5.03.2010

Resenha de Homem de Ferro 2 [com spoilers]

Não quis fazer essa resenha agora por várias razões. A principal delas é que considerei que o primeiro contato que tive com esse filme foi prematuro, despreparado, possivelmente influenciado por outras questões que não condiziam com o ritmo necessário para ver uma obra tão esperada. Mas, enfim, o teclado me chamou e os pensamentos me forçaram a expor essas ideias nem que seja para organizá-las, então, vamos a elas.

Homem de Ferro 2 é um primor. Sério. É uma joia bem talhada, com todas suas arestas limadas e polidas, com seus prismas brilhando do jeito correto, com a miríade de cores que saem dele formando um belo espetáculo. Infelizmente esta joia é tão perfeitamente organizada que por vezes soa artificial. Possivelmente isso aconteça porque Favreau segue algo que eu sempre o elogiei por fazê-lo, o caminho seguro.

Novamente o diretor seguiu sua própria cartilha: apoiou-se severamente em seus personagens, assim a relação de Stark e Pepper dá seu passo seguinte, que na verdade não é passo nenhum, mas o complemento esperado daquilo que faltou no primeiro filme. Caso essas figuras não fossem interpretadas por Downey Jr (que parece mais velho e cansado, o que não quer dizer menos talentoso) e Gwin Paltrow (lembra dos gritos que eu disse? Aqui tem, mas mesmo assim é aceitável), cuja química me faz lembrar as melhores cenas de HA com Maguire e Dunst, possivelmente um desastre estaria presente nas falas rápidas (que gerou uma dificuldade para a turma da legenda em português, assim os fãs não conhecedores da língua inglesa que odeiam dublagens vão sentir uma perda em alguns diálogos) e nas cenas mais emotivas - coisa que os dois tiram de letra em atuações sinceras e precisas. Sam Rockwell também é um achado e eu fico me perguntando porque ator tão talentoso ainda não tinha feito um filme-spandex. Ele poderia ser quem quisesse vindo de qualquer lugar da Marvel ou DC. Sua atuação é tão segura que ele fez Justin Hammer, nas HQs um velhinho meio Scrooge, um personagem 10 vezes melhor que qualquer versão impressa, atingindo um nível que só o protagonista de Tony Stark havia alcançado. Se ele não aparecer em um terceiro filme a franquia terá perdido uma de suas grandes estrelas. Ainda no lado escuro da força, Mickey Rourke constrói um vilão tão único e seguro que ninguém sente que ele é um arremendo de outros dois vilões menores do ferroso, suas poucas cenas são tão marcantes e seu personagem tão bem trabalhado que o resultado é uma simpatia imediata pelo desgraçado e amargurado Ivan Wanko.

Apesar do elenco ser a grande qualidade do filme, acaba sendo também seu maior defeito, pois o maior vilão de Stark é ele mesmo, seus incorrigíveis defeitos, seu orgulho exarcebado, sua vida de playboy, sua irresponsabilidade patente. Mas se o cara é o maior vilão da história como ficam os vilões de verdade? Diminuídos, infelizmente. O que acaba sendo uma incoerência, pois o casting é tão bom que limitá-lo a um conjunto de cenas-chave dá aquela sensação de que tudo foi feito pela metade e apoiar-se quase que por completo em Downey Jr. criou dificuldades para a narrativa quando deveriam ajudá-la. Rourke tem cenas curtas e participação quase discreta em boa parte do filme, Rockwell também, e apesar de seus talentos saltarem aos olhos cada vez que eles surgem, o ego de Stark/Downey Jr. ainda é bem maior que isso e sustentar todo o filme nessa premissa faz como que, em alguns momentos, a história seja de um homem só, sem tramas paralelas que pudessem enriquecer o enredo ou vilões cujos dramas fossem aprofundados. O próprio aperreio de Pepper como CEO da empresa só é possível ser sentido se Stark aparece, caso não, você nem sabe o que falam dela.

