6.07.2010

IDEIAS DE ROTEIROS QUE NUNCA SERÃO ESCRITOS - TRINDADES

Quando duas editoras grandes como Marvel e DC possuem personagens que são as bases de suas existências, comparações são evidentes e irrefreáveis. Quando esses personagens são as figuras centrais e bases fortes do principal grupo de cada editora, então as proximidades são quase impossíveis de não serem identificadas. Isso porque o universo do spandex é assim como o mundo real, por mais diferentes que sejam os seres, eles acabam sendo bem parecidos. Bem, pra quem ainda não sacou estou falando da LJA e dos Vingadores e de seus fundadores e líderes.

Os dois grupos passaram (e ainda passam) por várias modificações, mas suas trindades não mudam. A relembrar: nos Vingadores, Capitão América, Homem de Ferro e Thor, e na Liga, Superman, Batman e Mulher Maravilha. Em cada um de seus universos eles são a égide básica de um super-herói: poderes e origens, maneiras de encarar a justiça de uma maneira geral, postura, opiniões, etc; e também são incrivelmente iguais em suas formas: Capitão América e Superman são os símbolos, os exemplos, a imortalidade do signifcado de ser um herói, eles carregam a responsabilidade; Batman e Homem de Ferro são os heróis ricaços forjados pelas tragédias, a de Bruce bem mais traumatizante que a de Stark, são dois gênios inventivos e sociais, destacando-se sempre mais pelo intelecto que pela força bruta; Thor e Mulher Maravilha são os estranhos em terras estranhas, os mágicos mitos vivos e imortais que amam os humanos e as lições que aprendem e ensinam a eles, além de possuírem o clássico pavio curto de divindades e semi-divindades.

Apesar de tudo, eles são bem diferentes: Kal-El protege um mundo que ele não quer ver morrer como ocorreu com o seu - apesar dele não ter presenciado essa morte - tenta levar a esperança quando ele mesmo não sabe lá se acredita tanto assim nela, dessa forma se torna reticente quanto a ser líder; Steve Rogers (pra mim ele é o Capitão e não Bucky), por sua vez, viu e combateu a morte e a destruição e foi parte importante no processo de impedir que esta se tornasse ainda pior - ele carrega uma esperança que para ele é real e acredita piamente na diferença de um, por isso carrega com orgulho e experiência o posto de líder.

Wayne e Stark são os dois lados da mesma moeda. De certa forma, os dois poderiam ter se enveredado por caminhos semelhantes. Ambos possuem um tom ditador: Batman prega o medo, Homem de Ferro a superioridade. Seus meios, no entanto, são diferentes. Bruce aceita a tecnologia, sendo ele mesmo um dos a desenvolver novas formas desta, mas seu corpo e o aprimoramento deste, bem como de sua mente, são sua prioridade. Ele acredita mais em si mesmo que em suas peças. Stark, por sua vez, quer que seu corpo evolua a medida que a tecnologia do Homem de Ferro se torne algo além do 3.0 - se tornando ele mesmo a máquina e vice-versa, como foi em Extremis. Bruce e Batman são pessoas diferentes e, no final, o último prevalece. Tony é o Homem de Ferro e ele não quer desvincular um do outro, mas uni-los cada vez mais em um só. Wayne anda nas sombras, Stark na luz dos holofotes.

Diana e Thor são casos a parte. Pouco se pode dizer de suas diferenças que não caiam em semelhanças. Diana é uma amazona com poder de semi-deusa enquanto Thor é um deus - o que, comparando o nível de poder das duas editoras, deixa-os quase em pé de igualdade - a diferença é que o nórdico parece ter mais "recursos". No entanto, e talvez eu esteja até errado quanto a isso, Thor é mais passivo a coexistência com os humanos, enquanto a Mulher Maravilha, por mais diplomática que seja, está mais afeita aquele "ensinamento" rígido, nem que seja com alguns "tapinhas" de vez em quando. Thor acredita que os humanos precisam de um protetor, Diana tem certeza de que eles necessitam de um líder.

Uma vez tudo isso dito, porque ao invés de juntar toda a ruma de heróis da Liga ou dos Vingadores (como foi o encontro deles fanaticamente feito por Kurt Busiek e George Pérez) em uma coletânea confusa e bagunçada de sopapos e vilões de planos ralos, se fixar nesses três e criar histórias especiais que retratem suas diferenças e semelhanças de caráter e posicionamento?

