6.22.2010

Heróis

O que é ser um herói? qual o real significado do heroísmo? Muitos leitores esquecem de se perguntar isso quando leem um quadrinho, principalmente um de super-heróis que usam colants vermelho, azul e branco, por isso acabam taxando esses como "vendedores" de uma marca, povo ou crença. Isso não é uma mentira. Caras como Capitão América ou Superman em grande parte são isso mesmo: símbolos de uma nação. No entanto, aquilo que eles realmente simbolizam vai além das marcas e estereótipos nacionais. Eles são bandeiras, mas de uma verdade bem superior.

Em fóruns de discussão na internet (que eu pouco participo, mas gosto de ler os comentários dos outros) e em conversas com amigos, eu me vi perdido em símbolos sem significados, em conceitos de honra diminuídos, em exaltações por figuras que derrubam as regras, em mudanças dentro do mundo do spandex que na verdade são só reflexos de uma sociedade sem heróis, de uma sociedade que idolatra um capitão Nascimento, um Zé Pequeno, um Wolverine. Anti-heróis. Vilões. Vítimas. Porque é isso que esses personagens são. Eles quebram as regras por objetivos supostamente heróicos. Eles vão além dos limites e derrubam barreiras que os verdadeiros heróis estabeleceram. Eles não são heróis.

Comprei o encadernado Capitão América: A Escolha da linha Marvel Knights, de David Morell (conhecido por muitos como o escritor de First Blood, livro que inspirou a série Rambo) e Mitch Breitweiser. Como muitos que devem ter comprado, ou ao menos visto a revista, imaginava que ali havia um punhado de mensagens de adoração ufanicamente americanas. E sim, elas estão lá, desde a demonstração dos inimigos até o salvamento final do Capitão. Mas os tons de cores de Brian Reber misturados à suja arte de Breitweiser já mostram que o quadrinho não é sobre isso. Pelo contrário. É um quadrinho sobre ser herói. Sobre o poder de inspirar.

Sempre gostei do bandeiroso e do super-cueca, apesar de ambos nunca serem meus personagens favoritos ou eu mesmo nunca ter colecionado ou acompanhado suas histórias. Gosto deles porque eles são incorruptíveis em suas significações básicas. Porque eles sabem que um herói não deve ser um punhado de super-poderes com um escudo estiloso ou uma capa esvoaçante. Eles sabem que ser herói é inspirar, mostrando que é possível viver dentro das leis e fazer o bem sem furar constituições, crenças, ideologias ou barreiras. Ser herói é fazer o certo sem esquecer que este "certo" não é seu, é de todos, é para todos e é por todos.

Lembro-me de uma imagem que me emocionou há algum tempo atrás. Uma linda ilustração de Alex Ross em que Superman carregava um enorme saco de grãos e distribuía comida aos famintos (possivelmente da Etiópia). Em minha mente aquela imagem era tão cheia de significados heroicos muito maiores do que vê-lo arremessando carros ou demolindo vilões com seus punhos de aço. Aquela imagem era de um homem abnegado que tudo o que queria era que outras pessoas também fizessem aquilo: lutassem pelo mundo, lutassem por seus desconhecidos irmãos e os acolhessem.

Hoje, lendo essa revista do selo MK eu me emociono com a história de sacrifício e esperança do heroísmo, pois essa é a verdadeira imagem da morte na capa, não o Capitão AMÉRICA em seu fim, mas de heróis como ele que estão morrendo, perdendo espaço para personagens que extrapolam esse significado e acham que surrar um punhado de bandidos é fazer o certo, quando na verdade o certo é inspirar outros a seguirem o exemplo da salvação na retidão, descobrindo os heróis dentro de si e encontrando dentro da porção menor e muitas vezes desgastante de suas rotinas as razões para fazer e multiplicar o bem. O escudo pesa, mas todos podem carregá-lo e ele é bem mais que uma estrela em círculos azul, branco e vermelho. Ele é aquela parte humana que viramos as costas: humildade.

Ok, sei que isso meio que parece papo de um nerd que odeia heróis modernos. Não é. Sou tão fã de Kick-Ass e tudo que veio de Watchmen pra cá quanto a maioria de vocês e sempre acompanhei os anti-heróis bem mais que os verdadeiros heróis. Mas reconheço, respeito e admiro o significado dos bandeirosos e acho que hoje em dia isso tem sido perdido porque não tem sido exaltado. Por isso a dificuldade de fazer um novo filme do escoteiro de aço, pois, pior que o Capitão, ele não tem uma pátria. Ele é a figura pura e seca da bondade e da retidão.

Eu fui professor. Sei que inspirei pessoas ao meu redor ou ao menos tive a chance de fazê-lo. Mas a realidade me deu um tapa tão forte que virei as costas para a carreira. Exigia sacrifícios demais de minha pessoa e dos meus sonhos. Enfim, fui egoísta. Acho que se tivesse seguido os exemplos dos supers desse artigo eu aceitasse o peso em minhas costas, mas poderia ajudar a criar uma perspectiva pelo menos um pouco melhor para o futuro, garantindo que opiniões e atitudes "heroicas" assim não morressem, mas tivessem uma chance mínima de se multiplicar. Talvez eu ainda consiga isso escrevendo.

Enfim, minha mensagem a vocês. Termino com um "causo" do Capitão. Quando na Dinastia M, logo depois da queda dos Vingadores causada por Wanda, a Feiticeira Escarlate, Wolverine disse que o melhor a se fazer era matar a menina. Capitão disse que não, que havia outra saída. Logan insistiu dizendo que não existia nenhuma ali. Rogers, com um semblante decidido e verdadeiro, talvez mesmo seguro em um paradoxo que é o resultado de todas as guerras que viveu, insistiu peremptoriamente a ponto de calar o carcaju: "SEMPRE há uma outra saída".

Bem, quem sabe exista uma saída para todos nós como nação mundial, humanos e irmãos. E, como pais, mestres e divulgadores de opiniões, crenças, ideias e pensamentos, possamos ser exemplos melhores.

Até a próxima semana, galera.

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