5.28.2010

Traçando o Mapa dos Quadrinhos em Fortaleza Parte 1 ou Garimpando na Sarjeta

Antes de tudo, grandes desculpas por atrasar a publicar novidades aqui. Há muita coisa pra fazer esses dias e brevemente espero trazer novidades mais grandiosas a todos. Até lá, curtam as matérias.
No dia das mães eu resolvi por em prática um plano que eu tinha em mente desde a época em que a Fanzine era na 13 de Maio (ok, essa foi bem piada interna pra quem vive em Fortaleza, desculpa): criar um mapa de meus pontos favoritos para se adquirir ou pesquisar quadrinhos na cidade de Fortaleza. Enfim, enquanto procurava os melhores presentes com as melhores ofertas para todas as mães da minha vida (a minha, a sogra, a avó, umas sete tias...) aproveitei que estava munido da câmera digital do amigo Marcus (vejam seus desenhos em nosso flickr) e saí em minha primeira busca dos espaços de HQs da Cidade Luz. Confiram o resultado.

Gibiteria Ravena

Ravena, além de uma vilã e integrante dos Titãs, também é uma cidade da Itália. Independente de ter tido essa ou aquela origem, é um nome muuuuito legal pra uma gibiteria. Em um espaço quadrado, aparentemente 10mx10m (haha), encontram-se várias estantes com quadrinhos (do meu, do seu e de outros tempos), DVDs, romances, revistas diversas, livros de RPG, colecionáveis, pôsteres, pornôs diversos, etc etc etc. Um lugar "aconchegante", com preços acessíveis e um atendimento bacana e educado. É meu lugar favorito para comprar HQs. As coleções deles de revistas antigas não é a melhor da cidade, mesmo assim possui muita coisa interessante, barata o bastante para colecionadores mais lisos e (graças a Deus, apesar de não todas) bem cuidadas. Seu grande diferencial, no entanto, além dos preços, é a quantidade de colecionáveis. São poucos, é verdade, mesmo assim muitos se comparados às possibilidades de se encontrar bonequinhos do gênero em Fortaleza fora do ebay. Quando fiz a visita que gerou essa matéria tinha um Alien e um Predador lá (Caramba! Muito legal). Os fãs de séries antigas também podem ficar felizes, há um interessante arsenal de DVDs lá, assim como álbuns de figurinhas, filmes e pornochanchadas do tipo que não se encontram em qualquer esquina. Os fãs de RPGs saudosistas terão orgasmos. Vez ou outra aparece um suplemento de AD&D por lá e certa vez vi os tão famigerados livros bases (Monstros, Mestre, Jogador e Forgotten Realms) em um pacotinho de R$150! Os TEXanos também se sentirão felizes, pois sempre tem uma edição especial ou revista um pouco mais antiga em alguma das prateleiras e mesmo Epopeia Tri já foi vendida lá (o pai de uma amigo meu comprou). Mas, atenção, Ravena deve sempre ser visitada porque seu estoque é bem rotativo.

Base de Operações: Rua Solón Pinheiro, 279 - Loja 04 - Centro, esquina com Duque de Caxias, próxima ao Parque das Crianças (Fone 8813.9979).

Gibiteria e Sebo Fanzine

Talvez um dos nomes mais criativos de uma gibiteria em Fortaleza, a Fanzine também é uma das mais "tradicionais". Seu acervo é bem vasto, mas seus preços são um tanto mais salgados que os da Ravena. Muito boa para colecionadores, pois desde épocas hermas é um sebo, há um considerável número de adoráveis velharias, como o encontro de Superman e Homem-Aranha, a primeira edição do cabeça-de-teia pela Abril, revistas da primeria formação dos Titãs, Crise das Infinitas Terras e outras coisinhas maravilhosas (foram vistas lá quando visitada, então não garanto que ainda estejam), fora Graphic Novels de várias eras. Para quem gosta de bótons, camisas, correntinhas, etc. há uma considerável quantidade desses acessórios, principalmente aos fãs de games e cultura japonesa (tem uma corrente que é a espada do fode c* de divindades gregas, Kratos, e uma outra que é a espada de Ichigo! Muito bem feitas por sinal). O legal desses bagulhos é que boa parte deles são produzidos aqui mesmo em Fortaleza, inclusive os pouquíssimos bustos, estatuetas e miniaturas. Outra coisa bacana é a quantidade de acessórios para RPGistas. Além, lógico, de livros, há dados (quando jogava era onde eu comprava meus roladores numéricos), cards, minis, bases, terrenos, mapas... Em minha visita, e isso foi novidade para mim, havia um grupo de jogadores em seu primeiro dia de mesa no local (confiram as fotos do nosso flickr), uma atitude que todas as gibiterias deveriam ter: criar um espaço lúdico (mesmo que um pouquinho apertado).