Minha opinião é um conjunto de três mini-séries intituladas "Trinities", escritas e desenhadas por caras que entedam bem os personagens. Na minha cabeça a coisa sairia assim:

Trinities 1 - Symbols: Após um confronto espacial para proteger um planeta de uma raça ditadora, Superman é arremessado em um buraco negro e vai parar na 2º Guerra da Marvel. Lá ele conhece o combatente Steve Rogers e seu alter-ego ainda pouco bandeiroso. Super acompanha Steve contra um grupo de terroristas da Hidra ligados a nazistas, mas acha que a ação do Capitão é pouco eficiente, pois ele é simplesmente mais um soldado anabolizado, e o Capitão vê Super como uma grande força sem inteligência ou estratégia, baseando-se em seu poder somente, não naqueles que estão com ele. Assim, Super mostra ao jovem Steve como se tornar um símbolo pelo exemplo e o Capitão mostra ao Kryptoniano como se tornar um líder através do peso da responsabilidade sobre os comandados, juntando as diferenças de todos para formar um grupo mais coeso (coisa que na Liga é mais comum ao morcego). Poderia ser escrita por Mark Millar e desenhada por Brian Hitch, ambos sabem trabalhar com seres grandiosos e Millar entende bem a diferença entre os dois heróis.

Trinities 2 - Minds: talvez a melhor forma de fazer essa seja considerando que Batman e Homem de Ferro estão no mesmo universo, o que me desagrada, mas não tive ideia melhor. Um estranho assassinato de um general do exército leva o Morcego a investigar a ligação do morto com as indústrias Stark. A cada passo ele descobre algo sobre o passado de Tony ao mesmo tempo que é confrontado pelos fantasmas pessoais de seu pai e das indústrias Wayne, que também já fabricaram armas, e pelo guarda-costas dourado do ricaço Marvel sempre um passo a sua frente, como um fantasma da evolução tecnológica. A resolução do mistério traria uma luz aos dois heróis: as decisões que tomaram, as saídas que escolheram. Bruce percebe o vazio de sua jornada porque simplesmente ela não chegará ao fim por causa de tipos como Stark, mesmo ele tendo se redimido, e Tony vê que contribuiu mais do que deveria para a criação de tipos como Batman, vigilantes foras-da-lei e sombrios, não importa o quanto ele se esforce depois pra corrigir isso. Sinto falta de nomes no roteiro, talvez Grant Morrisson, apesar de eu preferir os argumentos inteligentes e tecnistas de Warren Ellis. Eu ficaria com os desenhos de Adi Granov, por conta de uma possível ambientação mais densa, mas seria interessante ter alguém que possa trabalhar com um tom policial nos desenhos.


Trinities 3 - Deities: Numa luta contra gigantes e magos, Loki aproveita um instante de descuido e envia Thor para um outro plano. Neste novo plano, o deus do Trovão cai em meio a uma grande cidade. Quando ele olha para trás, monstros avançam em sua direção. Ao se erguer para proteger-se, a Mulher Maravilha aparece e impede que os monstros o ataquem. Mesmo confuso, Thor fica ao lado da amazona de brincos de estrela. Quando finalmente eles conseguem expulsar, mesmo que temporariamente, as criaturas, Diana apresenta-se ao deus do Trovão, percebendo sua nobreza, divindade e ajuda. Ele faz o mesmo e os dois começam a andar pela cidade, reconhecendo-se como seres que estão longe de casa. Comentam sobre família, amigos, aventuras - cenas apoiadas em flashbacks da cronologia de ambos. Tenho a idéia de essa ser uma edição bem bonita que mostra a humanidade pelos olhos de dois deuses que a amam, a protegem e a criticam - meio que um arremate sobre os problemas humanos vistos pelos olhos de deuses. Mesmo assim, é uma HQ de super-herois, então há a necessidade de uns quebras. Para isso escolho um enredo meio ralo (aceito sugestões): enquanto a conversa das divindades ocorre, em outro local Ares está reorganizando seus monstros quando um esperto Loki aparece para propor um acordo: o deus da guerra ir para outro plano (Marvel), onde os seres serviriam como um bom exército para ele retornar ao mundo DC e dominá-lo de vez. Em troca, Loki quer que Ares prenda Thor naquele mundo para que o próprio deus da trapaça não tenha nenhum empecilho para se tornar senhor de Asgard. Meio desconfiado, Ares aceita a lábia de Loki e ataca o deus do trovão. O resto é blockbuster: as divindades trocam "trovoonicos" socos, algumas ilhas e prédios são arrancados de seus lugares, Ares percebe que Loki queria era trancar todo mundo no lado da Distinta Concorrência, então os dois se pegam, Diana e Thor ajudam o Trapaceiro a voltar para casa com as partes necessárias do corpo e de quebra o próprio Trovão e fim. Colocaria um nome legal para escrever isso: Michael Strackzinsky e os desenhos do Coipel que são lindos para grandes e poderosos seres e sua dinâmica e storytelling em cenas de ação grandiosas é genial.

Bem, essa é minha proposta. Quem sabe um olheiro não decide que ela é legal e me encomenda a idéia?

Um comentário:

  1. Oi, Luís. Bons argumentos. Se eu fosse o engravatado da Marvel ou DC chamava vc para escrever as três séries e escalava Geraldo Borges para desenhar as 3 :) Eu faria uma pequena alteração no formato transformando as três miniséries em uma série de 3 edições:) Relançada num segundo momento com uma capa do Alex Ross:)

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