10.07.2011

SOBRE QUADRINHOS MULHERES E VIOLÊNCIA



Os quadrinhos são obras masculinas e de massa. Isso é um fato sincero, puro, seco e até certo ponto incômodo. Primeiro, porque em um ambiente masculino não é a masculinidade o tema recorrente, mas, na maioria das vezes, o machismo. A ponto inclusive das duas expressões se confundirem, masculino = machista. Sendo assim, a maior parte das "revoluções femininas" nos quadrinhos, na verdade são versões masculinas (dentro do significado que abordei na frase anterior) do que é ser feminista. Não entendeu? Vamos analisar umas coisas.

Possivelmente, Lois Lane foi a primeira mulher de responsa dos quadrinhos. Não cheguei a ler as primeiras edições do Super, mas na série de animações dos Fleitcher's, Lois Lane é uma repórter - na falta de um adjetivo melhor - intrépida! Ela é aquela que faz a pesquisa, a primeira a estar no local, a única que vai na direção da ação enquanto todos fogem. Longe de ser uma mulher indefesa, só é realmente salva porque os desafios estão aquém das capacidades humanas e não femininas. Mesmo assim, convenhamos, ainda é uma mulher em posição indefesa, e em seu trabalho o editor quer sempre dar as matérias importantes pro Clark, ela, se quiser algo, tem que por o pescoço/emprego na reta!

Ok, chega de mulheres na condição de vítimas! Vamos partir pra ação! Como exemplo maior temos Mulher Maravilha que era uma heroina antenada com o movimento feminista da época, que lutava contras as iniquidades, que era independente, livre, cheia de marra e... que sempre aparecia em posições de sodomização - amarrada, amordaçada, vendada, de quatro, em meio a chicote, cordas, laços... - bem como várias outras mulheres que apareciam em suas histórias. Agradecimentos a William Moulton Marston, criador da amazona, que tinha em seu currículo o polígrafo e a bigamia "concedida"... Acho que não sou só eu que vê que há algo de errado aí, não?


Casos como Lois Lane e Mulher Maravilha mostram o quanto mesmo com uma visão mais "feminista", as mulheres de HQ sofrem com a "masculinização" de seus autores e isso deve ser levado em consideração. Impossível para um homem, mesmo com a melhor das intenções, demonstrar clara e corretamente a maneira feminina de ver o mundo. Veja bem, feminina = feminilidade, diferente de feminista.

Terry Moore e seu Estranhos do Paraíso quase conseguiu isso com as histórias corriqueiras do triângulo amoroso Katchoo/Francine/David, mas ao mostrar um mundo de mulheres criminosas/lésbicas/prostitutas/prontas para surrar todo e qualquer homem, isso meio que me veio por terra. Afinal, não acredito que uma mulher que se diz feminista e pronta para lutar pelo seu direito de liberdade e atuação e contra sua opressão, vá utilizar-se da violência para tal. Oras, lutar contra violência é não praticá-la! Isso me faz lembrar da Mulher Maravilha na animação DC: A Última Fronteira, Superman vai verificar uma balbúrdia no Vietnã sobre homens assassinados e tudo mais, quando ele chega lá é a MM que tá fazendo um levante de mulheres para massacrarem os homens para terem sua liberdade. Nesse caso a filha de Hipólita parece realmente um homem. Nada como se assemelhar a seu algoz para conseguir algo, não?

A verdade é que nas histórias em quadrinhos as mulheres sempre estiveram uma posição deveras inadequada, principalmente porque costumeiramente são mostradas através dos olhares masculinos, e aí este redator acredita que existe uma ponta de frustração na vida pessoal dos caras para mostrarem o sexo oposto em "posição" tão desconfortável. Estupros, mortes, sequestros, assassinatos, laceração de membros, realização de orgias - concedidas ou não, com seres humanos ou não - clonagem, escravismo... a lista de situações que as personagens femininas passaram nas HQs é longa demais e possui os maiores e piores absurdos já vistos. Para um "quadro" maior, segue um link interessante de um site feito pela roteirista Gail Simone (Women in Refrigerator) verifiquem a Black Canary II... Meu Deus, o que fizeram com essa garota...

E o pior é que nós, leitores, acabamos dando muita corda pra isso, pois idolatramos obras e autores que fazem atrocidades com personagens femininas e damos aquela desculpinha tipo: "é uma crítica", "é uma forma de arte". Faz um quadrinho d'um cara sendo enrabado violentamente por um grupo de marmanjões que meio mundo de gente vai chamar de atrocidade e banir das bancas. Um dos argumentos que sempre levanto para justificar meus sentimentos negativos por Allan Moore - apesar do respeito por seu trabalho - é o de que ele A-D-O-R-A sodomizar, ridicularizar e humilhar mulheres em suas HQs. Caramba, ele fez o Coringa estuprar e paralisar as pernas de Barbara e tudo o que o Morcego fez foi se preocupar com Gordon! E em Liga Extraordinária, a Mina Murray, líder do grupo, sofre todo tipo de abuso possível - p%&#@, eu adoro a personagem. Em sua obra maior, Watchmen, a primeira Espectral sofre uma tentativa de estupro e ainda se apaixona pelo cara. Desculpa, a não ser que uma mulher possua um puta distúrbio psicológico, ela NÃO SE APAIXONARÁ PELO SEU ESTUPRADOR E FARÁ UMA FILHA COM ELE! "Querido tio Allan Moore, você é..." sou uma pessoa pública o bastante para não completar a frase.

