4.12.2011

RESENHA HERÓI Z

Certa vez, Alan Moore, em uma de suas poucas entrevistas, comentou que sob certos aspectos escrever "A Piada Mortal" foi um erro e que se ele pudesse voltar no tempo reescreveria essa história - possivelmente mudando inclusive o título dela - de uma forma em que ele pudesse explorar a inocência que algum dia Batman teve (TUM! SOC! POW!). Possivelmente a maioria dos fãs de quadrinhos modernos não concordariam com isso, mas um número cada vez maior de admiradores da nona arte começam a procurar obras onde a aventura está acima da violência, a justiça realmente prevalece e que juntar dois heróis tem uma simbologia mais de amizade que de tragicismo.

Absorvendo os conceitos dessa época, e tendo influências que vão da Era de Ouro da DC aos heróis Hanna-Barbera, os autores cearenses JJ Marreiro e Fernando Lima lançaram no último final de semana (9 e 10 de abril), no evento 3º +HQ em Sobral, o quadrinho Herói Z, o primeiro número de cinco de sua Série Âmbar através do selo Laboratório Espacial.com. A revista trás 4 histórias com personagens clássicos dos dois autores, Mulher Estupenda e Fantasma Escarlate, e novos, Paladino Veloz e Dragão do Mar. Todas as narrativas são completas e têm de 4 a 5 páginas.

Antes de mais nada, há um aspecto da Herói Z que salta aos olhos do começo ao fim: coerência - habilidade rara no mundo dos quadrinhos hoje em dia. Desde a abordagem clássica, já comentada nesse texto, passando pelos desenhos dos personagens e narrativas, até o trabalho de impressão, que tenta resgatar a nostalgia dos quadrinhos EBAL, JJ e Fernando apresentam uma obra que é apegada ao seu conceito e o mantém o tempo todo, sem enganar o leitor. Uma prova de sensatez que tem faltado à maioria dos autores independentes e que carece um pouco no leitor do mainstream. Assim, logo de início, os autores mostram seu trunfo, sem medo de que ali estejam entregando todo o ouro. Realmente não estão, e é preciso ler toda a revista para sentir que o espírito guardado no "cheiro" do impresso de longe é um ser incorpóreo que logo desaparecerá, mas é uma característica física e consistente da HQ como um todo.

Sendo assim, muitas escolhas felizes favorecem o gibi. Colocar a Mulher Estupenda para abrir as narrativas é uma decisão segura e esperta, tendo em vista que possivelmente é a personagem mais conhecida de Marreiro. O desing limpo e os desenhos caprichados do desenhista/roteirista são um diferencial mais que positivo e em alguns momentos dá pra ter a impressão que o visual de Johnny Quest permeia por aquelas linhas como uma referência amigável. A história, por sua vez, inicia e se desenvolve muito bem, com os personagens sendo apresentados e levados à aventura sem muitas delongas, no entanto, essa tática acaba funcionando como uma faca de dois gumes: o desenvolvimento apressado prejudicou o clímax e o momento do amadurecimento do personagem Hassim acaba sendo tão inferiorizado que perde parte de sua importância. O excesso de quadros por página também pode parecer mais um desagrado para o leitor regular, mas é visível que a pretensão de JJ é resgatar trabalhos que remetam aos primeiros quadrinhos de aventura que saiam em jornais na forma de tiras.

O Fantasma Escarlate de Fernando Lima, por sua vez, já caminha de maneira mais natural. Uma agradável página de explicação no início da história é uma jogada esperta e isso facilitou as coisas dentro do roteiro, onde o autor pode se preocupar mais com a ação e a nomeação de bugigangas tecnológicas, algo obrigatório em histórias de Ficção Científica. A arte de Fernando, por sua vez, tem o estilo dos comics da década de 80, com uma "pegada" pop bem característica. Sua dinâmica e escolha de enquadramentos também é de primeira. No entanto, assim como no caso da Mulher Estupenda, o Fantasma sofreu um pouco com a brevidade da história. Os leitores que já acompanhavam suas aventuras pelo site Armagem.com possivelmente sentiram que aquela foi a história ideal para a mídia impressa, mas imagino que o público que primeiro viu o personagem na Herói Z não se sentiu tão atraído assim, imaginando que ali há ação pela ação e nada mais. Talvez alguns quadros mostrando a interação entre os dois personagens principais não fizesse tanto mal assim à trama.

Até esse momento da HQ, o apressado leitor poderia se sentir um pouco tentado a não seguir adiante. Quem tomou essa decisão, temo dizer, infelizmente perdeu uma grande chance, mas quem arriscou continuar a leitura pôde verificar que realmente o melhor fica pro final.