A Fanzine está em meu coração desde que voltei a morar na cidade. Foi a primeira gibiteria que entrei na vida, ainda na extinta loja da Treze de Maio (leia aqui minha tristeza quando esta loja fechou), perto dos campus de humanidades da UECE e UFC e perto do CEFET. Foi lá que comprei meu primeiro dado de RPG (o bolão), meus primeiros livros de Sci-fi (antes eu só ganhava), uma fita do Perfect Blue (quando os funssubs ainda viviam de cassetes), minha primeira edição de Evangelion e também foi lá (na verdade, na loja do Centro) que eu vendi minhas coleções de Homem-Aranha, Teia do Aranha, Rei Conan, A Espada Selvagem de Conan, Wolverine e Super Aventuras Marvel (talvez um de vocês, leitores, tenha comprado alguma revista minha). Depois disso e do fechamento dessa filial, "nosso relacionamento" se tornou mais morno, mas ainda a visito e a cada dois meses contribuo para o crescimento financeiro do local comprando algumas velharias ou camisas.

Base de Operações: Rua Pedro I, 583 - Centro (Fone 3252.3660)

A Praça José de Alencar e Arredores

Cartão-postal de Fortaleza em algum momento de sua história, a praça José de Alencar e seus arredores deveriam ser espaços para "procriação/evolução/germinação/transmissão" (e outros vocábulos "orgânicos") de arte. Assim, quando a elite cultural da Terra do Sol preferiu salvaguardar o teatro que dá nome à praça e sua área interna como pólo artístico classe A, deu espaço às comunidades "undergrounds" (ok, tentei não por uma expressão tão pejorativa quanto "marginais", mas acho que não funcionou...) se proliferarem em torno dele. É nesse ambiente que os grandes (e aventureiramente corajosos) garimpeiros de quadrinhos surgem, descobrindo o impossível entre montes desordenados de HQs que dividem seus espaços com antigas revistas Playboy, pornôs (perceberam que eles estão em todas?) que vêm do tempo dos seus avós, livrinhos de romances de meia hora como Júlia, Cláudia, Fabrícia, Roberta, Bruna e derivados e colecionadores/vendedores/trocadores/escambistas/vampiros desgraçados de figurinhas. Enfim, há uma enorme quantidade de clássicos e boas histórias esperando que alguém as encontre e coloque-as em seu devido lugar. Um amigo meu certa vez encontrou a primeira edição de AKIRA pela Abril por R$1,00, falta achar as outras 29 (se eu bem não me engano...).

Enfim, como não dava pra visitar todos as "cavernas" deste espaço. Listo duas pra vocês:

Banca Cláudia

Essa é do tipo "sente e procure", ou fique em pé já que lá não tem espaço para sentar. Há muita coisa em seu pequeno espaço e apesar de estar tudo meio amontoado é possível encontrar algumas revistas dos spandex americanos, nacionais e europeus - pra mim um grande diferencial. Apesar de TEX ainda ser a HQ Bonneli mais comum, não é difícil encontrar uma Dylan Dog (ahh, o desejo de uma melhor edição desse personagem no Brasil), Mágico Vento, etc. Grande quantidade de romances de 30min para comprar e trocar (vocês sabiam que existem um grupo não divulgado de garotas que vivem fazendo isso?), os quais também servem como cartão da loja que eu vou escanear e colocar pra vocês no nosso flickr. Claro que tudo no charme da organização de uma banca no Centro.

