10.31.2011

REVIEW: BATMAN ANO UM: QUADRINHO + FILME


Dentre todas as coisas que acredito serem verdades no mundo dos quadrinhos, a genialidade de Frank Miller no início de sua carreira é uma delas. E incontestável. Inserido na minha visão e gosto pessoal do que é uma boa história, BATMAN ANO UM é o seu melhor trabalho, como história de super-herói, policial e um conto seguro, forte em suas simbologias e acessível a qualquer um, seja fã de quadrinhos ou não. Além disso, se levarmos em conta a época em que foi escrito, consegue um feito único, trazer realidade a um herói de fantasia spandex sem deturpar sua dignidade heroica e sem destruir seu espírito e honra que é o faz o morcego ser o mito que é. Em resumo, ele consegue ser real sem apelar para a destruição da figura do herói.

Recentemente, a DC Comics - e em sua onda, a Panini - nos convidou a revisitar a obra, em um encadernado e uma animação para DVD. Assim, decidi adquirir os dois para colocar na minha coleção de itens do Cavaleiro das Trevas.

O encadernado da Panini atrai pela capa dura, papel interno de qualidade e as páginas a mais do Mazzucchelli, mas o letreiramento ficou a desejar, principalmente nas narrações de Bruce Wayne, bem como a revisão, dando a impressão de se pegar um material bonito, mas que parece ter sido feito às pressas em suas últimas etapas do processo - em especial cito a 4ª capa da HQ, informando que há uma introdução de Frank Miller, quando quem faz a introdução é Dennis O'Neal e o texto de Miller - muito meia boca - aparece no final.

Isso, no entanto, não atrapalha a apreciação da obra. O texto de Miller está em sua melhor fase - ele usa elementos de filmes policiais e seu próprio toque pessoal concentrando a narrativa em Bruce Wayne se tornando Batman e em Gordon chegando a Gothan e trabalhando até o posto de comissário, limando arestas e removendo inutilidades, com um polimento excepcional dos desenhos e storytelling de Mazzucchelli, os quais ainda são prodigiosos e melhores que muita coisa atual e moderna. As páginas a mais do desenhista da série também são um carinho muito bem dado aos fãs e curiosos do processo criativo. As cores - mais "lavadas" - não desanimam, apesar de não terem o charme do primeiro impresso - que se bem não me engano foi feito em papel jornal - e estão bonitas e sombrias. Uma obra que com certeza é superior às suas falhas editoriais.

Quanto à adaptação da animação, essa sim é surpreendente. Não por ter "adaptado" algo (como foi o Batman Begins de Chris Nolan que se utilizou de muitos elementos de Ano Um e de sua temática, mas preferiu seguir seu próprio caminho), mas por - assim como Sin City - ter literalmente animado o que já estava feito. Desde o traço de Mazzucchelli, até as cenas e falas são repetidas em detalhes, dando-se a impressão de estar-se lendo um "video-comic" de alto nível. Poucas são as ressalvas quanto ao filme - de repente Bruce e Selina foram colocados no mesmo nível de combate - e as adaptações para um público maior, quando raramente ocorrem, não danificam ou desvirtuam a obra.

A animação em si também é de extrema qualidade. As cenas de luta estão bem coreografadas e a ação possui um "que" de Cowboy Bebop que se adequa perfeitamente ao filme, mesmo que por vezes pareça irreal demais. Afinal, sem pensar muito os realizadores fizeram toda animação como um filme noir. Mais sábio e simples, impossível. Destaque mais que especial ao comissário Gordon, um personagem tão forte, seguro e atraente que em vários momentos eclipsa a figura do morcego, e uma figura que Miller sempre soube trabalhar muito bem.

Há uma série de movimentos na internet pelo novo, o original. Isso com uma certa pressa e criticismo que, na verdade, tem levado as pessoas a fazerem obras razoáveis ou mesmo ruins, sempre preocupadas com arrecadação obtida de alguma forma por aquilo, de maneira que justifique seu tempo e paciência gastos, ao invés de objetivarem a boa história sendo contada, com personagens atraentes e uma trama minimamente inteligente - ou ao menos não pretensiosa. Ao meu ver, esse "erro" em saber lidar com a própria obra vem - também - de um mal estudo do passado, daquilo que foi feito e considerado bom, de qualidade, muitas vezes por pura irresponsabilidade do produtor - ou orgulho ou da já falada pretensão, enfim... - outras vezes por acessibilidade (que soa a desculpa esfarrapada, nesses tempos de rede mundial...). Assim, quando uma obra como BATMAN ANO UM é relançada e apresentada em uma nova mídia, merece uma observação mais apurada, mais detalhista para que se possa aprender com o que é considerado excepcional.





Para quem está interessado em assistir a obra e conversar sobre as diferenças entre as duas mídias, o GRUPO DE CINEMA 24 QUADROS, em uma parceria com o FÓRUM DE QUADRINHOS DO CEARÁ, realizará uma exibição GRATUITA do filme no dia 18.11, 18:30, na GIBITECA DE FORTALEZA (Av. da Universidade, 2572). Não deixe de ir!



10.28.2011

ENTREVISTA COM FRED MACEDO, UM COWBOY DOS QUADRINHOS


Fred Macedo.

Fred Macedo é um dos maiores artistas de quadrinhos surgidos em Fortaleza nos últimos anos. Suas parcerias incluem Daniel Brandão e Wilson Vieira e seus trabalhos foram publicados no Brasil e na Europa. Durante a edição deste ano do FIQ, teremos Fred Macedo como um dos quadrinistas da HQ Stranodisponível na mesa do Fórum de Quadrinhos do Ceará. Confira a entrevista que ele concedeu ao Z&A!

1. Falando de formação, Fred, em que momento você decidiu que essa era "a carreira" e como você começou nessa caminhada?

Bom, antes de mais nada, agradeço ao roteiroZ & Apneia pelo convite. Poder participar deste espaço tão bacana para os fãs das HQs em particular e das artes e cultura em geral é um prazer e muito me prestigia.

