7.09.2010

Luís Carlos vs Scott Pilgrim

Ok, vou deixar de ser hipócrita e assumir logo de uma vez: adoro essas coisas indies. Certo, menos as músicas, mas todo esse material moderninho cheio de referências pops (que muitas vezes ninguém conhece) em bobinhos contextos românticos de relacionamentos metidos a reais, mas que na verdade são um reflexo simplista daquilo que consideramos como o que vivemos, enfim, toda essa m&#%@ é bem legal. Em meio a esse contexto de cena independente e vinda de lugares inesperados que resolvi comprar Scott Pilgrim contra o Mundo (tem um amigo que jura de pé junto que SP não é indie, mas, falemos a verdade, quem leu a HQ pode garantir que a personagem principal do filme - indie -500 Dias com Ela teria o comic em sua prateleira). Enfim, o negócio foi levado por uma quantia que não costumeiramente dou a um quadrinho que não conheço, então o bagulho deveria ser muito bom mesmo, ou eu iria me arrepender seriamente pelo dinheiro gasto.

A primeira coisa que tenho a dizer sobre é que Scott Pilgrim é um canalha. Um grande canalha mesmo. Nada naquelas 368 páginas de arte sequencial me dizem o contrário. O personagem é um grande, sacana e terrível canalha. Ele é quase uma versão imaturamente mais nova e lisa do Stark de Downey Jr. O moleque é muito canalha. Talvez por isso tenha conseguido um público tão cativo como Edgar Wright, diretor da película inspirada no impresso, entre tantos de público e crítica. Ele é um personagem tão seguramente real, cheio de defeitos e divertido, que parece que você pode olhar para um de seus amigos ao ler a revista e dizer: "Ei, esse cara é você". Essa precisão na criação do personagem é tão forte que toda a turma de SPvsM (vou colocar em siglas e que se dane quem me achar preguiçoso) parece com pessoas de verdade, em situações reais, com opiniões, posturas, manias e atitudes reais... ou nem tanto assim.

Brian O'Malley, o autor, já seria considerado um bom escritor por este que vos escreve por ter construído os personagens da HQ. Todos adolescentemente divertidos e, apesar de serem bem centrados na juventude de hoje, acho que possuem pontos de interseção com qualquer adolescente de qualquer época (ok, talvez só dos anos 1980... 1990 pra cá), principalmente quanto a romance, amigos, sonhos, comodismos, relacionamentos etc. No entanto, O'Malley sabe no que está se metendo e fazer um quadrinho apoiado simplesmente nisso é quase loucura. Qual o nerd que vai se assumir tão bobinho ou canalha sem um sabre de luz na mão? (ok, acho q esse comentário não teve nada a ver). Assim, os tais elementos pops do começo da matéria estão por lá. Muito bem estabelecidos dentro de um mundo semelhante a um arcade de 16 a 32bits. Fãs deThe King of Fighters, Darkstalkers, Street Fighters, Metal Slug e outros jogos do gênero vão adorar muitos momentos da história. Não há uma aparente explicação para combos, hits, magias, portas e passagens extradimensionais, itens que surgem do nada e saltos que desafiam a gravidade, tudo é jogado ao leitor - como em uma boa fantasia - e cabe a ele aceitar aquela loucura ou desviar disso e se concentrar nos relacionamentos de Scott e amigos.

Em termos quadrinísticos, Brian sabe usar a página. Em um estilo cuspidamente mangá e moderno (estabelecendo uma identidade bem uniforme e específica a seus desenhos), ele sabe aproveitar os quadros (estando eles lá ou não), colocando consistência e velocidade ao seustorytelling, sem se tornar resumido ou excessivamente preocupado com detalhes irrelevantes. Novamente aí fica a marca de um bom criador de personagens. Tudo funciona dentro da narrativa a fim de englobar e explorar os personagens sem esquecer quem são os protagonistas. Fora as inclusões de elementos não necessariamente narrativos, como partituras e receitas de pratos, conceitos extralinguísticos que exploram a metalinguagem, criando uma conversa meio descompromissada com o leitor, deixando-o à vontade nos cômodos e ambientes da história e meio que fazendo-o parte do grupo de Scott.