Enfim - acho que fui excessivamente "apaixonado" no último parágrafo...

Não quero que me vejam aqui como um purista ou um idolatrador da salvação feminina em tudo. Só acho que deve haver um contrabalanço. Quer fazer obra que aborde o estupro, violência, laceração? Beleza! Mas lembre que milhares de homossexuais, crianças e mesmo homens - teoricamente héteros do sexo masculino - também passam pelas mesmas situações em todo o mundo e que isso pode ser até mais chocante, já que ver mulher sofrendo violência, por pior que seja (e sim é beeeeem pior na realidade), tornou-se banal a ponto de não chocar mais ninguém e todo mundo usar em tudo o que é canto, então acho que é hora de voltarmos o olhar para o "sexo forte", escondido e resguardado pela mão de seus "autores" e "editores". Por que tudo bem a Canário Negro sofrer violência a ponto de perder a capacidade de ter filhos e ninguém nunca cortou as bolas do Arqueiro Verde (levando em conta o "Ricardito", acho que até deveria ser feito)? Por que Mary Jane pode deixar de trabalhar e abandonar a faculdade por amor ao seu Peter "Aranha" Parker a ponto de voltar a fumar e esse cara não pode desistir da vida super-heroica dele? Por conta de seu trauma? E o trauma da mulher que passou metade da vida vivendo a pão de ló sofrendo toda vez que uma notícia de super-vilão aparecia no jornal achando que finalmente alguém tinha conseguido acabar com seu lançador de teias? Ok, Peter tem um passado trágico, perdeu os pais (que o amavam) e o tio (que o amava) e Mary Jane ainda tem uma família (mãe submissa, pai alcoolatra que batia nela e na mãe, irmã que seguiu a "carreira" da mãe, fora nenhum incentivo)... repense seus argumentos. E por que o Super é um bom moço e a Mulher Maravilha é uma amazona foda revoltada que mata por vingança e não tá nem aí pra nada? Caramba, até o Capitão Nascimento tem horas que é mais manso que a MM!


Veja que aqui estou falando de violência. Não cheguei nem mesmo a tocar no assunto exposição ("eu luto contra o crime com uma minúscula roupa de banho pra mostrar quase tudo no primeiro soco - tendo eu levado porrada ou não - e ainda amo fazer isso"), até porque quadrinhos de massa, o mainstream, é isso mesmo: corpos atleticamente perfeitos e belezas gregas - e eu sempre achei que aqueles spandex de supers tipo Batman, Super-cueca ou mesmo a armadura do Stark, só não são mais nus porque não mostram "as partes", porque dá pra ver todo o corpo do cara - realizando atos impossíveis. Mas acredito que a violência contra personagens femininas é abusiva e a interpretação delas nas HQs é excessivamente masculinizada, por isso devemos, como leitores, analisar isso - ao invés de nos preocuparmos em quem comeu quem na revista da Mulher Gato. Não é o sexo, isso em gibis nem é importante, mas a imagem que esses personagens passam - discutir, sugerir, quem sabe até mesmo ouvir as mulheres para, quem sabe, vermos elas tão pessoas como nós e tentarmos fazer das personas inspiradas nelas realmente críveis. Acredito que melhorando a maneira como abordamos mulheres e feminilidade na cultura de massa, é um passo para possamos melhorar também os relacionamentos que temos na vida real.

Pra fechar, vou lembrar de um exemplo que me revolta: a princesa Leia de Star Wars é uma princesa que no episódio IV sempre me agradou: líder da Rebelião, encarou Darth Vader de frente enquanto muito marmanjo se cagava na frente dele, comandou exércitos, mas foi eclipsada pelas figuras masculinas, assim, teve de dizer "eu te amo" quando o cara que gostava dela nem em seu momento derradeiro o fez e é mais lembrada pelo fetiche do episódio VI do que pelo fato de ter matado Jabba, the Hunt. Que droga.

