6.17.2010

Os Personagens e o Mundo Criativo ou Como Desenvolver Personagens Atraentes

Muitos não vão concordar comigo, mas acredito que uma boa obra se resume em um conceito simples: ótimos personagens.

Sério. Tudo o que se faz hoje em dia, principalmente pra grande massa, é um clichê-mais-do-mesmo-repetido (com toda a força da redundância). Não por não haver títulos originais (ou a existência da Pixar é um paradoxo?), mas é que produtores e grandes estúdios, ou editoras, ou mesmo escritores, sabem que o que é conhecido sempre é mais fácil de entender e, principalmente, vender: final feliz? 10.000.000 cópias vendidas! Uma jornada pela procura de alguém amado? O triplo da bilheteria! Um grupo multifacetado que se une para enfrentar uma ameaça comum e assim se descobrem amigos e capazes de trabalhar juntos? Bonequinhos na certa! Um menino e seu bichinho? Vamos vender lancheiras e lençóis de cama! Esses e mais uma centena de enredos são completamente previsíveis, comuns, cheios de fórmulas certas para sucessos rápidos, conseguem arrecadar milhões em bilheterias ou impressos e, convenhamos, uma parte deles até convence crítica e público que são realmente bons (e costumam ser mesmo). E como se consegue tudo isso com "formas" tão batidas? Personagens cativantes.

Essa foi a fórmula do gordo e antissocial Shreck, do nerd Peter Parker, dos rejeitados Mutantes-X, do traumático Bruce Wayne, do ciumento cowboy Woody, do inquieto morto Brás Cubas e de tantos outros. Uma boa história leva à apreciação da obra, mas personagens cativantes elevam a obra à imortalidade. Por causa disso Gregor Samsa sempre será associado a uma barata, não importa o quanto de sua obra original tenha sido esquecida; o amaldiçoado Darth Vader será o alfa e o ômega de Star Wars, HAL vai ter mais homenagens que qualquer outra coisa de 2001: Uma Odisseia no Espaço e Alex será eternamente a verdadeira Laranja Mecânica.

Personagens que conseguem fazer com que o público se identifique, reconhecendo nas atitudes e dilemas do ser de ficção as suas próprias, dá corpo e consistência a um enredo, colocando nele o aceitável pé de realidade, não importa o quão fantástica seja a trama. No entanto, onde se encontram esses personagens? Em que porção do cérebro humano essas criaturas estão? Em nenhuma e ao mesmo tempo por ela toda. Afinal, as pessoas ao nosso redor, e nós mesmos, são os verdadeiros protagonistas das grandes histórias. Assim, transmito algumas dicas de concepção de personagens, antes ensinadas a mim, para vocês.

1. Retire seus exemplos das pessoas ao seu redor: levando em conta minha abordagem para criação de personagens, os melhores exemplos de os desenvolverem serão, com toda certeza, as pessoas mais próximas. Se você tem uma mãe que é o cúmulo da organização e um pai que é o desleixado da casa, a maneira de eles lidarem juntos com as situações do dia a dia pode ser o tempero que faltava para seu grupo de super-heróis. Se por acaso você tem uma amiga que é uma pessoa que faz tudo pelos outros, mas esquece um pouco de si mesma, talvez seja o problemático coadjuvante ou antagonista de seu conto urbano que tem como personagem principal um carinha "nem aí" pra vida. Atenha-se a esses detalhes e saiba explorá-los em seus textos, quem sabe até mesmo organizando-os, construindo perfis que podem ser revisitados e melhorados sempre;

2. Seja um bom observador: não se tira alguma coisa do nada, assim, se você quer montar um personagem crível seja um bom "catalogador" de pessoas: manias, costumes, "noias", formas de andar, vestir, gostos, atitudes, pensamentos e, principalmente, a maneira como fazem para manter todos esses aspectos juntos em um único ser. Esse conselho meio que complementa o anterior;

3. Misture tudo: por que um personagem inspirado em sua irmã, que é extrovertida e expansiva, não pode ter um defeito de seu primo, que é todo medroso e até meio tímido? Ela poderia usar seu extrovertismo para, na verdade, esconder uma timidez e fraqueza de manter relacionamentos longos, sempre se desinteressando cedo demais pelos que conquista. Uma vez com o perfil traçado, misture características e crie novos, dito isso vamos à última dica;

4. Desafie seus perfis: aqui é um incremento para o enredo em si. Todas as dicas apresentadas até agora são bases que ajudam a dar ideias para desenvolver novos personagens que possam ser interessantes e atraentes aos leitores, esta quarta é uma última para você que montou os personagens, mas não sabe bem como/onde/quando encaixá-los (o que não era lá bem o objetivo da matéria, mas não faz nenhum mal, certo?). É interessante quando os "perfis" encaram situações que os colocam em posição de incerteza ou contradição, forçando-os a tomar uma decisão que vá de encontro às suas características, ideias ou crenças. Algo assim os forçaria a seguir (no mínimo) um desses caminhos: fixar-se no que são e assim tentar resolver suas questões apoiando-se nisso ou mudar drasticamente, dando uma reviravolta na forma de ver aquele "estereótipo". Essas saídas podem ser amplamente exploradas e algumas outras podem surgir no momento em que você constrói sua história, o importante é saber que o trabalho é divertido para você ao mesmo tempo que possa ser divertido para outros.

Bem, essa é uma dica minha. Lógico que ela não é uma verdade universal, mas mais uma entre tantas de tantos lugares e que tenta, como todas, incentivar e melhorar a prática da criação seja de quadrinhos, roteiros para mídias audiovisuais ou livros. Espero que a apreciem e me digam se deu certo quando usá-la ou não.

Até a próxima semana.

MOVIMENTO CRIAÇÃO PARA TODOS!

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