Ainda há mais escorregadas. Scarlett Johansson causa uma certa decepção, pois sua personagem parece uma desculpa funcional para outros filmes interligados. Assim, por mais que ela sirva para a trama e vê-la (por sinal, em sua melhor forma física e fazendo as melhores cenas de luta do filme) surrando capangas seja um deleite, o pensamento de "mais um fetiche" se mantém, mesmo sem um decote de saltar aos olhos (PG 13), pois todos sabem que o preciosismo da loira/ruiva num filme está além de seu par de seios e suas curvas. Don Cheadle também não substitui o descolado Terrence Howard. Apesar de tentar com muita força, um dos melhores atores negros de nossa geração assume o lugar de Rodhey com uma incerteza patente a cada expressão, parecendo incrivelmente desconfortável em vários momentos do filme. Realmente uma pena, pois faz com que os dramas entre ele e Stark se tornem uma briga de criança, quando poderia ser bem mais que isso.

Favreau foi certo e seguro no que fez, mas infelizmente pouco ousado. Comparando Homem de Ferro 2 a Homem-Aranha 2 tudo isso fica bem mais patente. Raimi fez o segundo filme do teioso sabendo onde colocar os pingos nos "i", assim o dilema de Harry é aprofundado e funciona para a trama, você sabe o que Mary Jane pensa e o que ela passa, você percebe toda a loucura que levou Octavius a se tornar Octopus e por fim ser o herói, tudo sempre tendo Peter Parker como fio condutor e não estrela, ousando ao descer ainda mais seu personagem principal na lama dos dilemas de seus relacionamentos mais próximos, focando-se no homem por trás da máscara através dos coadjuvantes que fazem sua vida, não o contrário. HF 2 comete o pecado de seguir uma lógica contrária: todos vivem em função de Tony e sem ele nem mesmo uma perspectiva melhor existe, mas viver com ele é dormir em uma cama arrumada pelo mijão de armadura. Não há sugetão de novos dilemas, simplesmente repetição, assim há simplesmente uma reprise um pouco mais larga de tudo: Stark tem uma condição que o mata, por isso apresenta/evolui sua tecnologia para sustentar a própria vida (criando tudo na improvisação de peças que não estavam a seu alcance), percebe que gosta de sua assistente exatamente do mesmo jeito que a outra vez, mas agora tem beijo, seu melhor amigo ainda o ajuda, apesar de continuar brigando com ele, o vilão vem, faz uma armadura maior e cai em um clímax tão pouco empolgante quanto o do filme anterior. Onde já foi visto tudo isso? No primeiro Homem de Ferro, exatamente do mesmo jeito! Assim HF 2 é uma sequência igual a seu personagem principal, que cresceu, mas não amadureceu.

Mesmo assim, é diversão na certa. Quem acompanhou os trailers e a campanha gerada na internet sentirá falta de uma ou duas cenas que realmente ficaram marcadas durante os vídeos promocionais, o que, diga-se de passagem, é bem chato. No entanto, tudo ainda funciona porque os Vingadores se tornam cada vez mais presentes. Há referências imensas e detalhes que dão um passo largo para aquele que promete ser o maior filme de super-heróis de todos os tempos. O Nick Fury de Sammy Jackson é o elo de ligação perfeito por simplesmente aparecer de maneira pontual, nada tão distante do espião que conhecemos. Agente Coulson também está lá, bem como o escudo do Capitão América (dessa vez sem que ninguém precise "catá-lo" em algum lugar) e até o Mjolnir resolveu dar as caras. A realidade de um filme que envolve os maiores heróis da Terra faz os defeitos de HF 2 parecerem o tempero regular para um aperitivo menor só pra não se perder o apetite para o prato principal.

Apesar da possiblidade de todos lerem esta crítica com um tom negativo, espero estar longe disso. HF 2 é um ótimo filme-spandex, apresenta tudo que deve ser apresentado com certa segurança de se saber onde se está pisando, ao mesmo tempo que respeita Marvetes e fãs das franquias cinematográficas. Um filme que deve ser assistido no cinema mais de uma vez para que se perceba todos os detalhes que o levam a ser mais um capítulo da Marvel na 7ª Arte. Então, amigos, ergam as mãos e se preparem, pois falta muito pouco para se ouvir em alto e bom som...

AVENGERS ASSEMBLE!

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Um comentário:

  1. ô meu, que coisa cumpridaaaaaaa. kkkkkkk Bjos

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