11.25.2011

REVIEWS FIQ 2011 - PARTE 2


Continuando a incrível missão de comentar minhas impressões sobre todos os quadrinhos que adquiri no FIQ, segue duas obras de uma galera muito gente boa do Rio de Janeiro. A partir dessa edição começarei a dar selos (uma maneira simples de se visualizar a resenha, além dos meus comentários). Funcionará assim:

SELO 90's: belo de se ver, conteúdo descartável
SELO 80's: divertido, marcante e com um visual agradável aos olhos, sem precisar ser profundo
SELO 70's: grande texto, arte conceitual, mas visionária
SELO 60's: ainda em seu embrião com muito a melhorar, mas com algum potencial

Os selos acima sempre estarão ao final do texto indicando como esse quadrinho foi interpretado. Algumas obras, no entanto, podem apresentar também os seguintes selos especiais:

SELOS ESPECIAIS
SELO MILLER: inteligente e bem narrado, mas de futuro duvidoso...
SELO MOORE: rico em informações com frases e ideias afiadas, mas pendendo à aparente loucura
SELO MILLAR: diversão e ação à toda prova, blockbuster na certa, mas com grande chance de ser somente pop
SELO EISNER: obras-primas. Indiscutível.

COMIC COW de Denis Mello

Inicialmente Denis Mello imaginou sua Comic Cow como forma de participar do evento Cow Parade, assim, ele fez uma vaquinha ornada por uma história em quadrinhos - onde a própria vaquinha havia ganhado superpoderes após um meteoro atingir seu pasto, matando suas amigas. Sendo bem sucedido nesse intento, Mello pegou a história DA vaca NA vaca e colocou NO papel, daí nascendo o impresso COMIC COW, onde a mesma história pode ser apreciada pelo passar das páginas.

Infelizmente, aí se encontra o grande erro. Por simplesmente ter "colocado" o trabalho para o Cow Parade e transformado em páginas, você sente um roteiro descartável, onde os personagens e as situações são tão apressadas que não há momento para se familiarizar ou mesmo simpatizar com a Vaquinha. Uma pena, pois Denis Mello possui um desenho cartum bem estilizado, com artes bacanas e uma composição atraente, fora o fato que há um incrível potencial cômico na situação (vide o caso de Lene Chaves durante o Manicomics) que não foi corretamente aproveitado. A Supervaca funcionava melhor quando era uma arte plástica, enfeitando sua musa numa exposição. Nas palavras de Yoda: "Pensar em adaptação, você deve".

SELO 90's

COLETÂNEA 23,5 de Daniel Bicho, Giba, Igor Chaves Jeanne Göpfert, Lucas Santoro, Luisa Pires, Marília Bruno e Renato da Matta

Coletâneas sempre são complicadas, principalmente quando surgem no ambiente independente, pois correm o risco de cada um fazer do seu jeito e a coisa toda parecer uma loucura só, sem identidade alguma e que causam uma grande estranheza pela "liberdade criativa". 23,5 não sofre esse problema, com todas os autores tendo a liberdade necessária para produzir o que querem dentro de uma temática que é comum ao ambiente proposto ali. Com uma capa inspirada, um design profissional e um acabamento de primeira (em folha amarela, vejam só) a impressão que se tem é de uma HQ bancada por editora, com trabalho e tratamento especial. Impressionante logo nas primeiras páginas descobrir que não é nada disso.

Sem a necessidade de ter de fazer uma resenha pra cada história, acho que merecem destaque os trabalhos Psycholic (de Marilia Bruno), Tim Punk (de Giba) e Bull Black Nova (de Igor Chaves), os dois últimos por suas histórias diretas e concisas e uma arte competente e o primeiro por seus interessantes experimentalismos que ajudam a dar um tom ao mesmo tempo cômico e único pro quadrinho. Os outros trabalhos, por sua vez, são de uma qualidade puramente artística e devo confessar que um tanto incompreensivas ao primeiro olhar. Em meio a essas destaco Tirinhas (de Luísa Pontes) que mereciam um acabamento fora dos papeis em bloco: uma pintura em cores em uma galeria de arte caberia bem ao caso.

SELO 60's

11.22.2011

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11.18.2011

FIQ 2011 - REVIEWS E OUTROS DETALHES

Para quem esteve preso em uma redoma capsular em algum lugar de Plutão ou simplesmente não dá a mínima para coisas como quadrinhos e eventos ligados ao gênero, de 9 a 13 desse mês aconteceu a 7º Feira Internacional de Quadrinhos, o FIQ! O Fórum de Quadrinhos do Ceará, na forma deste que vos escreve e outros amigos e colegas, marcou presença lá. As novidades e comentários sobre tudo o que vimos e vivemos vocês poderão ler no blog do FQCE.

Como já é de costume, muitos quadrinhos que estavam por lá foram adquiridos pelo editor/redator deste blog. Assim, decidi abrir uma sessão especial que sairá aqui todas as semanas onde faço reviews de tudo que comprei por lá. A ordem é aleatória: conforme eu vou lendo eu vou postando. E para a estreia nada mais que especial do que a obra de artista que já esteve por aqui: Valente Para Sempre de Vitor Cafaggi.

Em 2010, Vitor Cafaggi foi convidado pelo jornal O Globo a ter um espaço no periódico com uma tira própria. O autor apresentou então Valente, as desventuras de um cachorro e sua paixão por uma gatinha em sua rotina de idas a aulas e amigos. Assim, o autor juntou em uma copilação especial as 70 primeiras tiras publicadas no jornal e lançou no FIQ em um livro especial com capa bacana e papel de primeira 
(e lombada quadrada) para os fãs que não tiveram a chance de acompanhar as tiras pel'O Globo.


Logo de cara percebemos que Cafaggi é um quadrinista mais que competente. Muito mesmo. Ele sabe se utilizar da linguagem dos quadrinhos de maneira clara e objetiva - desde a escolha da colocação do texto até a adaptação e caminhar dos balões pelos quadros, além de um timing emocionantemente perfeito -, encontrando saídas simples e básicas que ajudam a sua narrativa e dão ao seu trabalho um ar de obra acabada, redonda, completa. Tudo isso logicamente em desenhos lindos, inquestionavelmente lindos. Um dos melhores exemplos da união ideal de texto e imagem que formam a arte sequencial. Como tirista ele deixa a ousadia de lado e apresenta um quadrinho tecnicamente linear, sem ser piegas ou datado. Suas influências são tão óbvias que o fato de ele as dizer é meio irrelevante (a quem ainda não sabe: Watterson e Schulz). O melhor é que ele as utiliza como real prova de "aprendizagem", não como "cópia".

