4.30.2010

Revendo Filmes e Quadrinhos ou Com Quantos Takes se Faz um Estúdio Parte Final

Desde X-2 a Marvel comenta sobre filmes interligados e do desejo de se criar uma filmografia coesa completamente dentro do próprio universo. Depois de alguns fracassos em outras mãos, assim como sucessos que criaram uma legião de fãs de seus filmes-spandex, a editora decidiu dar o passo mais ousado de sua vida: tornar-se um estúdio. O momento era oportuno: X-men possui um universo próprio, assim como Homem-Aranha, dessa forma, Fox e Sony, respectivamente, poderiam explorar os dois sem muitos prejuízos para os objetivos da Casa das Ideias. Todos os outros tiveram bilheterias de regulares a ruins, assim a Marvel poderia, com alguma conversa, reaver os direitos de personagens menos conhecidos pelo grande público e usá-los (junto com aqueles cujos direitos sequer tinham sido negociados) em produções menores como testes, ou em maiores que apresentassem algum potencial. Como em um casino, a editora-estúdio apostou suas fichas em duas marcas: o selo adulto Marvel Knights e a apresentação dos heróis que formam seu mais poderoso grupo: os Vingadores.

Justiceiro - Zona de Guerra (2008, Lexi Alexander)

Zona de Guerra é um filme que teoricamente, à sua época, não só daria o reboot na série do ex-policial assassino de bandidos, mas iniciaria um selo cinematográfico mais adulto, o Marvel Knights. Para isso, a Editora-agora-estúdio deu cabo das reclamações dos fãs e fez um Castle mais durão, mais turrão, mais assassino, mais sangrento, mais insano, mais bruto, com mais metralhadoras, mais chacinas, mais "Predador", mais "Stallone Cobra", mais... "Todo Mundo em Pânico"! O filme é um equívoco do começo ao fim. Na tentativa de se fazer algo dentro do gênero "18+" a diretora tropeçou nas próprias pernas e teve como resultado um filme pastelão com um roteiro lineareamente pobre onde baldes de tinta vermelha são jogados na tela em mortes que mais parecem saídas da revista MAD ou de algum episódio tosco de Simpsons ou Big Guy, mas sem toda a "finesse" das obras citados.

O engraçado é que o trailer de divulgação do filme é bem legal e realmente nos motiva a assisti-lo (malditos publicitários), numa possibilidade única de ver a ação na medida do Justiceiro. Usar os personagens do universo do vigilante, como Retalho, foi um lance esperado, mas necessário, arrisco-me dizer que Ray Stevenson talvez seja o melhor Justiceiro a ser mostrado numa tela grande, o resultado final, no entanto, é degradante de muitas formas. Fico me perguntando quantas pessoas quiseram sair do cinema (ou dar um definitvo stop no DVD) quando nosso caro Castle detona um meliante praticante de le pakour quando este dá um salto entre um prédio e outro. A cena lembra um daqueles joguinhos de Atari em que fica uma nave atirando na parte inferior da tela a fim de destruir os ETs que estão descendo da parte superior. Sabe o que é pior? O jogo paleontológico é bem mais empolgante que este filme.

Os atores que fazem os vilões também não ajudam. Os caras nem tiverem a dignidade de ler os quadrinhos, preferindo fazer vilões que são um arremendo daquilo que Heath Ledger fez com o Coringa. E a "adorável" e "inteligentíssima" diretora, colocou o irmão do mal-maquiado Retalho em uma desnecessária sequência destruindo vidros e sangrando, como se o simples fato do cara ter sido retirado de um asilo onde ele estava trancado a 4 chaves já não fosse prova o bastante de sua insanidade. Uma vergonha de tão absurdo. Enfim, o filme enterrou o selo MK e possibilidades de bons filmes, assim como detonou de vez a carreira do Caveira-no-peito nos cinemas. Sinceramente? Ainda bem! Curiosidade: o ator que faz o Micro, Wayne Knight, foi quem liberou os dinossauros em Jurassic Park. O cara não aprende a fugir de monstro...

