2.10.2011

MALUCOS

Dia desses eu estava na casa de meu amigo Marcus e ele me emprestou o quadrinho "Bob & Harvey", de Harvey Pekar e Robert Crumb, uma pérola do underground norte-americano. Conhecia o trabalho de Crumb, mas Pekar era novidade para mim. Sem querer me alongar elogiando o óbvio, pessoalmente achei as "crônicas" de Pekar um diferencial único no mundo dos quadrinhos, mas ainda me pareceu um tipo de experimentalismo, por mais "completo" e genial que fosse. Assim, ao final do quadrinho, pensei que mais daquele tipo de narração deveria ser produzido (e divulgado) atualmente, mas duvidei muito que algo do gênero acontecesse - afinal o movimento underground há muito parecia terminado e o mais próximo àquilo que eu tive contato aproximava sua linguagem mais às artes plásticas que realmente à quadrinização. Bem, acabei duvidando cedo demais.

"Malucos" é um quadrinho singular por um detalhe: ele é comum demais. Não que isso deva ser interpretado como algo negativo, muito pelo contrário. Entendam o comum como "pessoal", "íntimo" até. Tão íntimo quanto aquele maldito melhor amigo que chega na tua casa e abre tua geladeira e bebe o refrigerante choco da garrafa e tua mãe adora o desgraçado... e você também.

"Malucos" tem assinaturas de dois velhos conhecidos dos quadrinhos, Allan Goldman, o editor, e Daniel Brandão, um convidado especial. Como quadrinistas experientes e conhecedores do mercado, eles entregam roteiros que se diferenciam por suas liberdades, desde a escolha de temas até um "storyteling" que acerta por simplesmente não ter nenhum medo de errar ou preocupação se a coisa está sendo feita para agradar alguém ou não.

Brandão, sempre cuidadoso com aquilo que faz (como ele mesmo afirma em suas palestras e mesas redondas em encontros ou nas aulas que ministra em seu estúdio e que se mostra aqui por seu traço preciso e limpo), apresenta a história "O Mundo é Bão Sebastião, mas Muito Mal Frequentado" sobre alguns instantes na vida do personagem do título. É perceptível no roteiro de sua história um maior desejo (consciente ou não) em "preparar o terreno" para a expressão natural dos pensamentos de Sebastião, assim, Daniel cria um quadrinho divertido por ser igual a tudo na vida que fica calado na maior parte do tempo para manter o convívio social, mas que aqui não se contém, nem se atém a regras ou estilos e faz tudo isso de maneira leve, como uma conversa num bar numa sexta após o trabalho ou um encontro casual entre amigos num churrasco. Sebastião fala o tempo todo para si mesmo enquanto conversa com o público, com o próprio Daniel e com quem mais aparecer sem ser egocêntrico ou egoísta, tornando-se sinceramente real e verdadeiro e conquistando o leitor por sua simplicidade.

Goldman, por sua vez, faz seu quadrinho mais pessoal e até mesmo intimista. Suas crônicas de uma página na primeira edição são densas, tanto em roteiros que podem desagradar leitores menos apurados, quanto nos desenhos que beiram ao "desleixado", o que desagradaria mais ainda os leitores que viram seu trabalho em "Comando V" e "Superman". A verdade é que, de propósito ou não, as duas coisas se relacionam perfeitamente e o ambiente de história desenvolvido é naturalmente humano, seja nas conversas do "personagem-Allan" com o leitor, seja em seus momentos de interação com outros personagens, todos tão verossímeis que não precisam de apresentação ou ajustes a estereótipos. Eles são o que são e isso é tudo. Devo confessar que o formato "crônicas de uma página" que se repete na segunda edição (de caráter bem mais leve que a primeira) é o que mais me chamou a atenção e mais me agradou como leitor de quadrinhos. Não sei se há o interesse em Goldman de continuar ou mesmo desenvolver de alguma forma sua narrativa dessa forma, mas espero ansiosamente para o próximo passo nesse esquema.

O último integrante de "Malucos", e co-editor com Allan, preferi anunciar agora pela qualidade singular de seu material. Mário Enderson (não esqueçam esse nome, crianças) é a melhor representação do espírito despojado e leve do quadrinho. Na edição inicial sua história parece tímida e quase eclipsada pelos nomes já conhecidos do gibi, mas é a que mais chama a atenção. Primeiro pelos desenhos muito benfeitos que misturam talento e técnica, dando um valor individual a seus quadros, mesmo que ainda um pouco "jovens" demais. Sua história nos faz recordar o já citado Pekar, mais como um aprimoramento pessoal da proposta do quadrinista norte-americano do que uma cópia dele. No entanto, repito, ele parece tímido nesse primeiro ato e o número de páginas dedicado a seu trabalho foi pouco, mais parecido com um teste do que com algo definitivo. É dele também o desenho da capa da ed. 1.

Na segunda edição, no entanto, Mário domina a revista de uma maneira que os autores já apresentados adicionados aos incríveis cartuns de Lene Chaves parecem convidados especiais em uma obra que é unicamente de Enderson. Seus desenhos se aprimoram e sua narrativa também. Seus quadros são ricos de informações sem serem poluídos e sua história é bem divertida e envolvente com sacadas bobas nas entrelinhas que a tornam geniais. Dessa vez ele não mais lembra Pekar e seu quadrinho poderia ter vivido por entre aqueles undergrounds sem ser julgado como cópia, mas como mais um igual entre iguais, com o detalhe de não necessitar de extravagâncias de traços ou zoação de roteiros para ser considerado um trabalhado de qualidade acima da média.

Enfim, de forma geral, "Malucos" é um quadrinho que possui uma linha cronológica: ao mesmo tempo que apresenta o resultado de toda a experiência que Daniel Brandão conseguiu no passado, mostra um vislumbre do presente de Allan Goldman e nos atrai pelo futuro oferecido pelo trabalho de Mário Enderson.

Aos que desejam conseguir o quadrinho, procurem por cópias do quadrinho no Estúdio Daniel Brandão. Quem sabe você não encontra os três autores lá, bate um papo e ainda ganha autógrafos.

3 comentários:

  1. Luís, cara, muito obrigado mesmo por toda essa divulgação no RoteiroZ & Apneia. Fiquei muito feliz em saber que você curtiu as histórias. O seu texto, sem dúvida, é o retorno mais positivo que a revista poderia ter. Valeu demais! Abraço!

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  2. Gostei muito dessa publicação independente. Os artistas estão usando esse veículo como uma válvula de escape criativo só possível no meio independente por pura negligencia das republicadoras. OS melhores quadrinhos que tenho visto estão vindo dos independentes.

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  3. Que nada, Mário, é uma honra pra mim comentar seu quadrinho. A qualidade do seu material é algo incontestável pra mim. E continue, quero ver bem mais do que essa ponta de iceberg. abraço

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