No entanto, técnica sem conteúdo é um poema parnasiano e Valente Para Sempre está longe de ser um mero "jarro vazio". Pelo contrário. A tira é riquíssima e verdadeira, real prova do que há de melhor na vanguarda dos quadrinhos hoje em dia. Cafaggi acerta por fazer uma HQ para todas as idades, abordando o tema da paixão e do "procurar pela pessoa" de forma tão sincera e leve que é quase impossível não se identificar com as histórias do cãozinho do título. Afinal, essa é a palavra de ordem de toda a HQ: sinceridade. Os sentimentos que conduzem as narrativas curtas - algo que vai se aprimorando a cada página - da coletânea são tão verdadeiros que não cabem mentiras nas sarjetas e tudo é abordado com a linguagem de uma criança e a nostalgia de um adulto. Seu desenho é um condutor ideal desses sentimentos, das emoções em cada levantar de orelhas de Valente ou não balançar do rabo. Impossível não se emocionar em alguns momentos somente pelas imagens (vejam as páginas 60 e 78, se você não se sentir movido por aquilo...). Essa sinceridade é tão patente que Valente é simpático e íntimo como seu melhor amigo e confidente e suas histórias são tão agradáveis quanto reuniões das pessoas que você mais gosta numa tarde bonita. 
Características que vêm muito bem expressas desde a inspirada introdução feita por Bu Cafaggi, personagem e irmã de Vitor/Valente, até a interpretação do personagem por outros artistas nas páginas finais.

Não há exageros em dizer que foi o melhor trabalho em tiras editado no Brasil desde o fim de Calvin e Haroldo, personagens que, por sinal, acompanhavam o mesmo jornal que hoje lança a tira do cãozinho. Melhor sucessor impossível. Desconfio que Bill Watterson ficaria orgulhoso.


Aos que não tiveram a chance de adquirir a coletânea (bem como a revista DUO.TONE do mesmo autor) no FIQ 2011, acessem: punyparker.blogspot.com e descubram como pedir a suas.

11.04.2011

PREVIEWS FQCE - RAFAGA E GOSTO RUIM

Continuando na série de previews para o FIQ na mesa do FQCE, apresento duas obras de autoria do digníssimo Zé Wellington, um dos coordenadores do grupo Gattai Zine e organizador do evento + HQ em Sobral! Verifiquem o release e vejam o preview!


RAFAGA - Volume 1: Quando se posicionam os peões
Roteiro: Zé Wellington
Desenhos: Demétrio Braga

Rafaga - Volume 1 é o início da história que conta a saga de Sieg, um antigo vampiro; Alexandra, uma caçadora de recompensas; e Rafaga, um jovem príncipe amaldiçoado. Numa história de terror repleta de seres fantásticos, esses três personagens descobrem ser pilares de uma complexa disputa entre dois seres celestiais, o que pode pôr fim a existência dos mortais. Segredos, vingança e violência são os ingredientes dessa HQ adulta calcada na fantasia, lançada pela Editora Quadrix.


Pré-venda: http://www.quadrixcomics.com.br/shop/index.php?route=product/product&product_id=53






GOSTO RUIM #1
Roteiro: Zé Wellington
Desenhos: Paulo Fernando e Sílvio dB

O fanzine Gosto Ruim traz duas histórias em sua primeira edição. Em Overclock Jack: Teia das conspirações é um preview de uma webcomic que mostra um mundo fantástico de elfos, trolls e anões, onde a magia foi trocada pela internet e pelos computadores. Nesse cenário, em meio a conflito étnicos, um rei luta para unir as raças sem saber que uma conspiração se forma para a derrubada de seu trono. Em Taverna do Angus, um taverneiro medieval presencia uma estranha maldição em seu estabelecimento... Mas seria magia mesmo?




11.03.2011

PREVIEWS FQCE - FIQ: GRUPO Pb


A ideia para formação do grupo nasceu em uma tarde quente de um domingo de novembro, em 2010. Na época, Marcus Rosado, quadrinista, revelou a Luís CS, roteirista e amigo, o desejo de começar a produzir quadrinhos. Assim, eles sentaram e sugeriram várias ideias: guerras espaciais, jornadas de cavaleiros, monstros do armário, robôs gigantes, heróis uniformizados - todos os clichês possíveis a um quadrinista iniciante foram colocados em mesa, mas nada em si foi decidido, exceto o nome do grupo: Pb Quadrinhos, "Porque todas as boas histórias estão em preto e branco", disse Luís, parafraseando Caio, do extinto KIMOTA Podcast.

A resposta definitiva surgiu semanas depois, quando Marcus conheceu Catarina Brontë, principal roteirista do grupo. A tímida garota mostrou uns manuscritos em um caderno de matéria com cerca de 90 páginas de uma história de dramas pessoais e erotismo. A trama atraiu a atenção de Marcus e, após uma conversa com Luís, os dois começaram a elaborar o quadrinho, o primeiro como desenhista da série e o segundo como editor. Assim, o primeiro quadrinho do grupo surgia, FOCO.

Na história, Manuela é uma garota introspectiva e sem confiança em si mesma, que, através de sua polaroid, começa a registrar práticas sexuais das pessoas a sua volta: padrasto, irmãs, professores e desconhecidos, utilizando as fotos para decorar sua parede que, como ela mesma diz, é tão vazia quanto sua própria vida. Aos poucos esses registros vão revelando diferentes relações de submissão, mostrando a Manuela que os desejos sempre são mais que carnais.

"A ideia de se criar uma série de contos sobre pessoas e sua vida íntima sempre passou pela minha cabeça, mas nunca tive o 'feeling' correto para fazê-lo. Catarina veio com a ideia quase pronta: personagens, narrativa, temas e Marcus fechou a equação com sua própria visão do que queria desenhar e do tipo de história que gostaria de contar. Tudo o que fiz foi adaptar a trama para o formato dos quadrinhos. Sem entregar muito a história, tentamos fazer algo que tenha o 'poder' como tema central. O tempo todo e de diferentes formas, há relações de poder sendo empregadas e a maior metáfora disso é o sexo, ele tanto é interpretado como forma de submissão a alguém como de dominação. A história também fala sobre despertar, sobre sair do local comum. No primeiro arco de histórias, poderemos sentir isso de maneira muito leve através das 'observações' de Manuela, mas o segundo - e aparentemente definitivo - volume, com a inserção de alguns personagens novos, isso ficará mais evidente e a personagem mudará de uma maneira gradual, mas incrivelmente radical pra sua própria visão de mundo", comentou Luís.