A coisa foi mais ou menos assim, até 2005 eu estava completamente afastado de toda e qualquer atividade artística, à exceção de algum eventual rascunho em folhas de guardanapo ou cantos de agenda, era o comichão artístico sempre a provocar. Durante mais de 15 anos, fiquei trabalhando como corretor de seguros. Por volta dos meus 18 ou 19 anos não vi perspectiva de ganhar dinheiro como quadrinhista ou ilustrador, então fui estudar engenharia (adoro ciências), mas também abandonei o curso pelas contingências que o trabalho como corretor de seguros foram impondo, bem como por uma certa falta de estímulo e maturidade. Era muito desalentador estudar engenharia e vender seguros. Como o seguro era quem pagava as contas, optei por ele. Foi então que em 2005, o pai do Geraldo Borges, que além de um bom amigo é também corretor de seguros, entrou em contato comigo a pedido do Geraldo (ou foi o próprio Geraldo que pediu o telefone ao pai e me ligou depois, não lembro) informando de um evento sobre quadrinhos que estaria se realizando no Centro Cultural Dragão do Mar, o Panorama 9ª Arte. Até então, eu não pensava mais, pelo menos conscientemente, em quadrinhos, mas resolvi ir para o evento. Chegando lá e após assistir várias palestras, percebi como as coisas estavam mais fáceis para quem quisesse trabalhar como desenhista de HQs, particularmente por causa da internet e a viabilidade de se encaminhar testes para agências e até editoras. Foi lá também onde conheci, através do Daniel Brandão, o pessoal que estava reativando a Oficina de HQs da UFC. Então, eu pensei, “a hora é essa”! Me juntei ao pessoal da Oficina tendo em vista aprimorar meu entendimento da linguagem dos quadrinhos. Nunca tive muitas dificuldades com desenho, mas fazer quadrinhos não é a mesma história, você tem que conhecer a gramática da arte sequencial para fazer um trabalho legal e estabelecer uma boa narrativa visual. Foi aí que passei a investir mais, comprei os livros do Eisner (Narrativas Gráficas e Quadrinhos eArte Sequencial), os do Scott McCloudPaulo RamosValdomiro Vergueiro e em 2008 fiz vestibular para o curso de Licenciatura em Artes Visuais do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia, que me encontro atualmente cursando. Respondendo à sua pergunta de forma mais objetiva, decidi-me a levar uma vida como artista, quadrinhista e ilustrador em 2005, durante o Panorama Nona Arte. Devo dizer que a minha esposa teve um papel fundamental nisso tudo, pois, não fosse ela, eu não teria ido para o Panorama Nona Arte nem teria me inscrito no vestibular. Ou seja: “a culpa é dela...” (risos)

2. É incrivelmente importante para um artista - independente de ele ser de quadrinhos ou não - fazer com que seu trabalho possa ter alguma identidade, um aspecto que, de longe, nos faz perceber de quem é determinada obra. Sua arte é bastante detalhada e possui um aspecto bem único com uma "face" inconfundível e uma beleza visceral e dinâmica. Como e quando foi que você deu esse caráter ao seu trabalho, foi algo pensado - você imaginou um modelo e foi se talhando a essa visão - ou surgiu naturalmente?

Olha, toda vez que me perguntam sobre identidade artística, estilo e principalmente sobre influências, eu descubro um artista novo que de alguma forma me inspirou e que eu não lembrava. A questão é a seguinte, cada artista tem um jeito próprio de fazer uma coisa. Qual o trabalho do desenhista? Achar soluções gráficas que lhe permitam representar num plano bidimensional coisas que ele vê na realidade tridimensional. O desenhista de quadrinhos vai um pouco mais além, no sentido de que ele tem que encontrar soluções gráficas não só para o desenho em si – uma árvore, textura de pedra, etc – mas como dispor tudo isso numa página de tal forma que haja uma coerência visual e um atrativo dramático estabelecidos dentro da narrativa sequencial gráfica. O que quero dizer com isso é que no decorrer da minha vida acabei por “pilhar” algumas soluções que encontrei pelo caminho. No final das contas, vários foram os artistas que de uma forma ou de outra me apresentaram soluções inteligentes e elegantes do desenho que vão desde uma textura, passando pela luz e sombra, um layout de página dinâmico, etc e que aproveitei e/ou adaptei para a minha personalidade artística ou estilo. Nesse aspecto acho que tive muita sorte, pois não me ative a imitar um artista, mas a colher entre muitos os saberes que eles construíram durante sua jornada profissional. Acho que isso me ajudou a construir uma certa identidade pessoal. Não foi de caso pensado até onde me lembro, creio que tive sorte em fazer escolhas certas e assumir uma postura de não imitar. Obviamente que alguns artistas tinham um estilo que me atraía mais. Sou de uma época, final dos anos 70 e início dos 80, onde o que era publicado aqui tinha um certo atraso em relação aos títulos que vinham de fora. Mas acho que esse anacronismo me foi favorável. Acabei tendo contato com trabalhos de artistas que são referência até pela formação que tiveram. Por mais injusta que possam ser as “listas de favoritos” ou de “esses são minhas influências”, não posso deixar de render homenagem àqueles que sempre me acompanharam durante minhas horas de estudo nos desenhos e cujos trabalhos, posso dizer, foram uma base sobre a qual pude agregar outros conhecimentos. Lembro-me que a minha primeira grande impressão sobre o estilo de um desenhista em particular, daquelas que a gente pensa, “eu quero ser esse cara”, foram as histórias do Tonto (companheiro do Lone Ranger) desenhadas pelo Alberto Giolitti. Acho esse cara fantástico. As minúcias do seu trabalho, o zelo com cada detalhe, a preocupação com as referências e a representação fiel são até hoje impressionantes. A preocupação que ele tinha com as referências era tamanha que, na época em que desenhava o título Sargento Preston, pela Dell Comics, se não me engano, chegou a ir morar no Canadá para ter mais contato com os trenós que desenhava. Fiquei fascinado quando li esta história anos mais tarde. Também me causaram uma impressão formidável o Nick Holmes (RipKirky) do Alex Raymond e John Prentice,O Príncipe Valente do Hal Foster, o Fantasma do Sy Barry, o Conan do John Buscema, a arte final do Alfredo Alcala e Tony Dezuniga, o Jonah Hex e Esquadrão Atari do José Luis Garcia Lopez, o Tex do Giovanni Ticci quando da primeira fase do seu trabalho com o personagem (vale salientar que o Giovanni Ticci trabalhou no estúdio do Alberto Giolitti na década de 60), o trabalho do gênio Victor De La Fuente e por aí vai. Recentemente tenho estudado os trabalhos meticulosos do David Finch e o traço ágil do Greg Capullo. Acho o David Finch um prodígio. Ah, quase esqueço o Giorgio Cavazzano. Pecado mortal... Bom, como disse, toda lista é invariavelmente injusta, de antemão peço desculpas aos outros mestres que não citei, muito embora de um jeito ou de outro tenham me influenciado,mas eis a minha lista (eternamente incompleta) das pilhagens mais reiteradas.