Base de Operações: Rua General Sampaio "defronte" a Galeria Prof. Brandão, Praça José de Alencar, Centro

Banca Ravena

Ok, falei da Gibiteria, mas os caras também têm banca num dos pontos mais ilustres da cidade! Salvo as devidas proporções, é o mesmo material impresso de sua sede central, mas nunca se deve menosprezar uma aparente fonte menor, por isso, quem visitar dê-se a chance de escavocar um pouco mais, pois poderá encontrar muita coisa interessante nas seções mais escondidas. O atendimento é legal e como é de praxe da Ravena e das bancas do TJA o precinho é de amigo.

Base de Operações: Rua General Sampaio, 930. Praça José de Alencar em frente ao Ponto da Moda (Fones 3231.8202 e 8829.6775)

E é isso pessoal, na última sexta-feira do próximo mês mais uma matéria de onde encontrar quadrinhos numa das mais bonitas cidades litorâneas do Brasil.

5.17.2010

Fazendo um Quadrinho Independente Parte 2 "KIMOTA! Podcast"

O Caio foi um cara por quem tive empatia desde o primeiro contato. Falávamos sobre quadrinhos como dois intelectuais falam sobre coisas de intelectuais. Eu era Kick-Ass e ele era Red Mist (sem toda a sacanagem envolvendo os dois). Quando o cara chegou a primeira vez falando em fazer um podcast, minha reação foi bem natural: "o que é um podcast?"

Passado o período inicial de dúvida, ele me veio com essa proposta maluca de fazer um tipo de rádio on-line em que conversaríamos sobre gibis e outras coisas nerds. A ideia inicial não tinha só a gente, mas um punhado de pessoas vindas de vários cursos, com conhecimentos diferentes que pudessem debater sobre estrutura, existência e influência da/na nona arte. Assim, tinha gente dos cursos de Letras, Física, Engenharia, Filosofia, entre outros. Bem, a coisa acabou não andando e Caio quase desistiu quando os interessados pareceram não se interessar tanto. Então eu propus fazer um único programa e se desse certo a gente continuava.

Deu tão certo que a gente ficou quase um ano nessa. O primeiro programa foi meio desastroso tendo em vista nossa inexperiência e experimentalismos presunçosos, mas aos poucos a gente foi pegando o ritmo. Inicialmente era somente Caio, eu e nenhuma pesquisa e os primeiros episódios eram com comentários wikipédicos de minha pessoa e frases mordazes e sagazes do colega. Com o tempo, e algumas críticas, começamos a fazer uma pesquisa mais elaborada, não somente baseada no "eu acho que...", e o KIMOTA!, nome meio que decidido de última hora e baseado na obra do Mick Anglo - o Marvel/Miracleman, virou uma pequena fonte on-line de informações e curiosidades nerds. Assim, eu era o cara ligado no mainstream norte-americano, Caio, o editor e escavocador underground e KIMOTA!, o programa-encontro-terapia-podcast mais divertido das nossas quartas-feiras.

Lá pelo segundo ou terceiro episódio percebemos que precisávamos de alguém que entendia do ofício do desenho conosco. Parecia-me óbvio que Kaléo deveria fazer parte do grupo. Então, após duas ligações, meu parceiro-desenhista-favorito entrava para a equipe, sempre com suas frases geniais, introduções cômicas e um ou outro comentário ácido. O contato do novo integrante com o mundo da animações bem como suas referências casaram perfeitamente com as de Caio, assim, havia um time que entendia um bocado de animação e eu, o rato das HQs. E estava formado e consolidado o KIMOTA! Crew.

Infelizmente, como tudo que é bom e feito por grandiosas mentes criativas não dura lá muito, após 22 programas gravados, 19 postos no ar, várias reuniões que envolviam desde o mundo dos quadrinhos até as novelas da Globo, resolvemos parar. Trabalho, troca de horário, atraso de programas, sono e novos projetos nos levaram a tomar a decisão. Saímos na boa, sem brigas, discussões ou decepções. Foi quase um ano comentando o mundo dos quadrinhos de uma forma bem divertida e nerd, entrando em contato com mentes em eterna ebulição e dando o incentivo a outras, além de amigos que estiveram na 2ª parte mais criativa da minha vida, ou seja, um maravilhoso saldo positivo. Cada um foi buscar seu rumo, Kaléo continuou comigo e nosso quadrinho, fora milhares de outros projetos ligados a animação, e Caio foi cuidar de assuntos mais pessoais, e eu, bem, estou aqui documentando tudo isso.