"Catarina é uma autora nova, mas muito promissora. Ela sabe trabalhar personagens com conceitos simples e de fácil identificação, mas que não são lineares. Eles são tão complexos e críveis quanto seres humanos comuns. Fora isso, é importante estarmos inicialmente trabalhando com personagens reais, em contextos reais, embora com situações um tanto incomuns - mesmo que não impossíveis. Marcus e eu viemos de uma tradição de super-heróis e narrativas fantásticas e foi um desafio, bem como um aprendizado trabalhar com uma trama onde não há explosões a cada virada de página, mas que emoção pode ser apreendida em detalhes como um sorriso que evidencia uma mentira ou um grito de revolta. Acreditamos que o grupo todo está entregando uma obra bem à flor-da-pele, sensual, incômoda e interessante", continua o editor.

Catarina, no entanto, tinha uma exigência. Ela gostaria que mais mulheres estivessem envolvidas no grupo. Assim, Rute Aquino foi convidada como revisora e consultora de roteiro. Sua participação é tão relevante que Catarina a considera corroteirista da série. Ouvindo o conselho da roteirista, Luís convidou garotas para serem capistas de FOCO, cuja primeira edição é feita por Débora Cristina, que fez seu trabalho em aquarela.

Para FOCO, a proposta de publicação da obra é fazer arcos de cinco histórias de até 8 páginas. O arco inicial é dividido em 2 volumes, o primeiro com três histórias e o segundo com as duas últimas e mais uma história bônus, além de rascunhos de produção. Cada uma delas funciona sozinha e os volumes podem ser lidos em qualquer ordem.

Há também um cuidado com o público e a distribuição, como fala Luís: "Toda a venda será feita por internet, dispositivos eletrônicos ou em eventos - em versões on line e impressas. Estamos nesse instante cuidando exatamente disso. Seria muito bom começar um site pelo blogspot e fazer de qualquer jeito, mas o Marcus foi muito insistente em apresentarmos um produto de qualidade, por isso preferimos manter a produção ativa, enquanto analisamos e testamos as melhores formas de divulgação e publicação. Após o lançamento do primeiro arco, vamos verificar a resposta do público. Se ela for positiva, vamos arriscar lançar o segundo arco em um projeto melhor acabado, apresentando o resultado a editoras e propondo o quadrinho como uma publicação mais luxuosa, mas sempre se preocupando em não deixar os leitores na mão e oferecendo um produto novo, tentando evitar as reedições. Assim, quem adquiriu o primeiro arco nunca vai precisar substituí-lo, pois queremos sempre trazer histórias com problemas e temas novos".

Depois da primeira edição de FOCO ser desenhada, outras ideias surgiram. Marcus e Luís decidiram arregassar as mangas e produzirem sua própria obra. Alguns devaneios e filmes do Tarantino depois, surgia O GUARDIÃO, a história sobre um rapaz hiperpoderoso que é convencido a ser um herói, protegendo a Terra ao invés de destruí-la - e como as pessoas do planeta reagem a sua constante intervenção em suas rotinas. Suas histórias, sempre contos completos de 8 páginas, serão publicadas inteiramente na internet em um site a ser lançado em 2011. Os roteiros ficam com o próprio Luís, também editor do grupo e administrador do site, desenhos e edição de arte de Marcus e cores de Kaléo Mendes, parceiro de Luís no grupo Mercúrio.

"FOCO é uma história muito boa, mas muito pessoal de Catarina. Por mais que Marcus, Rute e eu mostremos nossas opiniões em um ponto ou outro da história, há tanto da autora ali que não nos sentimos coautores. Chegou um ponto que eu e Marcus precisávamos de algo que fosse nosso. Lembro de um momento enquanto decidíamos uma ou outra ideia para a edição 2 de FOCO que Marcus me falou, 'Quero desenhar uma história de super-heróis', pouco tempo depois eu entregava pra ele duas ideias sobre um herói na segunda guerra mundial, ciganos e longevidade, mas que foram deixadas de lado, por conta do extenso período de pesquisa e da dificuldade de encontrar um formato que agradasse tanto a mim quanto a ele. Depois de muito pensar, me veio essa ideia de um personagem que na verdade não sabe que é herói, apesar de ser visto como o maior protetor do planeta, e que é incrivelmente alheio a este. Semanas depois, Marcus estava fazendo layouts de página e eu escrevia o segundo roteiro. Acreditamos que esse vai realmente ser um grande trabalho!"

No FIQ - BH, os curiosos e alguns fãs da dupla poderão dar uma conferida na primeira história de FOCO, feita especialmente para o evento, e ver originais de Marcus Rosado para as duas obras, bem como tirar fotos ou pedir autógrafos. Tudo na mesa do Fórum de Quadrinhos do Ceará! O FIQ acontece de 9 a 13 de novembro em Belo Horizonte.

Abaixo, uma prévia da edição que estará na mesa do FQCE!


11.01.2011

PREVIEWS FQCE - FIQ: DENÍLSON ALBANO

Denílson Albano é um dos mais genais e divertidos cartunistas de Fortaleza. Seu trabalho já foi lançado no premiado zine Manicomics e no jornal O Povo. Ele é conhecido por muitos por seus memoráveis personagens, o menino nerd Red Roger Chili Pepers, o "animado" Anderson Lauro e ele próprio, personagem das tiras autobiográficas, Minha Carreira Frustrada.

Durante o evento FIQ em Belo Horizonte, através do FQCE, será lançado o álbum "Eu que fiz isso aí", coletânea de algumas das melhores tiras de Denílson. A publicação marca a estreia do selo Z&A Quadrinhos, do editor e articulista desse blog, e do Laboratório Espacial. Ela terá tamanho especial (20x20), capa colorida, 32 páginas e preço inicial de R$ 12,00. Os interessados em adquirir esse lançamento, apareçam na mesa do Fórum de Quadrinhos do Ceará, nos dias 9 a 13, no FIQ-BH!

Não deixem de visitar o blog do Denílson e ouvir sua entrevista para o Papo Armagem! Abaixo, um preview pra vocês sentirem um gostinho da publicação!


10.31.2011

REVIEW: BATMAN ANO UM: QUADRINHO + FILME


Dentre todas as coisas que acredito serem verdades no mundo dos quadrinhos, a genialidade de Frank Miller no início de sua carreira é uma delas. E incontestável. Inserido na minha visão e gosto pessoal do que é uma boa história, BATMAN ANO UM é o seu melhor trabalho, como história de super-herói, policial e um conto seguro, forte em suas simbologias e acessível a qualquer um, seja fã de quadrinhos ou não. Além disso, se levarmos em conta a época em que foi escrito, consegue um feito único, trazer realidade a um herói de fantasia spandex sem deturpar sua dignidade heroica e sem destruir seu espírito e honra que é o faz o morcego ser o mito que é. Em resumo, ele consegue ser real sem apelar para a destruição da figura do herói.

