8.11.2010

Entrevista com Geraldo Borges, do Ceará para o EUA


Olá, caros leitores!

Mais uma entrevista para vocês. Dessa vez o artista é um ilustre cara que já trabalhou para grandes editoras americanas e recentemente terminou um trabalho para a DC Comics. Tem uma arte detalhista e bem cuidada, prova de responsabilidade e respeito aos fãs. Tive o prazer de ter esse cara como primeiro divulgador deste humilde blog e constante visitante, por esse e vários outros motivos, o link de seu blog estará sempre aqui. Cearense, desenhista, uma cara super chapa e pai de três mocinhas, para os que já conhecem e para aqueles que ainda não, Geraldo Borges no Z&A, galera.

1. Olá, Geraldo, é muito bom tê-lo aqui pelo Z&A. Seja bem-vindo. Como primeira pergunta vou ser bem clichê e gostaria de saber qual foi seu primeiro contato com quadrinhos? Alguém levou um até você ou sozinho olhou pra uma obra numa banca e disse: "deixa eu ver aqui..."? E quando isso foi determinante quanto ao rumos que tomou até chegar onde você está?

Não lembro ao certo qual foi o primeiro quadrinho com o qual entrei em contato. Provavelmente, Mônica, Disney, Trapalhões, Dartagnan (uma adaptação de um desenho animado)... mas recordo que o ato de colecionar veio na época de Crise e Secret Wars, logo depois com o Novo Universo Marvel. Nesse ponto virei realmente um fã de colecionar HQs.

2. Qual sua melhor lembrança como leitor de quadrinhos? E como artista profissional na área? Que gêneros você mais gosta de ler/assistir/colecionar?

Uma coisa que sinto falta hoje é de não ter mais quadrinhos nas bancas comuns; quando era criança sempre saía de casa na expectativa se a minha HQ predileta havia chegado na banca, de imaginar como a edição continuaria a história anterior, essa é uma boa lembrança. Como profissional, uma grande lembrança foi quando recebi o convite pra desenhar uma edição da Mulher Maravilha da DC Comics; estava de férias com a minha esposa e filhas em Natal quando veio essa notícia... Além das férias extremamente divertidas, receber essa notícia deu mais alegria a elas. Sobre os gêneros, fantasia e ficção (incluindo os super-heróis) são os meus gêneros prediletos nas HQs.

3. Há pouco você terminou uma minissérie pra DC Comics, Rise of Arsenal, e nela você desenhou muitos personagens clássicos da editora, como Batman (com uma incrível cena de luta), Arqueiro Verde, antes você já tinha feito trabalhos com Mulher Maravilha e chegou a desenhar Galactus em uma HQ do Nova. Como foi desenhar esses mitos? O que a "criança" Geraldo sentiu ao ter esses trabalhos em mãos?

Na verdade, esse é o barato de trabalhar com quadrinhos: é a realização de um sonho de criança, pois sempre desenhei e contei histórias; fazer isso como profissão é algo extremamente prazeroso e mais ainda quando o trabalho envolve personagens que fizeram parte da sua vida e autores que lia como fã de quadrinhos e que agora me vejo como colega de trabalho (como foi o caso do arte-finalista Scott Hanna, que trabalhou comigo em R.E.B.E.L.S.).

4. Alguns artistas, depois de um tempo no mainstream, costumam ter ojeriza em voltar a trabalhar com as grandes editoras alegando, entre tantas coisas, desrespeito destas com seus trabalhos. Como brasileiro e cearense, imagino que tenha sido difícil para você chegar até Marvel e DC. Fala um pouco de como é essa relação para você, eles realmente se mostram meio "frios", preconceituosos ou "mal-educados"? Tem algum trabalho que você tenha desistido ou negado a fazer por conta de algum desrespeito por parte dos contratantes?

Não tenho nada a reclamar do relacionamento que tive com as editoras de um modo geral. Principalmente nas grandes editoras, tive um bom retorno dos editores e artistas envolvidos, uns mais, outros menos. Na DC minha experiência foi mais intensa no relacionamento com os profissionais, entrando em contato direto com o escritor, finalistas e editores. E as grandes editoras normalmente nos pagam com regularidade, ponto que as editoras menores sempre têm dificuldade de honrar - mas nunca levei nenhum calote :^) - E fazer parte de uma agência como a Impacto, que tem experiência nesse mercado, facilitou ainda mais essa relação com as editoras.

5. Há um tempo você integrou o quadro de profissionais que criaram o Curso Prático de Histórias em Quadrinhos online da UNIFOR e, atualmente, muitos autores e desenhistas, como Adam Hughes, dão "aulas online", descrevendo e ensinando a prática em vídeos curtos para YouTube, em "blogs-apostilas" e outras mídias digitais. Como é produzir trabalhos assim e o que você acha desse movimento? Você acha que tem os resultados esperados?

