10.17.2011

RELEMBRANDO COISAS E UNIVERSOS... AKIRA



Quando criança, meu mundo de entretenimento envolvia os heróis uniformizados dos quadrinhos, as animações das manhãs de sábado (que nos anos 80 visitavam quase 30 anos de animações para cinema e TV) e as sessões da tarde. Basicamente, trabalhos norte-americanos. Até o momento o Japão era a estranha fonte de um tipo de seriado que aprendi anos depois  que se chamava tokusatsu. Nada mais.

Eram meados dos anos 1990 e os quadrinhos passavam por um período péssimo, bem como todas as animações, filmes e seriados que eu adorava viviam reprises insistentes na TV, como um looping temporal que acabava desgastando lembranças boas. Por uma total falta de opções, voltei a ler livros e em menos de 6 meses eu tinha vivido um processo vertiginoso que passava pelos clássicos brasileiros, espanhóis, ingleses, literatura policial e muito luxo e lixo - como aprendi anos mais tarde no curso de Letras. Assim, quase não percebi a invasão japonesa que se deu com "Cavaleiros do Zodíaco", descobrindo o seriado lá pela sua segunda ou terceira reprise, o que não diminuiu minha surpresa. "O que acontece lá no Japão pra eles fazerem isso?", foi o que pensei. Realmente, alguma coisa diferente se guardava atrás daqueles grandes olhos brilhantes.

Eu acho que deveria ter uns 14 a 15 anos quando vi AKIRA pela primeira vez. Foi quase um acidente. Eu estava zapeando, esperando ver algo interessante, quando em um dado instante eu vi uma moto vermelha faiscante cortando a tela e anunciando um horário (23:00) na rede Bandeirantes. A imagem me fascinou completamente, mas eu não conseguia entender porque tinham colocado um desenho animado no horário dos filmes de soft porn, como "Emanuelle". Enfim, decidi esperar pra ver o que era aquilo.

E eu vi.

Uma das cenas iniciais de AKIRA é de um dos personagens sendo alvejado por balas. Eu me vi sendo atingido pelo filme da mesma forma. Tudo na animação era irreal para mim, simplesmente porque parecia real demais e visceral e doentio. Confesso que o enredo me pareceu muito confuso, mas as cenas, as escolhas de câmera, a movimentação, a ação... não pareciam de uma animação, mas de um filme feito por pessoas coloridas com tinta. Aquilo foi impactante demais pra minha adolescência e me fez decidir que era aquele tipo de loucura que eu queria ler, assistir, ouvir.

Assim, um novo mundo se abriu pra mim e nele havia "Metrópolis", Sex Pistols, "Blade Runner", "Neon Genesis Evangelion" e Frank Miller - todos pertencentes a um legado que para mim tinham AKIRA como uma das vértebras de uma sombria espinha dorsal, fonte de um passado audacioso e porta para um futuro livre e libertino. Todo tipo de mídia que parecesse respirar a mesma atmosfera de Neo-Tokyo tornou-se mais que atraente, mas uma estroboscópica estrada empoeirada, feita de metal retorcido por poderes psíquicos, avançadíssima tecnologia labiríntica e personagens que riem diante do fim dos tempos.

Procurei sobre o filme tudo o que era possível ter acesso para um garoto secundarista na época: revistas, documentários, matérias. Quando soube que o mangá tinha uma versão americana, corri para escavá-lo em sebos, mas os donos de bancas e gibiterias pareciam conhecer o valor da obra, e os R$30,00 a R$60,00 cobrados por edição eram demais para mim. No entanto, tudo vem com o tempo e anos depois a versão importada da Dark Horse chegou em minhas mãos e, apesar de ter sido alterada para adequar-se aos leitores ocidentais, sua leitura foi tão impactante pra mim quanto o filme.

AKIRA é mais que uma animação ou uma história. A quebra do main character sugerida por Otomo faz com que os temas abordados nas mídias em que ele apareceu sejam tão diversos e críveis que o "fantástico" para seus personagens, nada mais é que o acaso e uma ferramenta pop que dá uma consistência fantasiosa e violenta para a obra.

Um marco da cultura moderna que deve ser sempre revisitado para que possamos redescobrir, analisando suas incríveis camadas, as razões de suas imortalidade.


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