Recentemente, a DC Comics - e em sua onda, a Panini - nos convidou a revisitar a obra, em um encadernado e uma animação para DVD. Assim, decidi adquirir os dois para colocar na minha coleção de itens do Cavaleiro das Trevas.

O encadernado da Panini atrai pela capa dura, papel interno de qualidade e as páginas a mais do Mazzucchelli, mas o letreiramento ficou a desejar, principalmente nas narrações de Bruce Wayne, bem como a revisão, dando a impressão de se pegar um material bonito, mas que parece ter sido feito às pressas em suas últimas etapas do processo - em especial cito a 4ª capa da HQ, informando que há uma introdução de Frank Miller, quando quem faz a introdução é Dennis O'Neal e o texto de Miller - muito meia boca - aparece no final.

Isso, no entanto, não atrapalha a apreciação da obra. O texto de Miller está em sua melhor fase - ele usa elementos de filmes policiais e seu próprio toque pessoal concentrando a narrativa em Bruce Wayne se tornando Batman e em Gordon chegando a Gothan e trabalhando até o posto de comissário, limando arestas e removendo inutilidades, com um polimento excepcional dos desenhos e storytelling de Mazzucchelli, os quais ainda são prodigiosos e melhores que muita coisa atual e moderna. As páginas a mais do desenhista da série também são um carinho muito bem dado aos fãs e curiosos do processo criativo. As cores - mais "lavadas" - não desanimam, apesar de não terem o charme do primeiro impresso - que se bem não me engano foi feito em papel jornal - e estão bonitas e sombrias. Uma obra que com certeza é superior às suas falhas editoriais.

Quanto à adaptação da animação, essa sim é surpreendente. Não por ter "adaptado" algo (como foi o Batman Begins de Chris Nolan que se utilizou de muitos elementos de Ano Um e de sua temática, mas preferiu seguir seu próprio caminho), mas por - assim como Sin City - ter literalmente animado o que já estava feito. Desde o traço de Mazzucchelli, até as cenas e falas são repetidas em detalhes, dando-se a impressão de estar-se lendo um "video-comic" de alto nível. Poucas são as ressalvas quanto ao filme - de repente Bruce e Selina foram colocados no mesmo nível de combate - e as adaptações para um público maior, quando raramente ocorrem, não danificam ou desvirtuam a obra.

A animação em si também é de extrema qualidade. As cenas de luta estão bem coreografadas e a ação possui um "que" de Cowboy Bebop que se adequa perfeitamente ao filme, mesmo que por vezes pareça irreal demais. Afinal, sem pensar muito os realizadores fizeram toda animação como um filme noir. Mais sábio e simples, impossível. Destaque mais que especial ao comissário Gordon, um personagem tão forte, seguro e atraente que em vários momentos eclipsa a figura do morcego, e uma figura que Miller sempre soube trabalhar muito bem.

Há uma série de movimentos na internet pelo novo, o original. Isso com uma certa pressa e criticismo que, na verdade, tem levado as pessoas a fazerem obras razoáveis ou mesmo ruins, sempre preocupadas com arrecadação obtida de alguma forma por aquilo, de maneira que justifique seu tempo e paciência gastos, ao invés de objetivarem a boa história sendo contada, com personagens atraentes e uma trama minimamente inteligente - ou ao menos não pretensiosa. Ao meu ver, esse "erro" em saber lidar com a própria obra vem - também - de um mal estudo do passado, daquilo que foi feito e considerado bom, de qualidade, muitas vezes por pura irresponsabilidade do produtor - ou orgulho ou da já falada pretensão, enfim... - outras vezes por acessibilidade (que soa a desculpa esfarrapada, nesses tempos de rede mundial...). Assim, quando uma obra como BATMAN ANO UM é relançada e apresentada em uma nova mídia, merece uma observação mais apurada, mais detalhista para que se possa aprender com o que é considerado excepcional.





Para quem está interessado em assistir a obra e conversar sobre as diferenças entre as duas mídias, o GRUPO DE CINEMA 24 QUADROS, em uma parceria com o FÓRUM DE QUADRINHOS DO CEARÁ, realizará uma exibição GRATUITA do filme no dia 18.11, 18:30, na GIBITECA DE FORTALEZA (Av. da Universidade, 2572). Não deixe de ir!



10.28.2011

ENTREVISTA COM FRED MACEDO, UM COWBOY DOS QUADRINHOS


Fred Macedo.

Fred Macedo é um dos maiores artistas de quadrinhos surgidos em Fortaleza nos últimos anos. Suas parcerias incluem Daniel Brandão e Wilson Vieira e seus trabalhos foram publicados no Brasil e na Europa. Durante a edição deste ano do FIQ, teremos Fred Macedo como um dos quadrinistas da HQ Stranodisponível na mesa do Fórum de Quadrinhos do Ceará. Confira a entrevista que ele concedeu ao Z&A!

1. Falando de formação, Fred, em que momento você decidiu que essa era "a carreira" e como você começou nessa caminhada?

Bom, antes de mais nada, agradeço ao roteiroZ & Apneia pelo convite. Poder participar deste espaço tão bacana para os fãs das HQs em particular e das artes e cultura em geral é um prazer e muito me prestigia.

A coisa foi mais ou menos assim, até 2005 eu estava completamente afastado de toda e qualquer atividade artística, à exceção de algum eventual rascunho em folhas de guardanapo ou cantos de agenda, era o comichão artístico sempre a provocar. Durante mais de 15 anos, fiquei trabalhando como corretor de seguros. Por volta dos meus 18 ou 19 anos não vi perspectiva de ganhar dinheiro como quadrinhista ou ilustrador, então fui estudar engenharia (adoro ciências), mas também abandonei o curso pelas contingências que o trabalho como corretor de seguros foram impondo, bem como por uma certa falta de estímulo e maturidade. Era muito desalentador estudar engenharia e vender seguros. Como o seguro era quem pagava as contas, optei por ele. Foi então que em 2005, o pai do Geraldo Borges, que além de um bom amigo é também corretor de seguros, entrou em contato comigo a pedido do Geraldo (ou foi o próprio Geraldo que pediu o telefone ao pai e me ligou depois, não lembro) informando de um evento sobre quadrinhos que estaria se realizando no Centro Cultural Dragão do Mar, o Panorama 9ª Arte. Até então, eu não pensava mais, pelo menos conscientemente, em quadrinhos, mas resolvi ir para o evento. Chegando lá e após assistir várias palestras, percebi como as coisas estavam mais fáceis para quem quisesse trabalhar como desenhista de HQs, particularmente por causa da internet e a viabilidade de se encaminhar testes para agências e até editoras. Foi lá também onde conheci, através do Daniel Brandão, o pessoal que estava reativando a Oficina de HQs da UFC. Então, eu pensei, “a hora é essa”! Me juntei ao pessoal da Oficina tendo em vista aprimorar meu entendimento da linguagem dos quadrinhos. Nunca tive muitas dificuldades com desenho, mas fazer quadrinhos não é a mesma história, você tem que conhecer a gramática da arte sequencial para fazer um trabalho legal e estabelecer uma boa narrativa visual. Foi aí que passei a investir mais, comprei os livros do Eisner (Narrativas Gráficas e Quadrinhos eArte Sequencial), os do Scott McCloudPaulo RamosValdomiro Vergueiro e em 2008 fiz vestibular para o curso de Licenciatura em Artes Visuais do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia, que me encontro atualmente cursando. Respondendo à sua pergunta de forma mais objetiva, decidi-me a levar uma vida como artista, quadrinhista e ilustrador em 2005, durante o Panorama Nona Arte. Devo dizer que a minha esposa teve um papel fundamental nisso tudo, pois, não fosse ela, eu não teria ido para o Panorama Nona Arte nem teria me inscrito no vestibular. Ou seja: “a culpa é dela...” (risos)

