9.14.2010

Pensando no Presente e Futuro ou Obras Transmidiáticas

Criar é uma caixinha. Sim. Diferente do que muitos pensam o ato de criar é uma pequena caixinha feita de um material específico e único para cada um. Essa caixinha possui as bases para toda a obra. Muitas vezes é só uma frase, como "com grandes poderes vêm grandes responsabilidades", ou conceitos, como "Homem de Aço". Enfim, a base que sustenta toda uma estrutura maior está dentro de uma caixa segura, confortável e forte. O resto é tijolo, madeira, cimento e tinta.

No entanto, ter sua ideia em uma caixa não quer dizer que ela deva ficar o tempo todo NA caixa ou ter o diminuto tamanho desta. Eu realmente não acredito em obras que se limitam a tomar um espaço, um veículo, uma mídia. Talvez no século 17, hoje não. Uma boa história deve conhecer todas as maneiras de ser contada, ela deve alcançar todos os lugares possíveis e impossíveis. Nenhum trabalho deve ser fixo ou restrito a um único público e formato.

Games, vídeo, quadrinhos, cinema, paredes de parques, rolos de papel higiênico (que foi?), todos esses e outros são formas de mídias e todos podem ser utilizados para contar uma história. Fico imaginando se, ao invés dos enormes cartazes da TIM que tomam metade de um prédio no Centro de Fortaleza - ou em qualquer cidade que tenha esse tipo de coisa -, tivesse uma tira de Calvin e Haroldo, especialmente feita para aquele cartaz e com uma genial mensagem de Watterson - talvez até sem texto -, quantas pessoas seriam atingidas pela sabedoria do bom cartunista e que tipo de pessoas poderíamos formar com isso?

Acho que prender uma obra a um único espaço de mídia é colocá-la em um pedestal purista insensato e, por que não dizer, atrasado. Um bom livro sempre será imortal - vejam os casos de A Odisséia, A Divina Comédia ou Memórias Póstuma de Brás Cubas -, mas um filme inspirados nesses livros ou uma série de TV que tenta, o mais fielmente possível, transportar essas obras para o formato gravado, consegue algo tão e talvez até melhor que a imortalidade: popularidade.

Guillermo Del Toro, diretor, entre tantas coisas boas, de O Labirinto do Fauno e os dois Hellboy, recentemente deu uma entrevista dizendo que gostaria de tentar várias formas de narrativas, desde cinema, passando por quadrinhos, jogos e livros. Peter "O Um Anel" Jackson também já houvera comentado o desejo de se envolver com jogos. Acho esses posicionamentos e opiniões uma visão madura e pé no chão dos caminhos que a arte narrativa pode (e deve) chegar. Senhor dos Anéis deixou de ser um livro pra ser uma obra transmidiática - hoje temos de quadrinhos a jogos on-line - até com contas gratuitas! Um dos filmes mais comentados do ano, A Origem, além da película lançou um quadrinho on-line completando espaços deixados na história. Isso para comentar exemplos de cineastas que perceberam a importância de se colocar e até mesmo ligar (ou linkar pra ser mais fresc... cool!) eventos narrativos únicos, mas interligados ou não, de um mesmo universo.

Diferente de uma pura estratégia de mercado, acho que esse tipo de atitude possibilita um maior número de opções e formatos para uma história, um conceito, uma ideia etc e, com isso, mostra que qualquer espaço pode ser um espaço narrativo. Assim, um filme que apresenta aquela ideia da caixinha e amplia essa mesma para tiras on line, quadrinho impresso, livros de contos, podcasts, blogs, só pra falar em mídias mais comuns, consegue atingir uma quantidade muito maior de público e não só imortaliza o conteúdo da caixinha, mas faz com que este seja conhecido por todos.

Sei que uns 20% de pessoas vão dizer "e aqueles que não tem internet ou dinheiro pra lan house?". Bem, aí eu mesmo proponho uma ideia: se uma editora resolve investir toda sua grana em um outdoor furreca com uma capa sobre um fundo de cor chifrim e o nome do autor bem grande que muitas vezes vende muito mais que a obra em si, tipo "Caulo Poelho", porque não investir em uma forma de se contar a história - ou parte dela ou um conto no universo dela - naquela mídia? Ou comprar uma parede de um local onde passam muitas pessoas e inserir uma tirinha por lá? Sério? Por que um veículo narrativo deve ser único e imutável? Por que TUDO não pode ser uma "página em branco" e se transformar em um espaço criativo de veiculação de histórias?

Enfim, são ideias e devaneios de um narrador que sempre quer tudo muito além da caixinhas e que não apoia atitudes como as do digníssimo Alan Moore - e que fique bem claro aqui que este redator admira de muitas formas suas obras, mas odeia sua postura e bobagens profissionais - que deveria sim pegar os direitos de Watchmen entre outras coisas que ele fez e mandar ver em outras mídias aproveitando toda sua "genialidade" em espaços muito além dos oferecidos pela sarjeta.

Desculpem o atraso nos posts galera. Até semana que vem.

2 comentários:

  1. Acredito que essa forma de divulgação em todas as possíveis páginas em branco de uma cidade com certeza vale a pena, mas em virtude do mercado de marketing que tende a visar o lucro e que tem os mesmos clientes não veem essa possibilidade com a amplitude que ela realmente possui...
    Os grafiteiros já estão por aí divulgando suas mensagens com arte já faz um tempo e, a meu ver, tem melhorado muito com essa arte 'contra-cultura'. Pra mim já é um bom exemplo e incentivo.

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  2. Em Recife e em natal já cheguei a ver todo um movimento de intervenção urbana. Acho isso massa, quando a arte consegue se comunicar com outras expressões. Misturando-se e formando outras coisa.
    Legal seu texto...

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