8.30.2010

Review Apneico: Tempestade Cerebral

Na época do KIMOTA! Podcast, um dia surgiu a ideia de se fazer resenhas sobre zines. A razão era simplesmente divulgar a produção nacional, seja de quadrinhos on-line ou impressos. Fizemos duas resenhas "no ar", antes de nossos tópicos do dia e de maneira bem rápida. Ao pensarmos na reformulação do site, alguém propôs a ideia de por o review escrito no corpo dos posts, assim as pessoas poderiam ler e reler a resenha quando quisessem ao invés de passar um tempão tentando encontrar onde porventura ela estaria no arquivo de áudio além de se decepcionar um pouco por ser muito rápida.

Enfim, eu fiz a primeira resenha escrita, que coincidiu, por sua vez, com o quadrinho feito pelos alunos do Daniel Brandão, fanzine que contempla o fim do curso da cada turma. A resposta ao texto foi muito positiva e me incentivou a fazer outras, mas fui sanado primeiro pelo fim do podcast e atualmente pela aparente escassez de material atual em minhas mãos (possivelmente estava indo aos lugares errados).

Aqui retorno a resenhas e, novamente, tenho um material fruto do Curso de Quadrinhos do Daniel. Material esse que já me trouxe grande felcidade pela quantidade de páginas (60), recheadas de narrativas gráficas e desenhos. Virtuosismo não é raro e tanto há promissores desenhistas, quanto argumentistas criativos, dando seus passos iniciais que não parecem ser tão "novatos" assim.

Diferente da coletânea anterior dos alunos de DB, nesta parece haver uma maior quantidade de pessoas diretamente ligadas ao mercado de quadrinhos, tendo em vista que os temas distanciam-se da postura de "contra-cultura" que parecia existir no último número. O título, Tempestade Cerebral, e a capa têm essa aparência. Explosões, personagens de faroeste, lutadores de espadas enormes, gladiadores, cientistas de ficção científica e mesmo uma mulher nua em um cavalo (mantendo a devida "censura") já adiantam o conteúdo do Zine, na detalhista capa de Vicente L. Reis.

Como dito antes, Tempestade Cerebral é um quadrinho virtuoso, simplesmente porque os que o fizeram, levando em conta que são todos novatos, tiveram grande apreço por seus trabalhos. Não falarei sobre todos, mas procurarei pontuar qualidades e dificuldades que verifiquei. Logo de início devo dizer que a capa é por deveras atraente, lembrando os primeiros trabalhos da revista Heavy Metal em seus caos ordenado. Infelizmente a impressão em preto e branco, formato tão comum ao estilo fanzine, acabou por dificultar a qualidade da apresentação, confudindo o nome dos autores com o desenho central e mesmo fazendo com que os personagens no carro parecessem um amontoado pouco claro se vista um pouco de longe. As artes internas, no entanto, aproveitaram o PB para valorizar suas obras com sombras bem posicionadas. Alguns pecaram por usaram tons de cinza e suas narrativas sofreram com a impressão.
Todos acertam por escolherem histórias curtas e precisas, sem muitos floreios ou conflitos. Mesmo algumas que podem ser consideradas o primeiro passo de uma possível série são organizadas, possuem começo meio e fim e não confudem ou enganam. Elas estão ali com suas funções, designs e narrativas fáceis de se entender e absorver. Para alguns pode parecer simplismo, mas analisando que os autores são iniciantes contadores de histórias gráficas, as escolhas de seus roteiros e saídas para estes é de uma sabedoria e bom senso que falta a muitos no mundo dos quadrinhos.

Entre os artistas temos um misto de desenhos mais simples, lembrando o cartum, óbvias influências dos comics americanos e alguma coisa mais underground. Nesta edição as influências do mangá são mais discretas e podem ser vistas principalmente em alguns desenhos de tokusatsus (é assim que se escreve mesmo?). Todos com certo cuidado e apreço. No entanto, três desenhistas se destacam, Ivo Soares (por Jon Dizeo em Fúria), Vicente L. Reis (capista e por A Vingança do Bastardo) e Bessa Jr. (por Round 1 Fight e Bosco).