3. Existe algum artista que você não gosta, mas que possui um virtuosismo - ou alternativa pra expressão de arte - que você utiliza como forma de aprendizagem?

Confesso que sempre que penso em não gostar de um artista me lembro o quão importante é a diversidade, não só na arte, mas na vida em geral, sem falar no quanto isso é arrogante e esnobe vindo de um artista. Tá certo que é impossível refrear o incômodo que certos trabalhos causam, mas tenho olhado as coisas de forma mais crítica e tentado entender as razões desses artistas. Todo mundo tem algo a ensinar e a aprender. Bom, posso dizer que não curti muito do que se fez nas HQs de super heróis na década de 90. Ia citar o Rob Liefeld, mas isso todo mundo já faz (Já citei, né?). Dessa época achava os traços de uma mesmice, poluídos e sem graça. Claro que tinha exceções. Penso o quanto desse clima concorreu para eu me afastar dos quadrinhos por um bom tempo. Quanto às alternativas que eu curto existem vários. Sou prolixo como desenhista, mas aprendi a gostar da simplicidade de certos profissionais. Eu tinha na minha cabeça, antes de me voltar aos estudos dos quadrinhos em 2005, que cada quadrinho em uma HQ deveria ser como uma pintura neoclássica: fotográfica, fiel à realidade física que representa, sem deformações anatômicas. Eu ainda tenho muito dessa coisa de querer preencher com desenho todo espaço que encontro. Tremenda besteira! Nos quadrinhos as coisas não funcionam assim. É muito bacana você ver um desenho bonito, bem trabalhado, cheio de minúcias, quem não gosta? Mas veja você caras como o Mike MignolaJordi Bernett, Hugo Pratt e o Ivo Milazzo. Quem teria a ousadia em dizer que o trabalho deles não é eficiente e belo? Uma prancha do Corto Maltese nem de longe parece uma pintura Neoclássica, mas veja só como o minimalismo do Hugo Pratt cumpre de forma competente sua função. Uma HQ dele é pura emoção e a nossa vista ainda respira nos vazios que ele deixa. Parece o desenho para uma aquarela. Não posso deixar a minha personalidade artística de lado, pois isso é algo anímico, mas com artistas como esses eu tenho procurado ser mais eficiente não só aprendendo aquilo que existe de mais fundamental e funcional na linguagem do desenho mas também nas regras da  narrativa seqüencial gráfica.


Fred Macedo e Wilson Vieira.
4. Fred, você publicou histórias fora do Brasil – Argentina, Portugal e Itália – através de seu amigo e parceiro Wilson Vieira, entre. Fala um pouco de como foi essa experiência, seu contato com o Wilson, o retorno que teve de fora (se teve) por meio de artistas e leitores.

Olha, essa parceria com o Wilson foi fundamental. O Wilson me encontrou no meu fotolog, acho que no final de 2005 ou início de 2006. Somos ambos fanáticos por faroeste e ele viu uns estudos de mãos e armas que fiz e me escreveu perguntando se eu não queria desenhar umas histórias suas. Ele me mandou um roteiro(faroeste, é claro), eu adorei. Na ocasião eu não tinha a menor ideia de quem era o Wilson e da importância dele para os quadrinhos brasileiros. Ele morou e trabalhou com quadrinhos na Itália, desenhou vários episódios completos de Piccolo RangerLa Furia del WestL´Uomo-Ragno (Homem Aranha), TarzanDiabolikDavy Crockett, e dezenas de outros personagens. Creio que foi o primeiro brasileiro (me perdoem se estiver errado) a desenhar para a Bonelli Editore. Aqui no Brasil ele tem trabalhos em parceria com o Colonnese e Mozart Couto, só para citar dois, sem falar que traduziu alguns volumes do Ken Parker. Essa é uma breve credencial do cidadão. Aprendi muito com o Wilson. Ele é um cara de uma capacidade de trabalho fantástica, não só porque parece incansável, mas também pela qualidade e maturidade do que faz e pelo seu envolvimento com as HQs. Ele respira isso noite e dia (risos). Enquanto eu desenhava as histórias dele trocávamos muitos e-mails, discutíamos páginas, cenas, layouts, referências fotográficas que ele mandava aos montes, construção de personagem, ele me deu dicas preciosas que tenho comigo até hoje. Muito embora ele tenha toda essa bagagem, a sua postura sempre foi de extrema simplicidade e humildade. Nunca teve problema em acatar as minhas sugestões. Em 2008 estive em São Paulo e tive a oportunidade de visitá-lo com minha esposaem sua residência por duas ocasiões. Conversamos muito sobre quadrinhos, comi uma gostosa macarronada, conheci sua simpática esposa, além dele me mostrar seus projetos futuros (MUITOS!!). O Wilson é o tipo do roteirista que deveria ter uns 10 desenhistas trabalhando para ele. Ele tem muito material escrito. É extremamente profícuo. Em 2009, eu entrei para a faculdade e deixei o trabalho para viver de arte, meu tempo ficou meio aperreado, mas ainda quero desenhar coisas dele. O Wilson não só é um referêncial para mim como um bom amigo. Ainda trocamos alguns e-mails. Quanto ao retorno dessa parceria, fora o próprio trabalho que fizemos juntos, que já é uma grande paga, ele me ajudou a montar um portfólio bacana. Trabalhar com ele tem um forte peso. Isso deu mais credibilidade para mim e abriu portas. Estou me aprimorando todo dia, mas com esses trabalhos acho que alcancei mais maturidade. Graças à publicação na Itália consegui contatos interessantes. Fiz uma ilustração especial para o livro Guida BonelliTutte Le Edizioni Straniere, do escritor e pesquisador italiano, Antonio Mondillo. Ele me escreveu e veio à Fortaleza, onde nos conhecemos. No seu livro, colocou umas notas biográficas minhas (na mesma página onde estão as dos artistas Dave Gibbons e Mike Mignola, por exemplo). Tive outras duas (ou três) ilustrações publicadas ali e essedesenho especial do Tex na Pedra Furada de Jericoacoara, que ilustrou o prefácio do livro. Com o Wilson tive uma HQ de faroeste publicada em Portugal na mesma edição que uma HQ do Tex desenhada pelo Giovanni Ticci. Era um especial de western e a segunda vez que o Tex saia numa publicação portuguesa. Foi uma edição muito celebrada e que foi lançada no 19ºFestival Internacional de Banda Desenhada da Amadora, em Portugal (2008). Nessa publicação tem uma entrevista comigo que depois foi comentada em carta, assinada a próprio punho, pelo Sergio Bonelli para o Zeca do Blog do Tex. Imagina o que é ter seu nome citado pelo Sergio Bonelli? Nem o Stan Lee me traria tanta alegria (risos).São coisas que vão acontecendo como consequência de um trabalho honesto e justo. Em grande medida devo isso ao Wilson!

