10.31.2011

REVIEW: BATMAN ANO UM: QUADRINHO + FILME


Dentre todas as coisas que acredito serem verdades no mundo dos quadrinhos, a genialidade de Frank Miller no início de sua carreira é uma delas. E incontestável. Inserido na minha visão e gosto pessoal do que é uma boa história, BATMAN ANO UM é o seu melhor trabalho, como história de super-herói, policial e um conto seguro, forte em suas simbologias e acessível a qualquer um, seja fã de quadrinhos ou não. Além disso, se levarmos em conta a época em que foi escrito, consegue um feito único, trazer realidade a um herói de fantasia spandex sem deturpar sua dignidade heroica e sem destruir seu espírito e honra que é o faz o morcego ser o mito que é. Em resumo, ele consegue ser real sem apelar para a destruição da figura do herói.

Recentemente, a DC Comics - e em sua onda, a Panini - nos convidou a revisitar a obra, em um encadernado e uma animação para DVD. Assim, decidi adquirir os dois para colocar na minha coleção de itens do Cavaleiro das Trevas.

O encadernado da Panini atrai pela capa dura, papel interno de qualidade e as páginas a mais do Mazzucchelli, mas o letreiramento ficou a desejar, principalmente nas narrações de Bruce Wayne, bem como a revisão, dando a impressão de se pegar um material bonito, mas que parece ter sido feito às pressas em suas últimas etapas do processo - em especial cito a 4ª capa da HQ, informando que há uma introdução de Frank Miller, quando quem faz a introdução é Dennis O'Neal e o texto de Miller - muito meia boca - aparece no final.

Isso, no entanto, não atrapalha a apreciação da obra. O texto de Miller está em sua melhor fase - ele usa elementos de filmes policiais e seu próprio toque pessoal concentrando a narrativa em Bruce Wayne se tornando Batman e em Gordon chegando a Gothan e trabalhando até o posto de comissário, limando arestas e removendo inutilidades, com um polimento excepcional dos desenhos e storytelling de Mazzucchelli, os quais ainda são prodigiosos e melhores que muita coisa atual e moderna. As páginas a mais do desenhista da série também são um carinho muito bem dado aos fãs e curiosos do processo criativo. As cores - mais "lavadas" - não desanimam, apesar de não terem o charme do primeiro impresso - que se bem não me engano foi feito em papel jornal - e estão bonitas e sombrias. Uma obra que com certeza é superior às suas falhas editoriais.

Quanto à adaptação da animação, essa sim é surpreendente. Não por ter "adaptado" algo (como foi o Batman Begins de Chris Nolan que se utilizou de muitos elementos de Ano Um e de sua temática, mas preferiu seguir seu próprio caminho), mas por - assim como Sin City - ter literalmente animado o que já estava feito. Desde o traço de Mazzucchelli, até as cenas e falas são repetidas em detalhes, dando-se a impressão de estar-se lendo um "video-comic" de alto nível. Poucas são as ressalvas quanto ao filme - de repente Bruce e Selina foram colocados no mesmo nível de combate - e as adaptações para um público maior, quando raramente ocorrem, não danificam ou desvirtuam a obra.

A animação em si também é de extrema qualidade. As cenas de luta estão bem coreografadas e a ação possui um "que" de Cowboy Bebop que se adequa perfeitamente ao filme, mesmo que por vezes pareça irreal demais. Afinal, sem pensar muito os realizadores fizeram toda animação como um filme noir. Mais sábio e simples, impossível. Destaque mais que especial ao comissário Gordon, um personagem tão forte, seguro e atraente que em vários momentos eclipsa a figura do morcego, e uma figura que Miller sempre soube trabalhar muito bem.

Há uma série de movimentos na internet pelo novo, o original. Isso com uma certa pressa e criticismo que, na verdade, tem levado as pessoas a fazerem obras razoáveis ou mesmo ruins, sempre preocupadas com arrecadação obtida de alguma forma por aquilo, de maneira que justifique seu tempo e paciência gastos, ao invés de objetivarem a boa história sendo contada, com personagens atraentes e uma trama minimamente inteligente - ou ao menos não pretensiosa. Ao meu ver, esse "erro" em saber lidar com a própria obra vem - também - de um mal estudo do passado, daquilo que foi feito e considerado bom, de qualidade, muitas vezes por pura irresponsabilidade do produtor - ou orgulho ou da já falada pretensão, enfim... - outras vezes por acessibilidade (que soa a desculpa esfarrapada, nesses tempos de rede mundial...). Assim, quando uma obra como BATMAN ANO UM é relançada e apresentada em uma nova mídia, merece uma observação mais apurada, mais detalhista para que se possa aprender com o que é considerado excepcional.





Para quem está interessado em assistir a obra e conversar sobre as diferenças entre as duas mídias, o GRUPO DE CINEMA 24 QUADROS, em uma parceria com o FÓRUM DE QUADRINHOS DO CEARÁ, realizará uma exibição GRATUITA do filme no dia 18.11, 18:30, na GIBITECA DE FORTALEZA (Av. da Universidade, 2572). Não deixe de ir!



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