Ivo é um grande narrador gráfico. Suas "câmeras", escolhas de perspectivas e enquadramentos revelam um autor de quadrinhos iniciante com uma bagagem acima da normal. Sua história quase sem falas é de uma qualidade única. Possui ritmo, velocidade e dinâmica. Algo em seus desenhos deve ser melhorado, coisa que vem com a prática, mas eles já possuem uma identidade, obrigação de qualquer desenhista que deseja uma carreira sólida e reconhecida. Realmente um achado dentro do curso de Daniel.

Vicente L. Reis, por sua vez, possui um seguro pé no estilo dos comics, com personagens icônicos e sobre-humanos e sombras trabalhadas. Seus desenhos aproveitaram com segurança a impressão PB. Sua arte me faz lembrar desenhistas dos anos 90, em suas qualidades, a quadrinização também, mas isso já não é mais uma vantagem na minha opinião, pelo menos em termos de enredo. Sua composição de página é boa e a narrativa também, apesar de merecer um cuidado nas viradas de página e na clareza do argumento. Mesmo conselho de Ivo cabe a ele: prática constante e mais referências, tanto em termos de quadrinhos quanto em outras mídias, vai ajudá-lo a seguir com mais segurança numa carreira profissional.

Talvez o grande achado, sem desmerecer qualquer um dos autores da HQ, mas reconhecendo que não importa que ambiente genial seja, sempre há um que se destaca, é Bessa Jr. Um nome que não deve ser esquecido por ninguém. Seus traços cartuns mostram certeza e maturidade profissional. Devo confessar que senti uma certa "preguiça" em seu desenho, mas longe de ser uma desvantagem, o que acaba por dignificar ainda mais sua arte (afinal, se com uma aparente "preguiça" ele fez isso tudo...). Seus desenhos são expressivos e divertidos, me lembra as fases de Looney Tooneys e Tom & Jerry em que o produtor era Chuck Jones, um dos grande mestres de "gags" em animações. Bessa é um daqueles artistas que alegram a gente por simplesmente existirem, mas que alegrariam ainda mais se publicassem regularmente outros trabalhos. Então, meu caro, pense na ideia de criar um blog e divulgar seu trabalho ou mesmo entrar me algum grupo de quadrinhos e produzir algo impresso. Se desejar, cedo espaço para você e para qualquer um que tenha interesse, aqui no Z&A para colocar seus quadrinhos.

Enfim, não me alongarei com os outros, não por não merecerem, mas pra não ter de deixar este texto maior do que já está, mas merecem destaque, então segue o nome da galera:

Diogo Loureiro
Will Silva - wilton_ks@hotmail.com
Cássio T. C. Andrade
Calebe "Kapan" Pereira - kapan_agerbond@hotmail.com
João de Victor de Sousa - sadlerplaga@hotmail.com
Vicente Luiz Reis Alexandrino - vicenteluizreis@hotmail.com
Bessa Jr. - bessajr@hotmail.com
Ivo Soares

Completo o post de hoje com um comunicado: Desde "não sei quando" tem acontecido na Gibiteca de Fortaleza o Fórum de Quadrinhos, onde autores e entusiasta das narrativas gráficas se reúnem para pensar em estratégias de divulgar e produzir HQs em nosso lindo Estado. Então, meninos e meninas, 14h ou 16h, todo sábado, apareçam na Gibiteca de Fortaleza e levem seus quadrinhos para lá.

Até semana que vem, galera!

Um comentário:

  1. Muito massa esse mund dos quadrinhos... Comprei recentemente o "Gênesis" do sr. Crumb e pretendo adquirir o volume 1 da coletânia do Sandman! Depois queria que vc me desse dicas para marinheiros de primeira viagem como eu de algumas produções bem legais e mais independentes!

    Grande abraço, vou adicionar este blog também!

    :-)

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