O Incrível Hulk (2008, Louis Leterrier)

2008 foi o ano de estreia da Marvel Studios. Também foi o ano de uma saga elaborada, por mais que muitos acreditem que não, cujo objetivo, se alcançado, vai criar um grande marco nos filmes-spandex. Indo de trás pra frente nas duas produçõs que abrem caminho para os Vingadores, vamos falar de Incrível Hulk.

Uma vez tendo reavido seus direitos sobre o personagem, a Casa das Ideias o entrega, quase que prematuramente, a Leterrier. O diretor francês ficou bem conhecido pela sequência de Carga Explosiva, um filme de pouco papo e ação rápida. Mestre em uma câmera sempre em movimento, bastante dinâmica, Louis preferiu buscar inspiração para seu Hulk na memorável série de TV com Bill Bixby e Lou Ferrigno e ele não poderia ser mais bem sucedido em sua escolha. Com um elenco de primeira grandeza que contava com caras como Ed Norton (confesso fã da série), Tim Roth, Samuel Sterns e William Hurt, além da simpática Liv Tyler, a obra não faz feio. A eterna busca por uma cura na série, que levava o Banner a viajar todo o solo americano, foi expandida para o globo, assim, Bruce começa no Brasil, volta aos EUA e segue para a Europa (e, nas cenas cortadas, ainda há o Alaska), tudo regado a muita ação e tensão.

O filme não chega a impressionar, devo dizer, mas possui todos os ingredientes necessários ao Hulk. Norton não é o Banner perfeito, mas é um bom ator e faz seu papel direito, Tim Roth também é um antagonista genial que desde a primeira cena em que aparece denuncia seu fim monstruoso e o faz com maestria e selvageria militar. O próprio Golias verde é outro ponto alto do filme. Leterrier faz um MONSTRO, ponto. Nada mais que isso. Desde sua forma física avantajosamente bem distribuída em cerca de 3m de CG muito sujo e musculoso até sua fúria e poder insanos, não há nada ali que não seja um herói monstruosamente incontrolável. O francês ainda acerta mais colocando devidamente bem posicionados easter eggs referentes ao Universo Marvel. Como ele mesmo disse: "Há o Capitão América no meu filme" e quem assistiu pode perceber que ele não estava mentindo. Há tantas coisas positivas que os absurdos erros de continuidade são deixados de lado para perseguições, explosões, batalhas fenomenais, golpes e bordões clássicos.

O Incrível Hulk tirou a impressão ruim causada pelo filme de Ang Lee e, apesar de todos esses pontos positivos, não foi um estrondo de bilheteria, talvez porque no mesmo ano, com estreia bem próxima e anterior a ele, a Marvel lançou seu mais estrondoso sucesso: Homem de Ferro. Curiosidade: quem dubla o Hulk é Ferrigno, uma escolha muuuuito nerd.

Homem de Ferro (2008, Jon Favreau)

Acho que ninguém dava nada por esse filme. Ninguém esperava muito em relação a ele. Parecia só mais uma tentativa para um filme-spandex e que, pensando positivo, seria legal e pronto. Mas alguém resolveu chamar Jon Favreau para a direção, que, por sua vez, decidiu chamar um certo ator consideravelmente talentoso que tinha abandonado vícios e desgraças tão severas quanto as que o personagem que ele iria interpretar viveu. Ele nem precisava atuar, bastava acreditar que era um gênio com uma conta bancária ilimitada. De certa forma, tudo foi bem fácil pro cara.

Não consigo descrever o impacto que este filme teve em mim. Foi a consolidação que Marvel Studios existia, era possível e poderia dar certo. Favreau pegou um conceito parecido com o desenvolvido por Raimi em HA1, retirou a responsabilidade e deu liberdade a Downey Jr, o qual montou um Tony Stark superiormente mais interessante que seu alter ego de metal. Resultado: um herói muito mais carismático na tela que nos quadrinhos e mais bem sucedido também.

