5.10.2010

Lendo o Universo Digital ou Um Dia Mojo Comics

Eu me considero um camundongo digital. Fico zanzando em alguns lugares às vezes inexplorados da net atrás de novidades pouco vistas no mundo dos quadrinhos. Por vezes me deparo com uma peça um pouco mais bem cuidada em meio às porcarias do lixão de 0 e 1 da rede mundial.

Tem algum tempo, um dia caí na Mojo Books. No bem acabado e organizado site, os caras tem uma área para quadrinhos gratuitos. As premissas de suas histórias logo de cara não é isso tudo de interessante, mas eu fiz o download de uns dois títulos que me pareceram mais atraentes, salvei e deixei para posteriores observações.

A overdose de HQs americanas antes e depois da época da estreia de Homem de Ferro 2 fez com que meu paladar precisasse de algo mais nacional e possivelmente distante do clicheresco mercado massificado de comics. Assim, procurando bons títulos em minha mini biblioteca nacional digital, reecontrei os Mojo Comics e decidi lê-los. E que surpresa.

A proposta do selo Mojo Comics da Mojo Books é recontar músicas em quadrinhos. Sinto que fui reticente em abrir o arquivo porque simplesmente achei que era a letra da música acompanhada de desenhos. Bobagem minha. Os artistas simplesmente se baseiam nas obras em áudio para produzir suas obras gráficas. Dois títulos me atraíram, Grandes Mentes da Pré-história, inspirada em Homem Primata dos cro-magnos Titãs e quadrinizada por Ricardo Giassetti (rot) e Pablo Mayer (des), e The Cure - Like Cockatoos, recontada por Fabio Cobiaco. Ambos os títulos são curtos, com uma edição de qualidade, atraentes aos olhares e feitos por profissionais. As pessoas os conhecendo ou não. Falando sobre os trabalhos.

Grandes Mentes... é um quadrinho divertidamente simples e bem feito. Com uma narrativa ocasional e organizada, ligada aos detalhes, coisa que Giassetti faz com uma leveza quase comum, nos fazendo acreditar que o processo de criação de uma história é bem simples. Algo admirável, pois dá um tom universal ao seu trabalho, apesar das poucas referências de conhecimento unicamente brasileiro, que não mostram uma necessidade de ufanismo tão absurdamente comum em HQs nacionais. Mayer, por sua vez, é um desenhista deveras competente, sua arte se adequa ao contexto da história da mesma forma que os Titãs aos anos 1980, sendo bem engraçada da capa até o último quadro. O conto dos dois também é criativo e inteligente, sem ser cabeça a ponto de ninguém entender. Uma ode ao rock como força modificadora socialmente humana, e à ciência como passo evolucionário necessário, mas que se encuba em meio a descrença e surge dentro de ambientes periféricos ou menosprezados. Apesar da inspiração, a HQ não é uma versão ipsi literis da tão conhecida música de grupo oitentista, pelo contrário, funciona completamente independente desta, sendo um trabalho com sua própria individualidade.

The Cure - Like Cockatoos, por sua vez, é um trabalho que necessita das guitarras do grupo o qual se inspirou para ser uma obra completa. Cobiaco é um artista na concepção mais profunda da palavra. Cada página de sua obra é um colírio aos olhos, principalmente porque seus desenhos são genialmente conceituais. Eles me fazem pensar que Sandman seria uma obra melhor se tivesse sido narrada com desenhos assim (é, não gosto de Sandman, e daí?). Cada quadro é a realidade de um devaneio, a certeza de se andar por um mundo que não pertence ao tátil, num tipo de sinestesia narrativa poética. O problema, no entanto, advém de sua inspiração. Sem o suporte da música que faz o título, muitos interpretariam o barulhento silêncio do quadrinho como um conjuntos de borrões que nada falam entre quadros-chaves que parecem querer contar uma história. Uma pena aos ignorantes que o virem de forma tão minúscula. Há uma poesia naquelas linhas que deveria ser a forma moderna de se "sentir" a arte.

Sempre reclamo de quadrinhos digitais. Scans não servem como quadrinhos, mas como índices de obras impressas. Páginas duplas morrem no computador, a divisão da página diminui a força da narração, a demora e queda de qualidade de um pdf destróem o trabalho de um desenhista. Digitalmente é necessário ter uma concepção diferente, um acabamento e uma edição realmente únicas para aquele formato. A Mojo Comics apresenta uma dessas possiblidades nesses quadrinhos. A página do arquivo é a "tela-página", em sua forma e concepção, onde cada etapa é contada por completo e com uma visualização cheia (full). A virada de página é a "passada" do arquivo, colocando a surpresa para cada etapa, não só para a "virada", há milhares de recursos narrativos que podem ser aproveitados nesse esquema e ambas as HQs resenhadas aqui se usam sabiamente disso. Apesar de minha crítica ao formato pdf (prefiro a utilização do CDisplay, pois o considero mais simples, menos pesado e de melhor visualização, possibilitando, inclusive, uma melhor qualidade nas imagens), em nada isso atrapalha o caminhar das histórias e se adequa apropriadamente ao formato.

Vendo dessa forma, parece-me que a obra de Fabio Cobiaco vai mais além ao trazer um quadrinho que deve ser lido acompanhado de uma música apoiando ainda mais a ideia de que sua arte nessa obra é puramente sinestésica por mais "tons de cinza" que seja. De uma genialidade discretamente óbvia e muito bem empregada.

A atitude da Mojo Books em propor esse formato deve ser divulgada, copiada e apoiada. Mais quadrinhos estão disponíveis na página da editora, agora também em nossa lista lateral de links e por essa matéria. Então, visitem, divulguem e se usem do recurso. Sei que o quadrinho só tem a ganhar, pois aí está a verdadeira "revolução" (tome, Panini!).

MOVIMENTO QUADRINHOS PARA TODOS EM TODAS AS MÍDIAS!

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