5. Ainda sobre mercado internacional, você desenhou um quadrinho inspirado na banda Iron Maiden, o qual usou como base o álbum "The Seventh Son of a Seventh Son", de 1988. Como foi fazer esse trabalho? Você preferiu fazer uma versão mais sua cara ou procurou artistas ligados à banda, como Derek Riggs (criador do personagem Eddie TH) ou Melvyn Grant? Você escutava as músicas enquanto produzia (risos)?

Começando pela última pergunta: sim, “escutei” o álbum umas duas ou três vezes e cheguei a fazê-lo enquanto desenhava de madrugada. Eu ficava vendo imagens, vídeos e músicas meio funestas para sentir medo e entrar no clima (risos). Confesso que esse gênero musical não é a minha praia, mas também não achei ruim. Até me surpreendeu porque eu pensava que fosse algo mais pesado e agressivo. Devo só lembrar que esse trabalho foi uma encomenda do Hamilton Tadeu, editor da NFL Comics. Ele foi o responsável pela adaptação e eu fiz só a concepção gráfica. A estética do Heavy Metal sempre me agradou, gosto desse visual sorumbático, meio apocalíptico, das histórias de terror, sempre quis fazer um trabalho em quadrinhos assim... sou fã do Bernie Wrightson!!! Fiz muita pesquisa de imagens e li as letras da banda. Desenhar essa HQ foi uma loucura porque o editor queria publicar quando da vinda da banda aqui, creio que foi em maio ou março do corrente ano e eu tive que desenhar umas quarenta páginas, incluindo capa dupla, em mais ou menos quarenta dias. Cheguei a fazer três páginas em um dia na reta final. Nos três últimos dias eu dormia umas três horas por noite. Não acho isso bom, pois compromete a qualidade do trabalho, pelo menos como eu gosto de desenhar, com cuidado, com todos os detalhes que julgo necessário. Não que o trabalho não tenha me agradado, só acho que não deu tempo de fazer tudo que eu queria. Mas devo reconhecer que para o prazo que tivemos demos o nosso melhor e não poderia ficar melhor do que estava nessas circunstâncias. A única coisa que usei do Derek Riggs foi a imagem do Eddie.


Trabalho para a Oficina de Quadrinhos da UFC.
6. Saindo um pouco da seara dos quadrinhos, mas não fugindo das artes. Como estudioso de Artes Visuais, qual os artistas - pintores, escultores, ou mesmo um período artístico - que você mais admira?

Meu irmão, que enrascada. Tem muita coisa que eu gosto em arte. Acho fantástica a pintura rupestre da pré-história. Veja como os caras acharam soluções fantásticas de representação de animais. Não é só o desenho, a linha, mas a cor e o vigor da forma. Eles variavam o traço e a cor conforme a pujança do animal; os bisões tinham linhas fortes, enquanto cavalos e cervídeos traços leves e ágeis. Veja que percepção soberba. Eles já sabiam em pleno período paleolítico que um traço não é simplesmente um traço. O seu delinear cumpre uma função visual conferindo “movimento”. A gente faz isso até hoje nos quadrinhos! Gosto muito da escultura do período da Grécia clássica. Creio que a percepção, dentro da representação artística da anatomia humana, de que a oposição de membros tensos e relaxados, combinada a uma representação adequada do tronco conferindo mais dinamismo ao personagem, nasceu aí. Também curto muito a austeridade da arte bizantina, as iluminuras dos monges copistas, o resgate das tradições clássicas da renascença, a tensão do barroco, as pinturas de gênero da arte holandesa (adoro Vermeer), as representações marmóreas das pinturas do neoclássico, a explosão de sensações do romantismo, o vigor da pintura russa de fins do século XIX, a fase mais sombria do Van Gogh (Os Comedores de Batatas), as formas orgânicas do Art Nouveau, o senso de humor refinado do Norman Rockwell, chegando até aos artistas contemporâneos como Ron MueckVik Muniz e por aí vai. Rapaz, tem muita coisa bacana na arte. Quase esqueci do Pedro Américo e Raimundo Cela, dois gênios! Se você parar e olhar vai ver que quem pensa que anda inventando a roda em termos de arte só não se deu ao trabalho de ler um pouco. Se você observar tem muitas coisas dos quadrinhos que foram influências das escolas artísticas tradicionais. Os corpos retratados por Michelangelo na Capela Sistina são heroicos, tem quadros do alemão Caspar Friedrich que poderiam perfeitamente ilustrar a capa de uma HQ do Alan Moore, só para citar dois casos. A arte é espetacular e nosso tempo vida não dá conta de tudo de bom que foi feito ou do que a gente deseja conhecer. Ars longa, vita brevis.