A verdade é que o KIMOTA! abriu muitas portas, principalmente criativas, e isso me levou a retomar a ideia do blog e ir atrás de fazer quadrinhos por minha conta e risco, convidando caras que considero talentosos e que merecem ter seus nomes na história dos quadrinhos, sendo assim um capítulo importante nessa epopeia ao Sarjeta.com.

Com esse post eu adiciono os desenhos conceituais de mais um autor do Sarjeta.com, o Marcus Vinícius. Vejam e comentem acessando nosso flickr.

Não percam a próxima parte.

Conheçam os bastidores e detalhes do surgimento do KIMOTA!Podcast clicando aqui
Relembrem os melhores momentos e podcasts aqui
Relembre a primeira parte desse post aqui
Vejam em nosso flickr as artes que fizeram (ou não) o KIMOTA! Podcast

MOVIMENTO QUADRINHOS (E PODCASTS) PARA TODOS!

5.12.2010

Frazetta

Nunca li um quadrinho sequer desenhado por Frank Frazetta. Nunca. Mas suas ilustrações influenciaram minha visão de mundo fantástico de uma forma que todos os personagens de RPG que fiz na vida eram para funcionar em um quadro desenhado/pintado/nascido por ele. Em minha infância lembro de um ou outro desenho do Conan em seus traços e pinceladas e do fascínio que aquilo me causou reverberando em minha vida e criatividade até hoje.

Sonhava em conhecê-lo e cheguei a ter sonhos com ele velhinho dizendo a um menino de grandes óculos redondos onde cada uma daquelas figuras estavam alojadas em sua mente. Infelizmente, isso realmente não passará de um sonho.

Ontem ele morreu. Estava com 82 anos. Não era o auge de sua carreira, mas gênios não possuem "auges". Eles são gênios e isso é tudo.

Estou triste e Z&A está de luto. Eu ia colocar mais 2 posts essa semana. Não vou mais. Talvez não fosse seu desejo que eu parasse a atividade, mesmo ele nem sabendo de minha existência, mas prefiro assim. Passem o tempo que iriam ler este blog procurando mais sobre este criador de universos. Vai valer a pena.

Até próxima semana.

5.10.2010

Lendo o Universo Digital ou Um Dia Mojo Comics

Eu me considero um camundongo digital. Fico zanzando em alguns lugares às vezes inexplorados da net atrás de novidades pouco vistas no mundo dos quadrinhos. Por vezes me deparo com uma peça um pouco mais bem cuidada em meio às porcarias do lixão de 0 e 1 da rede mundial.

Tem algum tempo, um dia caí na Mojo Books. No bem acabado e organizado site, os caras tem uma área para quadrinhos gratuitos. As premissas de suas histórias logo de cara não é isso tudo de interessante, mas eu fiz o download de uns dois títulos que me pareceram mais atraentes, salvei e deixei para posteriores observações.

A overdose de HQs americanas antes e depois da época da estreia de Homem de Ferro 2 fez com que meu paladar precisasse de algo mais nacional e possivelmente distante do clicheresco mercado massificado de comics. Assim, procurando bons títulos em minha mini biblioteca nacional digital, reecontrei os Mojo Comics e decidi lê-los. E que surpresa.

A proposta do selo Mojo Comics da Mojo Books é recontar músicas em quadrinhos. Sinto que fui reticente em abrir o arquivo porque simplesmente achei que era a letra da música acompanhada de desenhos. Bobagem minha. Os artistas simplesmente se baseiam nas obras em áudio para produzir suas obras gráficas. Dois títulos me atraíram, Grandes Mentes da Pré-história, inspirada em Homem Primata dos cro-magnos Titãs e quadrinizada por Ricardo Giassetti (rot) e Pablo Mayer (des), e The Cure - Like Cockatoos, recontada por Fabio Cobiaco. Ambos os títulos são curtos, com uma edição de qualidade, atraentes aos olhares e feitos por profissionais. As pessoas os conhecendo ou não. Falando sobre os trabalhos.

