelado durante alguns dias até ser entregue a Marc Webb que ficou incubido de dar o reboot e revitalizar a franquia. Agora é esperar.

Claro que as aventuras dos personagens Marvel no cinema não se reduzem a isso. Nossa saga de três partes continua na quarta e se encerra na sexta com a estreia de Homem de Ferro 2. Então, comentem e até quarta.

Nenhum comentário:

Postar um comentário