Com designs que fariam Alex Toth se orgulhar, cenários ricos, cenas dinâmicas e cheias de ação e uma narrativa que mantém tudo no lugar, no momento e na velocidade certa, o Paladino Veloz protagoniza uma das melhores histórias da revista. E também é aqui que Marreiro mostra uma de suas grandes qualidades como quadrinista: a capacidade de apresentar um personagem novo de maneira rápida e segura, sem ter de passar milhares de quadros e páginas tendo de convencer o leitor de algo que já estava claro na primeira página e sem ter de diminuir ou suprimir a ação e de quebra fazer com que se sinta empatia pelos personagens dali - destaque especial aos alienígenas cabeçudos. A história é mais uma prova de que JJ é considerado um dos melhores autores de HQs do Brasil não à toa. Há uma segurança nas escolhas narrativas que torna tudo bem mais atraente. Alguns poucos ganchos também foram deixados pelo autor (não vou dizer, leiam e descubram) e se havia algum desejo de fazer o leitor procurar por mais aventuras daquele personagem, considero que foi alcançado com louvor!

O encerramento da edição, no entanto, não poderia ser melhor. O Dragão do Mar de Fernando Lima é o ponto alto da HQ. Os quadros de Fernando são todos sabiamente bem colocados, com os ângulos certos e diferenças entre preto e branco tão bem estabelecidas que a palavra "autoral" tem de ser separada do significado de "amador". Apesar do desing do personagem não ser um dos melhores - ok, pelo menos é melhor que o de muitos "reis" marinhos por aí - a escolha de seus "equipamentos" - uma característica marcante nas narrativas de Fernando - foi ideal. fora isso a história segue tão bem que a ausência de um vilão mais "pomposo" nem é sentida e o desafio é elevado pelas consequências da derrota, dando ao enredo uma força maior e fazendo clímax emocionante. No entanto, a escolha da temática, ao meu ver, é o grande diferencial, tendo em vista que aqui Lima trabalha a "moral" no final de sua história, apresentando uma consciência ecológica de fácil compreensão para um tipo de público que pra mim deveria ser alvo em algum momento na carreira de qualquer quadrinista: as crianças. Assim como J, ele também deixa vários discretos ganchos o que não prejudica seu final e ainda dá aquele desejo que a segunda edição chegue logo para que mais aventuras tragam mais do personagem.

Fim de resenha, há uma palavra final que deveria ser dita. Grandes autores imortalizaram grandes personagens em vários momentos da história. Muitas vezes elevando-os ao ponto dos deuses, outras vezes tornando-os tão humanos e críveis que as habilidades que os tornam especiais não passa de um detalhe. Assim, de maneira explícita ou não todos começaram a exigir tanto dos que produziam histórias de supers (de que fossem mais reais, mais cabeça, mais políticas, mais opiniosas, mais mais mais) que eles mesmos esqueceram a função inicial para o qual foram criados: divertir de maneira descompromissada ou mesmo ingênua. Não condeno a maneira de pensar moderna, eu mesmo sou um dos que fazem todas as exigências, mas é preciso lembrar que esses heróis estão vivos hoje porque permearam as mentes e sonhos de um grupo específico de público que, infelizmente, parece ter sido esquecido pelo mainstream: as crianças. E os infantes gostam de se divertir. E, sem sombra de dúvida, Herói Z consegue isso, possivelmente porque seus autores se divertiram muito fazendo-a.

4 comentários:

  1. Concordo plenamente, Luís! A revista é bem legal, e olha que talvez eu faça parte da parcela de público que você falou no primeiro parágrafo... Quem folheia a Herói Z e acha que vai encontrar apenas histórias ingênuas e inocentes vai cometer um erro em não dar uma chance à HQ. São dois artistas muito maduros dando aulas sobre como contar histórias curtas e até abordando assuntos sérios, como por exemplo na história do Dragão do Mar, que você bem destacou.

    Parabéns pela ótima e bem referenciada resenha!

    Abraço!

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  2. Zé, cara! Valeu! Muito bom mesmo ter vc aqui no Z&A! Vc é uma das pessoas q eu conheci na viagem pra Sobral q ganhou todo meu respeito e admiração. É uma honra tê-lo aqui e volte sempre!

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  3. Não conhecia estes artistas que você cita em sua bem realizada resenha.
    Concordo que o principal das hqs é a sua mensagem, independente da forma como é transmitida.
    Valeu a dica.
    Até mais.

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  4. Depois de algum tempo, fui ver seu comentário, Jacques. Desculpe não tê-lo visto antes, me mantive fora desse blog organizando outras coisa,s espero retornar em breve e devo dizer que me sinto extremamente feliz com seu curto, mas rico, comentário. Obrigado mesmo.

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