Esse filme possui uma química simples baseada em pontos chaves (técnica e bobamente falando). O enredo é enxuto: uma história básica de apresentação (o protagonista é assim + fez-se herói assim + o vilão é esse aqui + explosões no meio do caminho + explosões e briga no clímax = tom de continuação no fim), mas o filme real está em seus atores. Completamente confiante na força dos personagens e na qualidade do elenco, Favreau diminuiu as cenas de ação e alongou as de seu protagonista (Tim Burton fez o mesmo em seu filme do Coring... Batman), dando-o um suporte com um elenco de apoio seguro e bem preparado. E é isso que faz o filme ser tão singular.

Apesar de Downey Jr ser a grande e brilhante estrela da adaptação, ampliando de maneira majestosa, divertida e inteligente os dilemas de um personagem até então "menor" no universo Marvel, os coadjuvantes possuem participações marcantes e empolgantes sem ter de "roubar a cena", dando uma certa harmonia à narrativa. Por conta disso, arrisco dizer que Gwyneth Paltrow foi a melhor coadjuvante feminina (humana) num filme-spandex. Não gritava como Kirsten Dunst em HA, não é apagada como Katie Holmes em Batman Begins e Kate Bosworth em Superman Returns, não é bobinha como Liv Tyler no Hulk, nem é símbolo-apelativamente-sexual como Eva Mendes e Jennifer Garner no Motoqueiro e Demolidor. Ela, apesar de secretária de Stark, é uma mulher real, com visões, objetivos e saídas reais e anjo da guarda de um alucinado chefe. Terrence Howard casa perfeitamente o militar durão e o melhor amigo que perdoa tudo, mas chamando seu chapa de feladap*%@ quando necessário, e o grupo fecha com o sempre magistral Jeff Bridges que faz um vilão tão deliciosamente crível que sinto ao mesmo tempo felicidade e pena por não poder vê-lo em uma continuação.

Apesar de todos os cuidados de seu diretor, entregando aos fãs um filme que é muitas vezes comparado ao singular Batman - Cavaleiro das Trevas por simplesmente ter ido na direção contrária deste e ser bem sucedido, seu clímax é razoável, o que, na verdade, não passa de um detalhe se comparado a todo o resto. Impossível não se empolgar e ri quando Tony começa a fazer sua armadura em casa, os testes de voo e sua tentativa de engatar um romance com Pepper, os carões que leva de Rhodey, ou de se roer os dedos quando ele está preso no começo do filme e você sabe que Mark I sairá dali. Tudo bem organizado, bem cuidado, com uma narrativa linear simples, mas ricamente trabalhada em seus detalhes.

Enfim, um filme que poderia ter acabado nos créditos e tudo teria ficado bem, mas alguém tinha que colocar uma cena a mais, um personagem a mais, um doce a mais. Assim, a SHIELD estava ali. Estava em Hulk, mas em Homem de Ferro seu líder dá as caras. Nenhuma surpresa ao revelarem que o Nick Fury escolhido foi Sammy Jackson, da tão bem falada versão Ultimate do mais poderoso grupo de heróis da Marvel, mas foi uma surpresa de gloriosa esperança quando este diz "Iniciativa Vingadores". Já não era mais boato, já não era mais uma incerteza, era o próprio Mace Windu com o tapa olho e o "escudo" na lateral da jaqueta dizendo isso com todas as letras.

Eu sorri como uma criança que acabara de ganhar o Castelo de Greyskull ou o Thundertank. Depois de Homem-Aranha, eu iria ver meu grupo de heróis favoritos antes de bater as botas. E eu sei que essa espera e alegria não são só minhas. Hoje, dois anos após a estreia fenomenal do ferroso, ele retorna com mais certezas e esperanças conquistadas nesse período e anunciadas agora.

Por isso, "True Believer", não perca mais tempo. A Semana de Ferro acaba aqui, então corra a um cinema neste fim de semana, aproveite o feriado e prepare-se para os primeiros passos que definirão os Vingadores!

VINGADORES PARA TODOS!

Quer saber mais sobre o Homem de Ferro? Então clique AQUI e leia Viga Mestra por Wesley Samp no site da galera do HCast.

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