2. É incrivelmente importante para um artista - independente de ele ser de quadrinhos ou não - fazer com que seu trabalho possa ter alguma identidade, um aspecto que, de longe, nos faz perceber de quem é determinada obra. Sua arte é bastante detalhada e possui um aspecto bem único com uma "face" inconfundível e uma beleza visceral e dinâmica. Como e quando foi que você deu esse caráter ao seu trabalho, foi algo pensado - você imaginou um modelo e foi se talhando a essa visão - ou surgiu naturalmente?

Olha, toda vez que me perguntam sobre identidade artística, estilo e principalmente sobre influências, eu descubro um artista novo que de alguma forma me inspirou e que eu não lembrava. A questão é a seguinte, cada artista tem um jeito próprio de fazer uma coisa. Qual o trabalho do desenhista? Achar soluções gráficas que lhe permitam representar num plano bidimensional coisas que ele vê na realidade tridimensional. O desenhista de quadrinhos vai um pouco mais além, no sentido de que ele tem que encontrar soluções gráficas não só para o desenho em si – uma árvore, textura de pedra, etc – mas como dispor tudo isso numa página de tal forma que haja uma coerência visual e um atrativo dramático estabelecidos dentro da narrativa sequencial gráfica. O que quero dizer com isso é que no decorrer da minha vida acabei por “pilhar” algumas soluções que encontrei pelo caminho. No final das contas, vários foram os artistas que de uma forma ou de outra me apresentaram soluções inteligentes e elegantes do desenho que vão desde uma textura, passando pela luz e sombra, um layout de página dinâmico, etc e que aproveitei e/ou adaptei para a minha personalidade artística ou estilo. Nesse aspecto acho que tive muita sorte, pois não me ative a imitar um artista, mas a colher entre muitos os saberes que eles construíram durante sua jornada profissional. Acho que isso me ajudou a construir uma certa identidade pessoal. Não foi de caso pensado até onde me lembro, creio que tive sorte em fazer escolhas certas e assumir uma postura de não imitar. Obviamente que alguns artistas tinham um estilo que me atraía mais. Sou de uma época, final dos anos 70 e início dos 80, onde o que era publicado aqui tinha um certo atraso em relação aos títulos que vinham de fora. Mas acho que esse anacronismo me foi favorável. Acabei tendo contato com trabalhos de artistas que são referência até pela formação que tiveram. Por mais injusta que possam ser as “listas de favoritos” ou de “esses são minhas influências”, não posso deixar de render homenagem àqueles que sempre me acompanharam durante minhas horas de estudo nos desenhos e cujos trabalhos, posso dizer, foram uma base sobre a qual pude agregar outros conhecimentos. Lembro-me que a minha primeira grande impressão sobre o estilo de um desenhista em particular, daquelas que a gente pensa, “eu quero ser esse cara”, foram as histórias do Tonto (companheiro do Lone Ranger) desenhadas pelo Alberto Giolitti. Acho esse cara fantástico. As minúcias do seu trabalho, o zelo com cada detalhe, a preocupação com as referências e a representação fiel são até hoje impressionantes. A preocupação que ele tinha com as referências era tamanha que, na época em que desenhava o título Sargento Preston, pela Dell Comics, se não me engano, chegou a ir morar no Canadá para ter mais contato com os trenós que desenhava. Fiquei fascinado quando li esta história anos mais tarde. Também me causaram uma impressão formidável o Nick Holmes (RipKirky) do Alex Raymond e John Prentice,O Príncipe Valente do Hal Foster, o Fantasma do Sy Barry, o Conan do John Buscema, a arte final do Alfredo Alcala e Tony Dezuniga, o Jonah Hex e Esquadrão Atari do José Luis Garcia Lopez, o Tex do Giovanni Ticci quando da primeira fase do seu trabalho com o personagem (vale salientar que o Giovanni Ticci trabalhou no estúdio do Alberto Giolitti na década de 60), o trabalho do gênio Victor De La Fuente e por aí vai. Recentemente tenho estudado os trabalhos meticulosos do David Finch e o traço ágil do Greg Capullo. Acho o David Finch um prodígio. Ah, quase esqueço o Giorgio Cavazzano. Pecado mortal... Bom, como disse, toda lista é invariavelmente injusta, de antemão peço desculpas aos outros mestres que não citei, muito embora de um jeito ou de outro tenham me influenciado,mas eis a minha lista (eternamente incompleta) das pilhagens mais reiteradas.


3. Existe algum artista que você não gosta, mas que possui um virtuosismo - ou alternativa pra expressão de arte - que você utiliza como forma de aprendizagem?