7. É incrivelmente importante pra alguém envolvido com arte saber "beber" em outras fontes, enriquecendo seu trabalho com visões de várias outras mídias e expressões. Nisso, há alguma obra fora dos quadrinhos - ou artista - a qual você sempre retorna para ter inspiração?

Você vai no nevrálgico, hein? Tem, sim. Cinema!!! Adoro cinema! Se você quiser ter uma visão legal da linguagem dos quadrinhos assista filmes. Tem um cara de quem sou super fã e que possui umas sacadas muito legais, o Sergio Leone. Tem dois filmes dele que acho espetaculares: Três Homens em Conflito (também conhecido como: O Bom, O Mal e O Feio) e Era Uma Vez no Oeste. Acho que são não só os dois maiores faroestes de todos os tempos, como podem ser encaixados entre os 100 melhores filmes de todos os tempos. O primeiro é mais ágil e muito divertido, o segundo é mais lento e de um tom mais épico, mas ambos tem obrigatoriamente que fazer parte de qualquer antologia do cinema que se preze. Os planos, ângulos de câmera, iluminação, figurino, cenário, etc,  são uma verdadeira aula de cinema e muito inspiradores. Obviamente que aqui tem um fator que não conta diretamente para os quadrinhos, mas que tornaram esses filmes antológicos, que são uma trilha sonora memorável. Ennio Morricone foi um gênio da música do gênero. Adoro ouvir as trilhas sonoras dele. Curto muito também o cinema expressionista alemão. Nosferatu é de longe o melhor filme de vampiro já feito. As cenas onde o Murnau usa a sombra do Max Schreck como recurso dramático (em 1922!) são memoráveis. Tem também o cenário desconcertante do Gabinete do Dr. Caligari, também muito bom (A Noiva Cadáver e O Estranho Mundo de Jack que o digam). Gosto dos filmes de terror produzidos pela Universal, Frankenstein e a Múmia com o Boris Karloff, o Drácula do Bela Lugosi (meio ridículo, mas tem seu charme) o Lobisomem com o Lon Chaney Jr e por aí vai. Tenho visto muita coisa bacana nos Games. Achei o Red Dead Redemption bem interessante. Pegaram o faroeste e deram um roupagem interessante para a garotada atual. Gosto do God of War também. Nunca joguei, me refiro ao visual.

8. Hoje as modernas tecnologias sugerem novas e interessantes formas de leitura, produção e divulgação de quadrinhos. Você, como artista tradicional e colecionador de quadrinhos – Fred possui uma coleção enorme de TEX –, acha que essas novas mídias vieram para facilitar uma sociabilização da cultura de quadrinhos ou elas distanciam o leitor "comum" da arte sequencial?

Eu acredito que tudo o que o homem faz de boa fé é bem vindo. Se a coisa desanda é pelo mau uso e não pela coisa em si. Acho que a internet, o uso de tablets para leitura, mesas digitalizadores para desenho e colorização, a feitura de HQs eletrônicas, ou “HQtrônicas”, como chamam alguns, por exemplo, são desdobramentos naturais e fantásticos das inovações tecnológicas e importantíssimas não só para a divulgação e produção de HQs como para atender a demanda dos novos públicos intimamente ligados à tecnologia digital. Não tem como parar isso e mesmo que tivesse não deveriam. Não dá para parar a tecnologia, seria uma atitude ilógica e reacionária. Se tivéssemos essa pretensão, não usaríamos canetas, picos de pena, pincel ou lapiseira, nem imprimiríamos em papel porque estes materiais também são frutos da tecnologia. Gosto de desenhar em papel e usar nanquim, mas sempre trato digitalmente o meu material. Isso é um aprimoramento. A HQtrônica, esse negócio entre a HQ, a animação e o game, pela sua interatividade em alguns casos, talvez seja mais um gênero híbrido de mídias afins e é consequência da curiosidade, inovação e inquietação, diga-se de passagem, bem vindas do ser humano. Acho que a internet sociabiliza a leitura de HQs e até estimula a compra de material impresso. Leio material online, não muito, pois a taxa de leitura no monitor é mais baixa que no papel, além de cansar, mesmo num tablet, além do que nada substitui o manusear sensual de uma página impressa e o cheiro de papel novo, mas tem muita gente que passa a colecionar HQs impressas porque gostou do personagem na mídia digital. Não fosse a internet eu não teria acesso às clássicos do Alberto Giolitti da época em que ele desenhava para o mercado americano, como a Dell Comics e Golden Key (Western Publishing). Eu achei pérolas dele como duas adaptações de clássicos, um da literatura, Lord Jim de Joseph Conrad e outra do filme King Kong de 1933. De que outra forma eu teria acesso a este material da década de 60 se não fosse a boa vontade do colecionador que o disponibilizou na net? Sou uma prova viva da sociabilização das HQs na internet. Quem curte quadrinhos, curte animação, cinema e outras mídias afins que surgem como hibridismos daquelas.Acho que as novas mídias são mais uma possibilidade dentro de um leque cada vez maior para a escolha do freguês. Bom, quanto a minha coleção do Tex infelizmente perdi muita coisa para as traças, fungos e outros inimigos do papel. Espero que tenham tido muita dor de barriga.Hoje em dia só compro material que posso usar como referência para o desenho ou se a história for muito boa. Não coleciono mais só por fidelidade ao personagem.
Tex por Fred Macedo.
Ao fundo a Pedra Furada em Jericoacoara.

9. Há algum quadrinho/trabalho/personagem que você sonha em ser convidado a fazer?

Sim. Vários! Eu não sou muito fã de quadrinhos de super-herói, já li muito, mas adoraria desenhar esses personagens do segundo escalão: Luke CagePunho de FerroShang Chi (adoro o Mestre do Kung Fu – bons tempos do Paul Gulacy e Mike Zeck), Justiceiro, etc. Gostaria muito de desenhar algo assim. Gosto do “mundanismo” de suas histórias. Também tenho um sonho de consumo: o Jonah Hex. Bom, já que estamos sonhando alto, quem sabe um arco do Tex.