Se parar pra pensar, SPvsM não é necessariamente um quadrinho, mas uma mídia impressa bem "única" assim por dizer, por conta de sua narrativa bastante interacional. Muitos autores de HQs de tempos pretéritos e artistas que ensinam sobre traço, narrativa, etc torceriam um pouco o nariz para esse trabalho (ora, porque eu gastaria uma página com o lamento de Scott acerca de seu cabelo grande? No que isso ajuda na história?), mas a verdade é que o comic retrata bem o tipo de juventude que lê quadrinhos hoje em dia e a linguagem deste. Incrível, ao meu ver, ele ser lançado em impresso e preto em branco. Não que isso o faça perder sua qualidade e estilo, muito pelo contrário, mas SP possui uma cara de quadrinho para internet, que deveria ser colorido e adicionado de sons e maiores opções de interação. Ou talvez eu esteja falando besteira.

Assim, vejo Scott Pilgrim contra o Mundo como um quadrinho ícone. Um quadrinho canadense, com traços japoneses e narrativa indie americana. Uma pequena salada, daquelas bem lights mesmo. Nada que mereça ganhar prêmios ou entrar na sua lista de as "100 mais legais", mas com certeza um quadrinho que define esses novos ares do "fazer-quadrinho", que possuem uma "aura" divertidamente interativa, independente, bobinha, real e cheia de fantasia contemporânea.

Apesar de tudo, fica um conselho: procure um amigo que comprou e peça emprestado, leia em uma tarde, ou noite, em um dia de domingo quando toda a loucura da semana passou e sinta a alma levinha dessa HQ, que logo virará filme com Michael Cera como o protagonista canalha, se depois disso você decidir que gostaria de comprar a revista, espere mais um mês ou dois para que seu preço diminua e tenha-a sua em casa, não faça como eu fiz e compre imediatamente agora quando a revista está super-valorizada. E quando a edição 2 sair, pode me pedir pra ler que eu empresto.

Quer fazer seu bonequinho Pilgrim como o da imagem de exibição do post? Então, clique aqui.

3 comentários:

  1. Achei muito bom o seu texto, Luis. Realmente o Scott Pilgrim é a cara dos anos 2000, fruto de tanta informação mangá-rock-web-game. Espero que traga muitos leitores para o mundo dos quadrinhos, pois é uma obra pop com cara de underground. É um quadrinho anti-caretice à toda prova.
    Eu particularmente acho uma bosta. Mas isso não me impede de reconhecer a importancia midiática e mercadológica do personagem. Novamente, parabéns pelo belo texto.

    ResponderExcluir
  2. Fala Luis..... eh o Kuhn... merão o texto tah iraduh... Tanto q ao terminar de ler fui imediatamente ler o quadrinho... razão pela qual me lembra de te matar... SEU EMOOOOOOOO.... rs... Indie eh EMO)... No meu mais sincero resumo SPvsW eh uma mistura de Malhação com One Piece... devo dizer que discordo com vc.... não axo o traço pra lá de inovador.... e o persongem por mais "Normal" que possa se apresentar esse personagem já apareceu na Malhação diversas vezes hein... rsrsrsrsrs... mas como o colega acima devo admitir a influencia do quadrinho SP para a atual geração de leitores e uma boa descontração pra mais saudosista geração de leitores de HQ q devem estar meio estressados com crises, guerras, cercos, invasões, noites densas e dias claros...rsrsrs... forte abraço!!!!

    ResponderExcluir
  3. É, JJ, devo confessar que comprei a revista e até quase gostei. Mesmo assim comprarei as outras, dessa vez sem tanta pressa, e verei o filme no cinema. no final das contas o quadrinho é bem divertidinho (a la "Malhação" como falou Felipe), mas realmente não entra na minha lista de 100 e está longe de ser um "clássico".

    Kuhn, EMO não, indie, que é um emo menos rosca. hahahahaha... Desculpa ter feito vc ler a HQ com meu texto. Realmente mereço a morte! hahahahahaha. Na próxima indico uma melhor, ou veja minha matéria sobre um quadrinho especial do Capitão e outro do Aranha, acho q vc vai preferir!

    Valeu, galera, pelos comentários. Há um tempão q não via ninguém aqui pelo Z&A. Achei q o povo tinha desistido de mim! E voltem sempre. Tem sempre uma novidade toda semana!

    ResponderExcluir