Acho que todo esse movimento tem o intuito de disseminar o conhecimento e isso é algo muito positivo. Quem trabalha com quadrinhos há um bom tempo sabe o quanto era difícil encontrar bibliografia ou cursos sobre o assunto e hoje esse panorama mudou, com um auxílio enorme da internet, que nos conectou ao mundo e possibilitou um aumento na troca de experiências. No meu caso específico com o curso de quadrinhos da UNIFOR, foi muito gratificante poder utilizar todas as ferramentas virtuais que a educação a distância oferece, além da oportunidade de conhecer grandes artistas (uma grande parte já profissionais na área de ilustração e design) e tê-los como alunos. Isso foi fantástico! Em breve reuniremos todas as HQs produzidas no curso e faremos o lançamento dessa coletânea.

6. Fora isso, você tem experiência com aulas através de cursos que já ministrou com Daniel Brandão e JJ Marreiro. Como é dar aulas de desenho e narrativa gráfica (dessa vez ao vivo haha)? Que histórias você viveu que mostram que esse trabalho foi gratificante (ou não)?

Além dos cursos com o JJ e o Daniel, também fui professor de desenho e quadrinhos do Centro Cultural Cláudio Santoro, em Manaus-AM, e sou atualmente professor de Animação e Infografia do Curso de Graduação de Audiovisual e Novas Mídias da UNIFOR. Por mais que a internet hoje encurte distâncias, nada substitui o contato direto, de você estar presente, adaptar uma mesma aula de acordo com as pessoas que lá estão, e poder trocar experiências da forma mais intensa possível, com esse contato vida-a-vida. Muitos dos meus alunos hoje trabalham com quadrinhos, são grandes profissionais; mas mesmo os que não seguiram na área, sempre percebi que o curso ajudou em algum aspecto, e isso realmente é gratificante.

7. Falando um pouco sobre a prática de se produzir quadrinhos. O que é mais difícil no desenvolvimento de uma página: narrativa, enquadramentos, ajuste do roteiro ao desenho? Houve algum trabalho que você demorou mais que o esperado para resolver por ter se deparado com problemas desse tipo? Conta o caso pra gente e como você o "solucionou".

Na verdade, o grande desafio é escolher a melhor maneira e a mais interessante de contar uma história, pois existem infinitas formas de fazê-lo; e dentro das HQs existem vários aspectos a serem levados em consideração nessa hora: as expressões faciais e gestuais, os enquadramentos, as cenas de impacto (que tem que ser bem dosadas de acordo com o ritmo e o clima da história), as viradas de páginas (algo que só os quadrinhos possuem), a relação espaço x ritmo/tempo... Não lembro de ter um trabalho que tenha demorado mais por conta de dificuldades, mas no trabalho que fiz para o R.E.B.E.L.S., o grande desafio era entender toda a história do grupo até então pra poder desenhar essa única edição; pra isso, li todas as 11 primeiras edições que o editor me enviou e tive que aprender a desenhar cerca de 30 personagens que nunca havia desenhado na vida, com o grande cuidado com a continuidade, tentando não errar seus uniformes e características. Sobre isso, tem um fato curioso: um dos personagens, Starro, tinha várias referências que o editor havia enviado e todas, mas TODAS elas apresentavam o Starro sempre com uniformes diferentes, me deixando na dúvida sobre qual versão escolher. A minha opção foi fazer um mix de todas as diferentes versões que eu tinha e fazer uma versão própria :) Em JL: the Rise of Arsenal, a grande dificuldade foi desenhar a morte da filha de Roy Harper, uma cena muito forte que foi realmente complicada devido a grande carga emocional.

8. Seu estilo tem um tom clássico, remetendo a quadrinhos de Byrne, Romita Sr, entre tantos daquela época, mesmo assim com um traço bem mais forte e realista, cinematograficamente moderno. Você se usa de referências como filmes, fotos, pessoas de sua casa, amigos ou você prefere ir atrás de suas referências dentro da área? Que materiais você gosta de utilizar nos seus desenhos (lápis, lapiseira, papel, borracha, etc)?

Uso os dois tipos de referência (fotos feitas mim – com a ajuda da minha família – ou de internet e filmes ou ilustrações). Quando necessário, também faço montagens a exemplo do Mike Deodato (não com a mesma maestria, diga-se de passagem) e em cima das montagens (que imprimo depois), faço meu esboço prévio pra depois passar a limpo na mesa de luz pro papel final. Hoje estou usando muito um software 3D chamado Sketchup (que os artistas da Marvel usam com bastante frequência) pra ajudar a compor os cenários das minhas páginas e fazer as montagens de layout.