Grandes Mentes... é um quadrinho divertidamente simples e bem feito. Com uma narrativa ocasional e organizada, ligada aos detalhes, coisa que Giassetti faz com uma leveza quase comum, nos fazendo acreditar que o processo de criação de uma história é bem simples. Algo admirável, pois dá um tom universal ao seu trabalho, apesar das poucas referências de conhecimento unicamente brasileiro, que não mostram uma necessidade de ufanismo tão absurdamente comum em HQs nacionais. Mayer, por sua vez, é um desenhista deveras competente, sua arte se adequa ao contexto da história da mesma forma que os Titãs aos anos 1980, sendo bem engraçada da capa até o último quadro. O conto dos dois também é criativo e inteligente, sem ser cabeça a ponto de ninguém entender. Uma ode ao rock como força modificadora socialmente humana, e à ciência como passo evolucionário necessário, mas que se encuba em meio a descrença e surge dentro de ambientes periféricos ou menosprezados. Apesar da inspiração, a HQ não é uma versão ipsi literis da tão conhecida música de grupo oitentista, pelo contrário, funciona completamente independente desta, sendo um trabalho com sua própria individualidade.

The Cure - Like Cockatoos, por sua vez, é um trabalho que necessita das guitarras do grupo o qual se inspirou para ser uma obra completa. Cobiaco é um artista na concepção mais profunda da palavra. Cada página de sua obra é um colírio aos olhos, principalmente porque seus desenhos são genialmente conceituais. Eles me fazem pensar que Sandman seria uma obra melhor se tivesse sido narrada com desenhos assim (é, não gosto de Sandman, e daí?). Cada quadro é a realidade de um devaneio, a certeza de se andar por um mundo que não pertence ao tátil, num tipo de sinestesia narrativa poética. O problema, no entanto, advém de sua inspiração. Sem o suporte da música que faz o título, muitos interpretariam o barulhento silêncio do quadrinho como um conjuntos de borrões que nada falam entre quadros-chaves que parecem querer contar uma história. Uma pena aos ignorantes que o virem de forma tão minúscula. Há uma poesia naquelas linhas que deveria ser a forma moderna de se "sentir" a arte.

Sempre reclamo de quadrinhos digitais. Scans não servem como quadrinhos, mas como índices de obras impressas. Páginas duplas morrem no computador, a divisão da página diminui a força da narração, a demora e queda de qualidade de um pdf destróem o trabalho de um desenhista. Digitalmente é necessário ter uma concepção diferente, um acabamento e uma edição realmente únicas para aquele formato. A Mojo Comics apresenta uma dessas possiblidades nesses quadrinhos. A página do arquivo é a "tela-página", em sua forma e concepção, onde cada etapa é contada por completo e com uma visualização cheia (full). A virada de página é a "passada" do arquivo, colocando a surpresa para cada etapa, não só para a "virada", há milhares de recursos narrativos que podem ser aproveitados nesse esquema e ambas as HQs resenhadas aqui se usam sabiamente disso. Apesar de minha crítica ao formato pdf (prefiro a utilização do CDisplay, pois o considero mais simples, menos pesado e de melhor visualização, possibilitando, inclusive, uma melhor qualidade nas imagens), em nada isso atrapalha o caminhar das histórias e se adequa apropriadamente ao formato.

Vendo dessa forma, parece-me que a obra de Fabio Cobiaco vai mais além ao trazer um quadrinho que deve ser lido acompanhado de uma música apoiando ainda mais a ideia de que sua arte nessa obra é puramente sinestésica por mais "tons de cinza" que seja. De uma genialidade discretamente óbvia e muito bem empregada.

A atitude da Mojo Books em propor esse formato deve ser divulgada, copiada e apoiada. Mais quadrinhos estão disponíveis na página da editora, agora também em nossa lista lateral de links e por essa matéria. Então, visitem, divulguem e se usem do recurso. Sei que o quadrinho só tem a ganhar, pois aí está a verdadeira "revolução" (tome, Panini!).

MOVIMENTO QUADRINHOS PARA TODOS EM TODAS AS MÍDIAS!

5.03.2010

Resenha de Homem de Ferro 2 [com spoilers]

Não quis fazer essa resenha agora por várias razões. A principal delas é que considerei que o primeiro contato que tive com esse filme foi prematuro, despreparado, possivelmente influenciado por outras questões que não condiziam com o ritmo necessário para ver uma obra tão esperada. Mas, enfim, o teclado me chamou e os pensamentos me forçaram a expor essas ideias nem que seja para organizá-las, então, vamos a elas.