10. Uma pergunta pra fechar de vez: o que você tem lido/assistido/ouvido atualmente em termos de quadrinhos, filmes, séries, músicas?

Vamos lá: estou com grande defasagem na leitura de novos quadrinhos, o que tenho feito no máximo é ver o que os artistas têm desenhado. Fico sempre buscando material novo para estudar, particularmente do David Finch e Greg Capullo. Gosto também da arte sarcástica do Skottie Young e do Humberto Ramos. Leitura nova que é bom nada. Isso não é bom para alguém que dá aula de quadrinhos. Pode ser uma enrascada. Tenho lido mais os quadrinhos antigos: ConanPreacherAsilo ArkhamCalvin e Haroldo, li umas coisas antigas na net do Bernnie WrightsonNestor Redondo e Al Williamson. Na verdade do Al Williamson tenho muita coisa da minha coleção do Hulk da década de 80. Desenhos de Star Wars. Quanto aos filmes estou tirando o atraso agora, vou ver o Lanterna Verde e o Capitão América, se o filhote deixar. Mas sempre assisto material que tenho em casa, adoro rever certos filmes: Conan, o bárbaroBlade RunnerAlien, o oitavo passageiroO Planeta dos Macacos (1968), Os Sete SamuraisYojimbo (gosto do Kurosawa), O Sétimo SeloShaolin Contra os Doze Homens de Aço (adoro cinema de kung fu principalmente das décadas de 70 e 80 produzidos pela Shaw Brothers e Golden Harvest, esses filmes “B” bem toscos! Adoro a sonoplastia dos golpes! risos), etc. Ah, ia esquecendo, assisti duas comédias espetaculares - revi, na verdade - A Dança do Vampiros, do Roman Polanski que é muito engraçado e que dá muito medo apesar de ser uma comédia (gosto de assistir de madrugada e sozinho). Esse filme tem um segundo título em inglês que acho muito interessante, o primeiro é The Fearless Vampire Killers (a tradução para o português é sempre estranha, né?) e o segundo é Pardon me, but your teeth are in my neck, que é um título já carregado de sarcásmo. Quem não conhece deveria ver. O outro é A Incrível Armada de Brancaleone, uma sátira às histórias de cavalaria e ao Dom Quixote. Quanto às séries, estou acompanhado como fã fiel The Walking Dead. Gosto muito. Também curto Futurama, os SimpsonsBones e tenho visto The Big Bang Theory porque os colegas da faculdade falaram muito e fiquei curioso. Minha esposa fica indignada quando assisto The Big Bang Theory. Coisa pra nerd, mesmo! Quanto a música curto tudo o que NÂO seja forró, axé, sertanejo, pagode, funk e certas músicas religiosas. Gosto de bossa nova, jazz, alguns clássicos (Corelli, Vivaldi, Canto Gregoriano, etc), rock e me divirto as vezes ouvindo brega.


10. Pra finalizar, em que você tem trabalhado atualmente? Podemos esperar por novos quadrinhos de Fred Macedo vindo aí?

Sim, estou trabalhando em duas HQs novas. Já tenho umahistória pronta há mais de um ano, que desenhei a bem mais tempo que o Iron Maiden, mas que ainda não foi publicada. Estou desenhando a continuação dessa história e outro trabalho em colaboração com outros artistas.A coisa tem andado lenta por conta de outras contingências, mas breve espero terminar esse material. Fora isso, tenho feito algumas ilustrações, capas de livros, colaboração para a Revista Universidade Pública, dando aulas de desenho e quadrinhos e por aí vai.

Abraços a todos!J


Página da história Evolution na HQ Strano.

Conheça a HQ Strano, trabalho de Wilson Vieira que conta com artes de Fred MacedoAllan Goldman e Daniel Brandão na mesa do Fórum de Quadrinhos do Ceará no FIQ, de 9 a 13 de novembro em Belo Horizonte!

10.24.2011

10.17.2011

RELEMBRANDO COISAS E UNIVERSOS... AKIRA



Quando criança, meu mundo de entretenimento envolvia os heróis uniformizados dos quadrinhos, as animações das manhãs de sábado (que nos anos 80 visitavam quase 30 anos de animações para cinema e TV) e as sessões da tarde. Basicamente, trabalhos norte-americanos. Até o momento o Japão era a estranha fonte de um tipo de seriado que aprendi anos depois  que se chamava tokusatsu. Nada mais.

Eram meados dos anos 1990 e os quadrinhos passavam por um período péssimo, bem como todas as animações, filmes e seriados que eu adorava viviam reprises insistentes na TV, como um looping temporal que acabava desgastando lembranças boas. Por uma total falta de opções, voltei a ler livros e em menos de 6 meses eu tinha vivido um processo vertiginoso que passava pelos clássicos brasileiros, espanhóis, ingleses, literatura policial e muito luxo e lixo - como aprendi anos mais tarde no curso de Letras. Assim, quase não percebi a invasão japonesa que se deu com "Cavaleiros do Zodíaco", descobrindo o seriado lá pela sua segunda ou terceira reprise, o que não diminuiu minha surpresa. "O que acontece lá no Japão pra eles fazerem isso?", foi o que pensei. Realmente, alguma coisa diferente se guardava atrás daqueles grandes olhos brilhantes.

Eu acho que deveria ter uns 14 a 15 anos quando vi AKIRA pela primeira vez. Foi quase um acidente. Eu estava zapeando, esperando ver algo interessante, quando em um dado instante eu vi uma moto vermelha faiscante cortando a tela e anunciando um horário (23:00) na rede Bandeirantes. A imagem me fascinou completamente, mas eu não conseguia entender porque tinham colocado um desenho animado no horário dos filmes de soft porn, como "Emanuelle". Enfim, decidi esperar pra ver o que era aquilo.

E eu vi.