9. Falando de quadrinhos atuais. O que você tem achado do mercado em termos de histórias e publicidade (megassagas que reescrevem tudo o tempo todo, anéis de plástico, capas rasgadas, heróis se tornando vilões)? Você acha que há um movimento para tornar os heróis excessivamente reais a ponto de descaracterizarem seus significados básicos ou isso é balela de leitores mais xiitas e os quadrinhos estão seguindo uma evolução natural de seus estilos?

Na verdade, Watchmen e Cavaleiro das Trevas definiram o rumo que os quadrinhos tomaram hoje, deixando de lado o maniqueísmo e fazendo pairar um lado sombrio nas sempre coloridas aventuras de super-heróis. O problema é que só existe um Alan Moore (que praticamente abandonou os quadrinhos) e um Frank Miller (quer dizer, não existe mais “aquele” Frank Miller). Essa relação quadrinhos-cinema tão estreita (que é ótima, afinal valorizou a nona arte como nunca antes visto) provoca um efeito colateral em algumas HQs: a busca por “conceitos” que possam ser convertidos em filmes e merchandising; isso faz com que se esqueçam muitas vezes do objetivo principal de uma HQ, que é contar boas histórias. Mas ainda bem, existem artistas que ainda mantém isso como foco principal, pra nosso deleite como fãs de bons quadrinhos.

10. Uma pergunta que sempre faço: o que você está lendo/assistindo/colecionando atualmente em termos de quadrinhos, livros, revistas, vídeos, séries? E o que você acha indispensável de ler para qualquer pessoa que deseja trabalhar com quadrinhos?

Atualmente estou lendo o O Livro do Cemitério, do Neil Gaiman, um livro sobre roteiro do Syd Field e um outro sobre animação, e relendo aos poucos um livro chamado Da Fera a Loira, da Marina Warner – psicanálise sobre contos de fada. De quadrinhos, li recentemente a série Predadores, desenhada pelo Enrico Marini (recomendo) e acompanho alguns títulos Marvel/DC. De séries de TV, as únicas que acompanho mesmo são Big Bang Theory e CSI (minha esposa é fã, assisto sempre com ela). Quem deseja trabalhar com quadrinhos deve sem dúvida, dentre outras coisas, conhecer a obra do mestre Will Eisner, não só os seus quadrinhos, mas como também os livros didáticos que ele deixou, além de vários diálogos com outros grandes artistas (Shop Talk). Hoje existe uma bibliografia muito rica pra quem quer se aprofundar na arte sequencial, além da internet em si.

11. Geraldo, a derradeira pergunta: quais seus próximos projetos? E dá uma palavrinha para a galera que tá começando a desenhar e quer alcançar o mercado americano como você.

Agora que conclui a minissérie do Arsenal, estou aguardando meu próximo trabalho - que não sei ao certo qual é - dos EUA. Tenho algumas colaborações pendentes com artistas nacionais que preciso concluir e finalmente um projeto de um álbum que vou produzir em parceria com um roteirista pro mercado nacional a princípio. Espero que ele fique pronto esse ano ainda ou no máximo ano que vem. Além disso, no segundo semestre de 2010, devo lançar pela UNIFOR mais uma turma do Curso de Histórias em Quadrinhos Online. Pra quem está começando, a palavra é determinação! Nunca desistir se realmente tem a certeza do que quer fazer. Estudar bastante, praticar bastante e, caso queira ouvir algum conselho de um profissional da área, escute-o com bastante atenção (mesmo que a priori você não concorde com o comentário dele). E principalmente ter paciência, pois nunca começamos nos comics desenhando o Superman, nem trabalhando numa editora conhecida como Marvel/DC. Até chegar lá, há uma estrada importante a ser percorrida e que vai lhe fazer chegar e ficar onde você quer.

Cara, novamente, muitíssimo obrigado mesmo por conceder essa entrevista. Eu e alguns amigos admiramos muito seu trabalho, colocando-o entre os mais importantes artistas que estão aqui. Sei de seu começo com o Capitão Rapadura. Cheguei a ter uma revista com desenhos seus dessa época, inclusive emulei sua arte, mas que se perdeu em meio às várias mudanças que tive na vida. É realmente um prazer tê-lo como um conhecido eletrônico e devo dizer que me admiro por sua simpatia e humildade, muitas vezes incomum para autores, mas relativamente normal para desenhistas e artistas cearenses. Desculpe qualquer falta que por ventura sem querer cometi como fã empolgado. Espero ver mais do seu trabalho e conhecê-lo melhor com o tempo, mas, por enquanto, me sinto feliz por seu tempo concedido a este blogger.

Eu que agradeço mesmo sua paciência por esperar minhas respostas, por acompanhar meu trabalho e espero poder estarmos juntos mais uma vez em breve!! Um abraço!!

Querem mais do Geraldo? Visitem seu blog em nossa barra de links e vejam seu perfil como artista Impacto!

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