Confesso que sempre que penso em não gostar de um artista me lembro o quão importante é a diversidade, não só na arte, mas na vida em geral, sem falar no quanto isso é arrogante e esnobe vindo de um artista. Tá certo que é impossível refrear o incômodo que certos trabalhos causam, mas tenho olhado as coisas de forma mais crítica e tentado entender as razões desses artistas. Todo mundo tem algo a ensinar e a aprender. Bom, posso dizer que não curti muito do que se fez nas HQs de super heróis na década de 90. Ia citar o Rob Liefeld, mas isso todo mundo já faz (Já citei, né?). Dessa época achava os traços de uma mesmice, poluídos e sem graça. Claro que tinha exceções. Penso o quanto desse clima concorreu para eu me afastar dos quadrinhos por um bom tempo. Quanto às alternativas que eu curto existem vários. Sou prolixo como desenhista, mas aprendi a gostar da simplicidade de certos profissionais. Eu tinha na minha cabeça, antes de me voltar aos estudos dos quadrinhos em 2005, que cada quadrinho em uma HQ deveria ser como uma pintura neoclássica: fotográfica, fiel à realidade física que representa, sem deformações anatômicas. Eu ainda tenho muito dessa coisa de querer preencher com desenho todo espaço que encontro. Tremenda besteira! Nos quadrinhos as coisas não funcionam assim. É muito bacana você ver um desenho bonito, bem trabalhado, cheio de minúcias, quem não gosta? Mas veja você caras como o Mike MignolaJordi Bernett, Hugo Pratt e o Ivo Milazzo. Quem teria a ousadia em dizer que o trabalho deles não é eficiente e belo? Uma prancha do Corto Maltese nem de longe parece uma pintura Neoclássica, mas veja só como o minimalismo do Hugo Pratt cumpre de forma competente sua função. Uma HQ dele é pura emoção e a nossa vista ainda respira nos vazios que ele deixa. Parece o desenho para uma aquarela. Não posso deixar a minha personalidade artística de lado, pois isso é algo anímico, mas com artistas como esses eu tenho procurado ser mais eficiente não só aprendendo aquilo que existe de mais fundamental e funcional na linguagem do desenho mas também nas regras da  narrativa seqüencial gráfica.


Fred Macedo e Wilson Vieira.
4. Fred, você publicou histórias fora do Brasil – Argentina, Portugal e Itália – através de seu amigo e parceiro Wilson Vieira, entre. Fala um pouco de como foi essa experiência, seu contato com o Wilson, o retorno que teve de fora (se teve) por meio de artistas e leitores.

Olha, essa parceria com o Wilson foi fundamental. O Wilson me encontrou no meu fotolog, acho que no final de 2005 ou início de 2006. Somos ambos fanáticos por faroeste e ele viu uns estudos de mãos e armas que fiz e me escreveu perguntando se eu não queria desenhar umas histórias suas. Ele me mandou um roteiro(faroeste, é claro), eu adorei. Na ocasião eu não tinha a menor ideia de quem era o Wilson e da importância dele para os quadrinhos brasileiros. Ele morou e trabalhou com quadrinhos na Itália, desenhou vários episódios completos de Piccolo RangerLa Furia del WestL´Uomo-Ragno (Homem Aranha), TarzanDiabolikDavy Crockett, e dezenas de outros personagens. Creio que foi o primeiro brasileiro (me perdoem se estiver errado) a desenhar para a Bonelli Editore. Aqui no Brasil ele tem trabalhos em parceria com o Colonnese e Mozart Couto, só para citar dois, sem falar que traduziu alguns volumes do Ken Parker. Essa é uma breve credencial do cidadão. Aprendi muito com o Wilson. Ele é um cara de uma capacidade de trabalho fantástica, não só porque parece incansável, mas também pela qualidade e maturidade do que faz e pelo seu envolvimento com as HQs. Ele respira isso noite e dia (risos). Enquanto eu desenhava as histórias dele trocávamos muitos e-mails, discutíamos páginas, cenas, layouts, referências fotográficas que ele mandava aos montes, construção de personagem, ele me deu dicas preciosas que tenho comigo até hoje. Muito embora ele tenha toda essa bagagem, a sua postura sempre foi de extrema simplicidade e humildade. Nunca teve problema em acatar as minhas sugestões. Em 2008 estive em São Paulo e tive a oportunidade de visitá-lo com minha esposaem sua residência por duas ocasiões. Conversamos muito sobre quadrinhos, comi uma gostosa macarronada, conheci sua simpática esposa, além dele me mostrar seus projetos futuros (MUITOS!!). O Wilson é o tipo do roteirista que deveria ter uns 10 desenhistas trabalhando para ele. Ele tem muito material escrito. É extremamente profícuo. Em 2009, eu entrei para a faculdade e deixei o trabalho para viver de arte, meu tempo ficou meio aperreado, mas ainda quero desenhar coisas dele. O Wilson não só é um referêncial para mim como um bom amigo. Ainda trocamos alguns e-mails. Quanto ao retorno dessa parceria, fora o próprio trabalho que fizemos juntos, que já é uma grande paga, ele me ajudou a montar um portfólio bacana. Trabalhar com ele tem um forte peso. Isso deu mais credibilidade para mim e abriu portas. Estou me aprimorando todo dia, mas com esses trabalhos acho que alcancei mais maturidade. Graças à publicação na Itália consegui contatos interessantes. Fiz uma ilustração especial para o livro Guida BonelliTutte Le Edizioni Straniere, do escritor e pesquisador italiano, Antonio Mondillo. Ele me escreveu e veio à Fortaleza, onde nos conhecemos. No seu livro, colocou umas notas biográficas minhas (na mesma página onde estão as dos artistas Dave Gibbons e Mike Mignola, por exemplo). Tive outras duas (ou três) ilustrações publicadas ali e essedesenho especial do Tex na Pedra Furada de Jericoacoara, que ilustrou o prefácio do livro. Com o Wilson tive uma HQ de faroeste publicada em Portugal na mesma edição que uma HQ do Tex desenhada pelo Giovanni Ticci. Era um especial de western e a segunda vez que o Tex saia numa publicação portuguesa. Foi uma edição muito celebrada e que foi lançada no 19ºFestival Internacional de Banda Desenhada da Amadora, em Portugal (2008). Nessa publicação tem uma entrevista comigo que depois foi comentada em carta, assinada a próprio punho, pelo Sergio Bonelli para o Zeca do Blog do Tex. Imagina o que é ter seu nome citado pelo Sergio Bonelli? Nem o Stan Lee me traria tanta alegria (risos).São coisas que vão acontecendo como consequência de um trabalho honesto e justo. Em grande medida devo isso ao Wilson!

5. Ainda sobre mercado internacional, você desenhou um quadrinho inspirado na banda Iron Maiden, o qual usou como base o álbum "The Seventh Son of a Seventh Son", de 1988. Como foi fazer esse trabalho? Você preferiu fazer uma versão mais sua cara ou procurou artistas ligados à banda, como Derek Riggs (criador do personagem Eddie TH) ou Melvyn Grant? Você escutava as músicas enquanto produzia (risos)?