Homem de Ferro 2 é um primor. Sério. É uma joia bem talhada, com todas suas arestas limadas e polidas, com seus prismas brilhando do jeito correto, com a miríade de cores que saem dele formando um belo espetáculo. Infelizmente esta joia é tão perfeitamente organizada que por vezes soa artificial. Possivelmente isso aconteça porque Favreau segue algo que eu sempre o elogiei por fazê-lo, o caminho seguro.

Novamente o diretor seguiu sua própria cartilha: apoiou-se severamente em seus personagens, assim a relação de Stark e Pepper dá seu passo seguinte, que na verdade não é passo nenhum, mas o complemento esperado daquilo que faltou no primeiro filme. Caso essas figuras não fossem interpretadas por Downey Jr (que parece mais velho e cansado, o que não quer dizer menos talentoso) e Gwin Paltrow (lembra dos gritos que eu disse? Aqui tem, mas mesmo assim é aceitável), cuja química me faz lembrar as melhores cenas de HA com Maguire e Dunst, possivelmente um desastre estaria presente nas falas rápidas (que gerou uma dificuldade para a turma da legenda em português, assim os fãs não conhecedores da língua inglesa que odeiam dublagens vão sentir uma perda em alguns diálogos) e nas cenas mais emotivas - coisa que os dois tiram de letra em atuações sinceras e precisas. Sam Rockwell também é um achado e eu fico me perguntando porque ator tão talentoso ainda não tinha feito um filme-spandex. Ele poderia ser quem quisesse vindo de qualquer lugar da Marvel ou DC. Sua atuação é tão segura que ele fez Justin Hammer, nas HQs um velhinho meio Scrooge, um personagem 10 vezes melhor que qualquer versão impressa, atingindo um nível que só o protagonista de Tony Stark havia alcançado. Se ele não aparecer em um terceiro filme a franquia terá perdido uma de suas grandes estrelas. Ainda no lado escuro da força, Mickey Rourke constrói um vilão tão único e seguro que ninguém sente que ele é um arremendo de outros dois vilões menores do ferroso, suas poucas cenas são tão marcantes e seu personagem tão bem trabalhado que o resultado é uma simpatia imediata pelo desgraçado e amargurado Ivan Wanko.

Apesar do elenco ser a grande qualidade do filme, acaba sendo também seu maior defeito, pois o maior vilão de Stark é ele mesmo, seus incorrigíveis defeitos, seu orgulho exarcebado, sua vida de playboy, sua irresponsabilidade patente. Mas se o cara é o maior vilão da história como ficam os vilões de verdade? Diminuídos, infelizmente. O que acaba sendo uma incoerência, pois o casting é tão bom que limitá-lo a um conjunto de cenas-chave dá aquela sensação de que tudo foi feito pela metade e apoiar-se quase que por completo em Downey Jr. criou dificuldades para a narrativa quando deveriam ajudá-la. Rourke tem cenas curtas e participação quase discreta em boa parte do filme, Rockwell também, e apesar de seus talentos saltarem aos olhos cada vez que eles surgem, o ego de Stark/Downey Jr. ainda é bem maior que isso e sustentar todo o filme nessa premissa faz como que, em alguns momentos, a história seja de um homem só, sem tramas paralelas que pudessem enriquecer o enredo ou vilões cujos dramas fossem aprofundados. O próprio aperreio de Pepper como CEO da empresa só é possível ser sentido se Stark aparece, caso não, você nem sabe o que falam dela.

Ainda há mais escorregadas. Scarlett Johansson causa uma certa decepção, pois sua personagem parece uma desculpa funcional para outros filmes interligados. Assim, por mais que ela sirva para a trama e vê-la (por sinal, em sua melhor forma física e fazendo as melhores cenas de luta do filme) surrando capangas seja um deleite, o pensamento de "mais um fetiche" se mantém, mesmo sem um decote de saltar aos olhos (PG 13), pois todos sabem que o preciosismo da loira/ruiva num filme está além de seu par de seios e suas curvas. Don Cheadle também não substitui o descolado Terrence Howard. Apesar de tentar com muita força, um dos melhores atores negros de nossa geração assume o lugar de Rodhey com uma incerteza patente a cada expressão, parecendo incrivelmente desconfortável em vários momentos do filme. Realmente uma pena, pois faz com que os dramas entre ele e Stark se tornem uma briga de criança, quando poderia ser bem mais que isso.