5 comentários:

  1. Hmmm... de fato, não lancei um olhar para o trabalho do véio Moore pela ótica simbólica do “pombas como ele trata mal suas personagens femininas”... sei lá, é tanta gente marcante:
    - Abby Arcano Cable, que foi LITERALMENTE AO INFERNO pela maquinações do tio, mas que antes disso foi de uma coragem exemplar ao tentar salvar as crianças no trampo dela, ainda que tendo de pedir ajuda ao bom e florido Alec.
    - Halo Jones, que só queria tirar o pé da lama e arrumar um trampo de gente, e no final, o único trampo que tinha era entrar para uma porra de um exército, pois precisávamos de porradaria na revista AD2000!
    - Robin “toybox”, a caloura no TopTen, que praticamente servia de interlocutora entre o leitor e o pessoal daquele distrito policial, não fedia nem cheirava, embora no começo eu tava crente que Irma Geddon era sapatona, não mãe de família e melhor amiga da Lin (essa sim, puta dum fetiche de filhodaputa que acabou morrendo dum jeito igualmente fdp).
    - A Judy “numlembroosobrenome” do Supremo, praticamente uma avatar da LanaLang de Superman, essa comeu o pão que o roteirista sádico amassou!!! Mas felizmente teve um final decente, que não apaga as merdas feitas com ela, mas ajuda!
    - Preciso mesmo falar de Promethea, numa primeira vista uma chupinhação descarada da Mulher Maravilha, que acabou se extendendo além e virando uma espécie de “manual da doideira filosófica do tio Moore” - que aliás eu acho genial e volta e meia estou relendo - ?

    Em suma, o homem pode ser misógino e não fazer lá muita questão de esconder, mas, não dá pra negar que é um dos poucos FDPs que sabe criar personagens femininas com CONTEÚDO que sai da falta de criatividade geral!

    Luís, eu percebo que você não citou uns dos poucos que faziam personagens femininas que prestavam, os irmãos Hernandez. Se tiver oportunidade, dá uma olhada no Príncipe Valente do Hal Foster, especialmente na princesa Aleta!

    Você pode se surpreender, e positivamente!

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  2. Cara, Aoki! Muito bom tê-lo por aqui depois de tanto tempo sem receber notícias suas desde o Kimota! Valeu pelo comment. Sobre os irmãos Hernandez, cara, sem querer ser chato, Love Rockets é muito legal e talz, mas ainda é uma visão machista, mas meninas quando são livres são lésbicas (uma hétero não pode querer sua liberdade também?) e em Palomar, pra mim o melhor deles, todo mulher é vista como um tipo de objeto ou reduzida de alguma forma, mesmo aquela dona grandona que dava banhos que quando parecia ser uma personagem a se desprender daquela realidade vira uma figura masculina: sendo literalmente o delegado da cidade. Quanto a Príncipe Valente... nunca li, acho q é hora de começar, né? Valeu pela indicação!

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  3. Post legal..apesar de ter uma visão completamente oposta... rsrsrrs... mas oq vale é a intenção... rs...

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  4. Príncipe Valente, vai por mim! Muito antes dos discursos feministas declaradamente panfletários, muito antes dos psicologismos nas aventuras seriadas de ação, Milton Caniff e suas tiras incluso no pacote (apesar de Stan Lee ser o mais lembrado e celebrado por isso).

    Infelizmente quando finalmente rolar o meu personagenzinho fetiche, infelizmente o meu discurso também é bastante misógino (não dá pra fazer boas histórias sem botar meus podres para fora, senão fica insípido-inodoro-e-incolor, também alcunhado de “paumolense”). Neste ponto, eu concordo em gênero, número e grau com o que vem cometendo tanto Mr. Alan Moore quanto meu conhecido - e de certa maneira, mentor, quiçá amigo - José Roberto Pereira Saito (sim, você já ouviu falar dele!)

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  5. Kunh, cara, eu já imaginava! hehehehe Mas valeu pela participação.

    Aoki, cara, que fique bem claro aqui que em nenhum momento espero que esse tipo de obra misógina acabe. Afinal, uma das funções da arte é essa mesma, mostrar os podres, traumas, neuras - principalmente nossos e do autor - e fazer disso obras de apreciação. No entanto, o que digo é: deve haver uma igualidade. Porque um quadrinho que uma mulher é estuprada passa pela aprovação de um editor e um em que um homem sofre a mesma violência não? Entende? Acho que as duas formas de violência SÃO violência e merecem seu lugar. Tudo bem um quadrinho onde a HEROINA, personagem principal da história, se submete a qualquer tipo de fetichismo e diz gostar e um herói NUNCA se curva, nunca gosta de se submeter? Por mim não.

    Particularmente acredito que tudo possa ser mostrado e interpretado de uma maneira que não precisa ser abusiva. Várias vezes Eisner tratou de violências, abusos, traição e nunca corrompeu sua obra mostrando abusos ou monstruosidades ou gerando desigualdades de personagens. Com uns sofrendo mais que os outros. Todos são vítimas e algozes em suas obras e tudo é sempre bem feito e tocante.

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