Começando pela última pergunta: sim, “escutei” o álbum umas duas ou três vezes e cheguei a fazê-lo enquanto desenhava de madrugada. Eu ficava vendo imagens, vídeos e músicas meio funestas para sentir medo e entrar no clima (risos). Confesso que esse gênero musical não é a minha praia, mas também não achei ruim. Até me surpreendeu porque eu pensava que fosse algo mais pesado e agressivo. Devo só lembrar que esse trabalho foi uma encomenda do Hamilton Tadeu, editor da NFL Comics. Ele foi o responsável pela adaptação e eu fiz só a concepção gráfica. A estética do Heavy Metal sempre me agradou, gosto desse visual sorumbático, meio apocalíptico, das histórias de terror, sempre quis fazer um trabalho em quadrinhos assim... sou fã do Bernie Wrightson!!! Fiz muita pesquisa de imagens e li as letras da banda. Desenhar essa HQ foi uma loucura porque o editor queria publicar quando da vinda da banda aqui, creio que foi em maio ou março do corrente ano e eu tive que desenhar umas quarenta páginas, incluindo capa dupla, em mais ou menos quarenta dias. Cheguei a fazer três páginas em um dia na reta final. Nos três últimos dias eu dormia umas três horas por noite. Não acho isso bom, pois compromete a qualidade do trabalho, pelo menos como eu gosto de desenhar, com cuidado, com todos os detalhes que julgo necessário. Não que o trabalho não tenha me agradado, só acho que não deu tempo de fazer tudo que eu queria. Mas devo reconhecer que para o prazo que tivemos demos o nosso melhor e não poderia ficar melhor do que estava nessas circunstâncias. A única coisa que usei do Derek Riggs foi a imagem do Eddie.


Trabalho para a Oficina de Quadrinhos da UFC.
6. Saindo um pouco da seara dos quadrinhos, mas não fugindo das artes. Como estudioso de Artes Visuais, qual os artistas - pintores, escultores, ou mesmo um período artístico - que você mais admira?

Meu irmão, que enrascada. Tem muita coisa que eu gosto em arte. Acho fantástica a pintura rupestre da pré-história. Veja como os caras acharam soluções fantásticas de representação de animais. Não é só o desenho, a linha, mas a cor e o vigor da forma. Eles variavam o traço e a cor conforme a pujança do animal; os bisões tinham linhas fortes, enquanto cavalos e cervídeos traços leves e ágeis. Veja que percepção soberba. Eles já sabiam em pleno período paleolítico que um traço não é simplesmente um traço. O seu delinear cumpre uma função visual conferindo “movimento”. A gente faz isso até hoje nos quadrinhos! Gosto muito da escultura do período da Grécia clássica. Creio que a percepção, dentro da representação artística da anatomia humana, de que a oposição de membros tensos e relaxados, combinada a uma representação adequada do tronco conferindo mais dinamismo ao personagem, nasceu aí. Também curto muito a austeridade da arte bizantina, as iluminuras dos monges copistas, o resgate das tradições clássicas da renascença, a tensão do barroco, as pinturas de gênero da arte holandesa (adoro Vermeer), as representações marmóreas das pinturas do neoclássico, a explosão de sensações do romantismo, o vigor da pintura russa de fins do século XIX, a fase mais sombria do Van Gogh (Os Comedores de Batatas), as formas orgânicas do Art Nouveau, o senso de humor refinado do Norman Rockwell, chegando até aos artistas contemporâneos como Ron MueckVik Muniz e por aí vai. Rapaz, tem muita coisa bacana na arte. Quase esqueci do Pedro Américo e Raimundo Cela, dois gênios! Se você parar e olhar vai ver que quem pensa que anda inventando a roda em termos de arte só não se deu ao trabalho de ler um pouco. Se você observar tem muitas coisas dos quadrinhos que foram influências das escolas artísticas tradicionais. Os corpos retratados por Michelangelo na Capela Sistina são heroicos, tem quadros do alemão Caspar Friedrich que poderiam perfeitamente ilustrar a capa de uma HQ do Alan Moore, só para citar dois casos. A arte é espetacular e nosso tempo vida não dá conta de tudo de bom que foi feito ou do que a gente deseja conhecer. Ars longa, vita brevis.


7. É incrivelmente importante pra alguém envolvido com arte saber "beber" em outras fontes, enriquecendo seu trabalho com visões de várias outras mídias e expressões. Nisso, há alguma obra fora dos quadrinhos - ou artista - a qual você sempre retorna para ter inspiração?

Você vai no nevrálgico, hein? Tem, sim. Cinema!!! Adoro cinema! Se você quiser ter uma visão legal da linguagem dos quadrinhos assista filmes. Tem um cara de quem sou super fã e que possui umas sacadas muito legais, o Sergio Leone. Tem dois filmes dele que acho espetaculares: Três Homens em Conflito (também conhecido como: O Bom, O Mal e O Feio) e Era Uma Vez no Oeste. Acho que são não só os dois maiores faroestes de todos os tempos, como podem ser encaixados entre os 100 melhores filmes de todos os tempos. O primeiro é mais ágil e muito divertido, o segundo é mais lento e de um tom mais épico, mas ambos tem obrigatoriamente que fazer parte de qualquer antologia do cinema que se preze. Os planos, ângulos de câmera, iluminação, figurino, cenário, etc,  são uma verdadeira aula de cinema e muito inspiradores. Obviamente que aqui tem um fator que não conta diretamente para os quadrinhos, mas que tornaram esses filmes antológicos, que são uma trilha sonora memorável. Ennio Morricone foi um gênio da música do gênero. Adoro ouvir as trilhas sonoras dele. Curto muito também o cinema expressionista alemão. Nosferatu é de longe o melhor filme de vampiro já feito. As cenas onde o Murnau usa a sombra do Max Schreck como recurso dramático (em 1922!) são memoráveis. Tem também o cenário desconcertante do Gabinete do Dr. Caligari, também muito bom (A Noiva Cadáver e O Estranho Mundo de Jack que o digam). Gosto dos filmes de terror produzidos pela Universal, Frankenstein e a Múmia com o Boris Karloff, o Drácula do Bela Lugosi (meio ridículo, mas tem seu charme) o Lobisomem com o Lon Chaney Jr e por aí vai. Tenho visto muita coisa bacana nos Games. Achei o Red Dead Redemption bem interessante. Pegaram o faroeste e deram um roupagem interessante para a garotada atual. Gosto do God of War também. Nunca joguei, me refiro ao visual.

8. Hoje as modernas tecnologias sugerem novas e interessantes formas de leitura, produção e divulgação de quadrinhos. Você, como artista tradicional e colecionador de quadrinhos – Fred possui uma coleção enorme de TEX –, acha que essas novas mídias vieram para facilitar uma sociabilização da cultura de quadrinhos ou elas distanciam o leitor "comum" da arte sequencial?