Uma das cenas iniciais de AKIRA é de um dos personagens sendo alvejado por balas. Eu me vi sendo atingido pelo filme da mesma forma. Tudo na animação era irreal para mim, simplesmente porque parecia real demais e visceral e doentio. Confesso que o enredo me pareceu muito confuso, mas as cenas, as escolhas de câmera, a movimentação, a ação... não pareciam de uma animação, mas de um filme feito por pessoas coloridas com tinta. Aquilo foi impactante demais pra minha adolescência e me fez decidir que era aquele tipo de loucura que eu queria ler, assistir, ouvir.

Assim, um novo mundo se abriu pra mim e nele havia "Metrópolis", Sex Pistols, "Blade Runner", "Neon Genesis Evangelion" e Frank Miller - todos pertencentes a um legado que para mim tinham AKIRA como uma das vértebras de uma sombria espinha dorsal, fonte de um passado audacioso e porta para um futuro livre e libertino. Todo tipo de mídia que parecesse respirar a mesma atmosfera de Neo-Tokyo tornou-se mais que atraente, mas uma estroboscópica estrada empoeirada, feita de metal retorcido por poderes psíquicos, avançadíssima tecnologia labiríntica e personagens que riem diante do fim dos tempos.

Procurei sobre o filme tudo o que era possível ter acesso para um garoto secundarista na época: revistas, documentários, matérias. Quando soube que o mangá tinha uma versão americana, corri para escavá-lo em sebos, mas os donos de bancas e gibiterias pareciam conhecer o valor da obra, e os R$30,00 a R$60,00 cobrados por edição eram demais para mim. No entanto, tudo vem com o tempo e anos depois a versão importada da Dark Horse chegou em minhas mãos e, apesar de ter sido alterada para adequar-se aos leitores ocidentais, sua leitura foi tão impactante pra mim quanto o filme.

AKIRA é mais que uma animação ou uma história. A quebra do main character sugerida por Otomo faz com que os temas abordados nas mídias em que ele apareceu sejam tão diversos e críveis que o "fantástico" para seus personagens, nada mais é que o acaso e uma ferramenta pop que dá uma consistência fantasiosa e violenta para a obra.

Um marco da cultura moderna que deve ser sempre revisitado para que possamos redescobrir, analisando suas incríveis camadas, as razões de suas imortalidade.


10.13.2011

OS LEITORES DE TODOS OS TEMPOS 1

Durante um bom tempo dos quadrinhos, as sessões de cartas eram algumas das partes mais interessantes das HQs. Algumas se derramavam em elogios e por personagens, autores, editoras, etc. Outras, possivelmente as mais divertidas, mostravam toda sua indignação pelos mesmos, com mais ou menos educação e tato.

Eduardo Pereira, cineasta, pesquisador de cinema e quadrinhos, bem como colecionador dos mesmos, começa hoje no Z&A uma sessão especial relembrando algumas dessas "pérolas" recebidas pelas editoras e incluídas nas revistas!

Vejam, leem, lembrem e comentem!


10.07.2011

SOBRE QUADRINHOS MULHERES E VIOLÊNCIA



Os quadrinhos são obras masculinas e de massa. Isso é um fato sincero, puro, seco e até certo ponto incômodo. Primeiro, porque em um ambiente masculino não é a masculinidade o tema recorrente, mas, na maioria das vezes, o machismo. A ponto inclusive das duas expressões se confundirem, masculino = machista. Sendo assim, a maior parte das "revoluções femininas" nos quadrinhos, na verdade são versões masculinas (dentro do significado que abordei na frase anterior) do que é ser feminista. Não entendeu? Vamos analisar umas coisas.

Possivelmente, Lois Lane foi a primeira mulher de responsa dos quadrinhos. Não cheguei a ler as primeiras edições do Super, mas na série de animações dos Fleitcher's, Lois Lane é uma repórter - na falta de um adjetivo melhor - intrépida! Ela é aquela que faz a pesquisa, a primeira a estar no local, a única que vai na direção da ação enquanto todos fogem. Longe de ser uma mulher indefesa, só é realmente salva porque os desafios estão aquém das capacidades humanas e não femininas. Mesmo assim, convenhamos, ainda é uma mulher em posição indefesa, e em seu trabalho o editor quer sempre dar as matérias importantes pro Clark, ela, se quiser algo, tem que por o pescoço/emprego na reta!

Ok, chega de mulheres na condição de vítimas! Vamos partir pra ação! Como exemplo maior temos Mulher Maravilha que era uma heroina antenada com o movimento feminista da época, que lutava contras as iniquidades, que era independente, livre, cheia de marra e... que sempre aparecia em posições de sodomização - amarrada, amordaçada, vendada, de quatro, em meio a chicote, cordas, laços... - bem como várias outras mulheres que apareciam em suas histórias. Agradecimentos a William Moulton Marston, criador da amazona, que tinha em seu currículo o polígrafo e a bigamia "concedida"... Acho que não sou só eu que vê que há algo de errado aí, não?


Casos como Lois Lane e Mulher Maravilha mostram o quanto mesmo com uma visão mais "feminista", as mulheres de HQ sofrem com a "masculinização" de seus autores e isso deve ser levado em consideração. Impossível para um homem, mesmo com a melhor das intenções, demonstrar clara e corretamente a maneira feminina de ver o mundo. Veja bem, feminina = feminilidade, diferente de feminista.

Terry Moore e seu Estranhos do Paraíso quase conseguiu isso com as histórias corriqueiras do triângulo amoroso Katchoo/Francine/David, mas ao mostrar um mundo de mulheres criminosas/lésbicas/prostitutas/prontas para surrar todo e qualquer homem, isso meio que me veio por terra. Afinal, não acredito que uma mulher que se diz feminista e pronta para lutar pelo seu direito de liberdade e atuação e contra sua opressão, vá utilizar-se da violência para tal. Oras, lutar contra violência é não praticá-la! Isso me faz lembrar da Mulher Maravilha na animação DC: A Última Fronteira, Superman vai verificar uma balbúrdia no Vietnã sobre homens assassinados e tudo mais, quando ele chega lá é a MM que tá fazendo um levante de mulheres para massacrarem os homens para terem sua liberdade. Nesse caso a filha de Hipólita parece realmente um homem. Nada como se assemelhar a seu algoz para conseguir algo, não?