Favreau foi certo e seguro no que fez, mas infelizmente pouco ousado. Comparando Homem de Ferro 2 a Homem-Aranha 2 tudo isso fica bem mais patente. Raimi fez o segundo filme do teioso sabendo onde colocar os pingos nos "i", assim o dilema de Harry é aprofundado e funciona para a trama, você sabe o que Mary Jane pensa e o que ela passa, você percebe toda a loucura que levou Octavius a se tornar Octopus e por fim ser o herói, tudo sempre tendo Peter Parker como fio condutor e não estrela, ousando ao descer ainda mais seu personagem principal na lama dos dilemas de seus relacionamentos mais próximos, focando-se no homem por trás da máscara através dos coadjuvantes que fazem sua vida, não o contrário. HF 2 comete o pecado de seguir uma lógica contrária: todos vivem em função de Tony e sem ele nem mesmo uma perspectiva melhor existe, mas viver com ele é dormir em uma cama arrumada pelo mijão de armadura. Não há sugetão de novos dilemas, simplesmente repetição, assim há simplesmente uma reprise um pouco mais larga de tudo: Stark tem uma condição que o mata, por isso apresenta/evolui sua tecnologia para sustentar a própria vida (criando tudo na improvisação de peças que não estavam a seu alcance), percebe que gosta de sua assistente exatamente do mesmo jeito que a outra vez, mas agora tem beijo, seu melhor amigo ainda o ajuda, apesar de continuar brigando com ele, o vilão vem, faz uma armadura maior e cai em um clímax tão pouco empolgante quanto o do filme anterior. Onde já foi visto tudo isso? No primeiro Homem de Ferro, exatamente do mesmo jeito! Assim HF 2 é uma sequência igual a seu personagem principal, que cresceu, mas não amadureceu.

Mesmo assim, é diversão na certa. Quem acompanhou os trailers e a campanha gerada na internet sentirá falta de uma ou duas cenas que realmente ficaram marcadas durante os vídeos promocionais, o que, diga-se de passagem, é bem chato. No entanto, tudo ainda funciona porque os Vingadores se tornam cada vez mais presentes. Há referências imensas e detalhes que dão um passo largo para aquele que promete ser o maior filme de super-heróis de todos os tempos. O Nick Fury de Sammy Jackson é o elo de ligação perfeito por simplesmente aparecer de maneira pontual, nada tão distante do espião que conhecemos. Agente Coulson também está lá, bem como o escudo do Capitão América (dessa vez sem que ninguém precise "catá-lo" em algum lugar) e até o Mjolnir resolveu dar as caras. A realidade de um filme que envolve os maiores heróis da Terra faz os defeitos de HF 2 parecerem o tempero regular para um aperitivo menor só pra não se perder o apetite para o prato principal.

Apesar da possiblidade de todos lerem esta crítica com um tom negativo, espero estar longe disso. HF 2 é um ótimo filme-spandex, apresenta tudo que deve ser apresentado com certa segurança de se saber onde se está pisando, ao mesmo tempo que respeita Marvetes e fãs das franquias cinematográficas. Um filme que deve ser assistido no cinema mais de uma vez para que se perceba todos os detalhes que o levam a ser mais um capítulo da Marvel na 7ª Arte. Então, amigos, ergam as mãos e se preparem, pois falta muito pouco para se ouvir em alto e bom som...

AVENGERS ASSEMBLE!

Leia mais sobre HF 2 no HCast e no Omelete e não desista de ir ao cinema.
Quer mais sobre Vingadores? Clique aqui e leia Kevin Feige abrir a bocarra!

Desculpas...

A todos que acompanham este blog, minhas mais sinceras desculpas pelas poucas imagens e algumas inclusive inacabadas, não colocadas nos estilos que eu defini para este espaço, mas o pouco tempo que me serve faz com que eu tenha de escolher entre textos e photosjop, por isso prefiro escolher o primeiro. Logo que possível, no entanto, todas estarão definidas e recolocadas aqui e atualizadas no flickr.

Agradeço a compreensão de todos.