Eu acredito que tudo o que o homem faz de boa fé é bem vindo. Se a coisa desanda é pelo mau uso e não pela coisa em si. Acho que a internet, o uso de tablets para leitura, mesas digitalizadores para desenho e colorização, a feitura de HQs eletrônicas, ou “HQtrônicas”, como chamam alguns, por exemplo, são desdobramentos naturais e fantásticos das inovações tecnológicas e importantíssimas não só para a divulgação e produção de HQs como para atender a demanda dos novos públicos intimamente ligados à tecnologia digital. Não tem como parar isso e mesmo que tivesse não deveriam. Não dá para parar a tecnologia, seria uma atitude ilógica e reacionária. Se tivéssemos essa pretensão, não usaríamos canetas, picos de pena, pincel ou lapiseira, nem imprimiríamos em papel porque estes materiais também são frutos da tecnologia. Gosto de desenhar em papel e usar nanquim, mas sempre trato digitalmente o meu material. Isso é um aprimoramento. A HQtrônica, esse negócio entre a HQ, a animação e o game, pela sua interatividade em alguns casos, talvez seja mais um gênero híbrido de mídias afins e é consequência da curiosidade, inovação e inquietação, diga-se de passagem, bem vindas do ser humano. Acho que a internet sociabiliza a leitura de HQs e até estimula a compra de material impresso. Leio material online, não muito, pois a taxa de leitura no monitor é mais baixa que no papel, além de cansar, mesmo num tablet, além do que nada substitui o manusear sensual de uma página impressa e o cheiro de papel novo, mas tem muita gente que passa a colecionar HQs impressas porque gostou do personagem na mídia digital. Não fosse a internet eu não teria acesso às clássicos do Alberto Giolitti da época em que ele desenhava para o mercado americano, como a Dell Comics e Golden Key (Western Publishing). Eu achei pérolas dele como duas adaptações de clássicos, um da literatura, Lord Jim de Joseph Conrad e outra do filme King Kong de 1933. De que outra forma eu teria acesso a este material da década de 60 se não fosse a boa vontade do colecionador que o disponibilizou na net? Sou uma prova viva da sociabilização das HQs na internet. Quem curte quadrinhos, curte animação, cinema e outras mídias afins que surgem como hibridismos daquelas.Acho que as novas mídias são mais uma possibilidade dentro de um leque cada vez maior para a escolha do freguês. Bom, quanto a minha coleção do Tex infelizmente perdi muita coisa para as traças, fungos e outros inimigos do papel. Espero que tenham tido muita dor de barriga.Hoje em dia só compro material que posso usar como referência para o desenho ou se a história for muito boa. Não coleciono mais só por fidelidade ao personagem.
Tex por Fred Macedo.
Ao fundo a Pedra Furada em Jericoacoara.

9. Há algum quadrinho/trabalho/personagem que você sonha em ser convidado a fazer?

Sim. Vários! Eu não sou muito fã de quadrinhos de super-herói, já li muito, mas adoraria desenhar esses personagens do segundo escalão: Luke CagePunho de FerroShang Chi (adoro o Mestre do Kung Fu – bons tempos do Paul Gulacy e Mike Zeck), Justiceiro, etc. Gostaria muito de desenhar algo assim. Gosto do “mundanismo” de suas histórias. Também tenho um sonho de consumo: o Jonah Hex. Bom, já que estamos sonhando alto, quem sabe um arco do Tex.


10. Uma pergunta pra fechar de vez: o que você tem lido/assistido/ouvido atualmente em termos de quadrinhos, filmes, séries, músicas?

Vamos lá: estou com grande defasagem na leitura de novos quadrinhos, o que tenho feito no máximo é ver o que os artistas têm desenhado. Fico sempre buscando material novo para estudar, particularmente do David Finch e Greg Capullo. Gosto também da arte sarcástica do Skottie Young e do Humberto Ramos. Leitura nova que é bom nada. Isso não é bom para alguém que dá aula de quadrinhos. Pode ser uma enrascada. Tenho lido mais os quadrinhos antigos: ConanPreacherAsilo ArkhamCalvin e Haroldo, li umas coisas antigas na net do Bernnie WrightsonNestor Redondo e Al Williamson. Na verdade do Al Williamson tenho muita coisa da minha coleção do Hulk da década de 80. Desenhos de Star Wars. Quanto aos filmes estou tirando o atraso agora, vou ver o Lanterna Verde e o Capitão América, se o filhote deixar. Mas sempre assisto material que tenho em casa, adoro rever certos filmes: Conan, o bárbaroBlade RunnerAlien, o oitavo passageiroO Planeta dos Macacos (1968), Os Sete SamuraisYojimbo (gosto do Kurosawa), O Sétimo SeloShaolin Contra os Doze Homens de Aço (adoro cinema de kung fu principalmente das décadas de 70 e 80 produzidos pela Shaw Brothers e Golden Harvest, esses filmes “B” bem toscos! Adoro a sonoplastia dos golpes! risos), etc. Ah, ia esquecendo, assisti duas comédias espetaculares - revi, na verdade - A Dança do Vampiros, do Roman Polanski que é muito engraçado e que dá muito medo apesar de ser uma comédia (gosto de assistir de madrugada e sozinho). Esse filme tem um segundo título em inglês que acho muito interessante, o primeiro é The Fearless Vampire Killers (a tradução para o português é sempre estranha, né?) e o segundo é Pardon me, but your teeth are in my neck, que é um título já carregado de sarcásmo. Quem não conhece deveria ver. O outro é A Incrível Armada de Brancaleone, uma sátira às histórias de cavalaria e ao Dom Quixote. Quanto às séries, estou acompanhado como fã fiel The Walking Dead. Gosto muito. Também curto Futurama, os SimpsonsBones e tenho visto The Big Bang Theory porque os colegas da faculdade falaram muito e fiquei curioso. Minha esposa fica indignada quando assisto The Big Bang Theory. Coisa pra nerd, mesmo! Quanto a música curto tudo o que NÂO seja forró, axé, sertanejo, pagode, funk e certas músicas religiosas. Gosto de bossa nova, jazz, alguns clássicos (Corelli, Vivaldi, Canto Gregoriano, etc), rock e me divirto as vezes ouvindo brega.


10. Pra finalizar, em que você tem trabalhado atualmente? Podemos esperar por novos quadrinhos de Fred Macedo vindo aí?

Sim, estou trabalhando em duas HQs novas. Já tenho umahistória pronta há mais de um ano, que desenhei a bem mais tempo que o Iron Maiden, mas que ainda não foi publicada. Estou desenhando a continuação dessa história e outro trabalho em colaboração com outros artistas.A coisa tem andado lenta por conta de outras contingências, mas breve espero terminar esse material. Fora isso, tenho feito algumas ilustrações, capas de livros, colaboração para a Revista Universidade Pública, dando aulas de desenho e quadrinhos e por aí vai.

Abraços a todos!J


Página da história Evolution na HQ Strano.

Conheça a HQ Strano, trabalho de Wilson Vieira que conta com artes de Fred MacedoAllan Goldman e Daniel Brandão na mesa do Fórum de Quadrinhos do Ceará no FIQ, de 9 a 13 de novembro em Belo Horizonte!