A verdade é que nas histórias em quadrinhos as mulheres sempre estiveram uma posição deveras inadequada, principalmente porque costumeiramente são mostradas através dos olhares masculinos, e aí este redator acredita que existe uma ponta de frustração na vida pessoal dos caras para mostrarem o sexo oposto em "posição" tão desconfortável. Estupros, mortes, sequestros, assassinatos, laceração de membros, realização de orgias - concedidas ou não, com seres humanos ou não - clonagem, escravismo... a lista de situações que as personagens femininas passaram nas HQs é longa demais e possui os maiores e piores absurdos já vistos. Para um "quadro" maior, segue um link interessante de um site feito pela roteirista Gail Simone (Women in Refrigerator) verifiquem a Black Canary II... Meu Deus, o que fizeram com essa garota...

E o pior é que nós, leitores, acabamos dando muita corda pra isso, pois idolatramos obras e autores que fazem atrocidades com personagens femininas e damos aquela desculpinha tipo: "é uma crítica", "é uma forma de arte". Faz um quadrinho d'um cara sendo enrabado violentamente por um grupo de marmanjões que meio mundo de gente vai chamar de atrocidade e banir das bancas. Um dos argumentos que sempre levanto para justificar meus sentimentos negativos por Allan Moore - apesar do respeito por seu trabalho - é o de que ele A-D-O-R-A sodomizar, ridicularizar e humilhar mulheres em suas HQs. Caramba, ele fez o Coringa estuprar e paralisar as pernas de Barbara e tudo o que o Morcego fez foi se preocupar com Gordon! E em Liga Extraordinária, a Mina Murray, líder do grupo, sofre todo tipo de abuso possível - p%&#@, eu adoro a personagem. Em sua obra maior, Watchmen, a primeira Espectral sofre uma tentativa de estupro e ainda se apaixona pelo cara. Desculpa, a não ser que uma mulher possua um puta distúrbio psicológico, ela NÃO SE APAIXONARÁ PELO SEU ESTUPRADOR E FARÁ UMA FILHA COM ELE! "Querido tio Allan Moore, você é..." sou uma pessoa pública o bastante para não completar a frase.

Enfim - acho que fui excessivamente "apaixonado" no último parágrafo...

Não quero que me vejam aqui como um purista ou um idolatrador da salvação feminina em tudo. Só acho que deve haver um contrabalanço. Quer fazer obra que aborde o estupro, violência, laceração? Beleza! Mas lembre que milhares de homossexuais, crianças e mesmo homens - teoricamente héteros do sexo masculino - também passam pelas mesmas situações em todo o mundo e que isso pode ser até mais chocante, já que ver mulher sofrendo violência, por pior que seja (e sim é beeeeem pior na realidade), tornou-se banal a ponto de não chocar mais ninguém e todo mundo usar em tudo o que é canto, então acho que é hora de voltarmos o olhar para o "sexo forte", escondido e resguardado pela mão de seus "autores" e "editores". Por que tudo bem a Canário Negro sofrer violência a ponto de perder a capacidade de ter filhos e ninguém nunca cortou as bolas do Arqueiro Verde (levando em conta o "Ricardito", acho que até deveria ser feito)? Por que Mary Jane pode deixar de trabalhar e abandonar a faculdade por amor ao seu Peter "Aranha" Parker a ponto de voltar a fumar e esse cara não pode desistir da vida super-heroica dele? Por conta de seu trauma? E o trauma da mulher que passou metade da vida vivendo a pão de ló sofrendo toda vez que uma notícia de super-vilão aparecia no jornal achando que finalmente alguém tinha conseguido acabar com seu lançador de teias? Ok, Peter tem um passado trágico, perdeu os pais (que o amavam) e o tio (que o amava) e Mary Jane ainda tem uma família (mãe submissa, pai alcoolatra que batia nela e na mãe, irmã que seguiu a "carreira" da mãe, fora nenhum incentivo)... repense seus argumentos. E por que o Super é um bom moço e a Mulher Maravilha é uma amazona foda revoltada que mata por vingança e não tá nem aí pra nada? Caramba, até o Capitão Nascimento tem horas que é mais manso que a MM!


Veja que aqui estou falando de violência. Não cheguei nem mesmo a tocar no assunto exposição ("eu luto contra o crime com uma minúscula roupa de banho pra mostrar quase tudo no primeiro soco - tendo eu levado porrada ou não - e ainda amo fazer isso"), até porque quadrinhos de massa, o mainstream, é isso mesmo: corpos atleticamente perfeitos e belezas gregas - e eu sempre achei que aqueles spandex de supers tipo Batman, Super-cueca ou mesmo a armadura do Stark, só não são mais nus porque não mostram "as partes", porque dá pra ver todo o corpo do cara - realizando atos impossíveis. Mas acredito que a violência contra personagens femininas é abusiva e a interpretação delas nas HQs é excessivamente masculinizada, por isso devemos, como leitores, analisar isso - ao invés de nos preocuparmos em quem comeu quem na revista da Mulher Gato. Não é o sexo, isso em gibis nem é importante, mas a imagem que esses personagens passam - discutir, sugerir, quem sabe até mesmo ouvir as mulheres para, quem sabe, vermos elas tão pessoas como nós e tentarmos fazer das personas inspiradas nelas realmente críveis. Acredito que melhorando a maneira como abordamos mulheres e feminilidade na cultura de massa, é um passo para possamos melhorar também os relacionamentos que temos na vida real.

Pra fechar, vou lembrar de um exemplo que me revolta: a princesa Leia de Star Wars é uma princesa que no episódio IV sempre me agradou: líder da Rebelião, encarou Darth Vader de frente enquanto muito marmanjo se cagava na frente dele, comandou exércitos, mas foi eclipsada pelas figuras masculinas, assim, teve de dizer "eu te amo" quando o cara que gostava dela nem em seu momento derradeiro o fez e é mais lembrada pelo fetiche do episódio VI do que pelo fato de ter matado Jabba, the Hunt. Que droga.