2.24.2012

CADA UM A SEU MODO de Júlio Belo


Sempre penso que as melhores obras podem ser definidas em poucas palavras. Apesar do título longo, "Cada um a seu modo", de Júlio Belo, um dos integrantes do bem sucedido The Comics Café, pode ser definido em uma: 'poesia'. É essa a sensação que o livro causa de suas primeiras páginas até as últimas. Ele possui a leveza de um livro de poesias, sem se preocupar se segue a jornada do herói ou não, sem ligar se está ajustado a alguma cartilha ou manual de "como fazer quadrinhos" e, por isso, acerta maravilhosamente em seu produto final.

Em formato grande, o livro possui três histórias: 'Sofia', '50 por hora' e 'A frase riscada', em cada uma delas os personagens principais são pessoas incrivelmente comuns em narrativas mais normais ainda. Este "despretensiosismo" é a grande sacada do álbum, pois a identificação com as situações e pessoas das histórias - magnificamente bem feitas em um traço limpo e belo, com seus detalhes harmônicos bem encaixados em um desenho que nunca cansa e que merece ser revisitado sempre - é imediata, tornando a obra completamente atemporal e com idade indefinida, servindo a todo e qualquer público.

Falando rapidamente sobre cada um dos "poemas". Em 'Sofia', somos levados a compartilhar um dia da vida da garota do título, uma criança que espera pela chegada do pai. Aqui, o passar do tempo e o caminhar da história são completamente imersivos, onde a proximidade com a personagem é tão forte que a "câmera" mantém-se quase sempre à altura da garota e cada um de seus movimentos são seguidos, numa verdade rotineira tão segura que o desfecho, apesar do impacto "sonoro" que ele gera, chega a ser pouco importante. O caminhar das pequenas coisas, tendo nisso a protagonista como condutora desse detalhe, é realmente o mais relevante.

Melhor texto ilustrado do álbum, '50 por hora' é um conto agradável de final deveras impactante - ao menos foi pra mim - nele há mais sons - e até esse momento é interessante ver como o autor se usa desse detalhe em seus quadrinhos, a sinestesia das onomatopeias (ou a falta delas) é uma daqueles caracterísitcas relevantes que ajudam a levar a história pra frente e abrem precedentes interessantes nas possibilidades das abordagens mais tradicionais da 9ª Arte. Este não deveria ser muito comentado. Deve ser lido pra ser sentido.

'A frase riscada', conto que fecha o trabalho, talvez seja o que mais gere "ruídos" - seria isso possível num material tão curto? - Em resumo, conta a história de um escritor que volta a sua cidade natal e como relembrar o passado muda os rumos de seu futuro. De todos é o que mais segue a cartilha de "como uma história deve ser contada" (por mais que eu odeie o termo), mesmo assim, Júlio o faz com o mesmo espírito dos outros e isso sim é o grande diferencial desse conto e de todo o quadrinho.

Uma coisa mais deve ser lembrada sobre o álbum: a riqueza e precisão com que o cenário é feito. Muitos autores inserem o cenário em suas histórias e esse parece plástico, um detalhe irrelevante em meio a milhares de outros rabiscos que em nada acrescentam, mas Júlio Belo consegue, com a maestria dos grandes, dar integridade e força ao cenário, colocando-o como um coadjuvante agradável que dá um diferencial a cada história, seja na ida de Sofia do universo micro de suas coisas ao macro de seu bairro e de seu ambiente final, seja no macro do mundo social em que começa '50 por hora' até o micro de sua conclusão, chegando enfim a 'aldeia do planeta' em 'A frase riscada', onde um ambiente específico se torna qualquer lugar do mundo, o autor eleva o ambiente, enriquecendo em muito suas histórias.

'Cada um a seu modo' pra mim teve um significado único, pois foi a primeira vez que vi lugares comuns a mim, que pertencem às coisas que vivo (e arrisco dizer, amo), impressas com a delicadeza e carinho que merecem. Esse comentário me fez ser suspeito, pois acabei de elevar um grupo o qual adoro pertencer: o de fortalezenses. Mas acho que o quadrinho de Júlio Belo serviu realmente pra isso: pra que cada um de nós, muitas vezes 'autodiminuídos' pelas desigualdades e mazelas que vivemos, olharmos pra nós mesmos e nossa cidade, diminuirmos os passos e vermos que não há nada mais belo que as pessoas e o lugar que agregamos no significado da palavra 'lar'.

SELO 80's

2 comentários:

  1. Tenho um exemplar autografado pelo meu amigo Júlio Bello. Sou suspeita de falar, porém não há exagero algum em afirmar que essa obra é sim uma poesia para os olhos e para o coração. O desencadear das histórias, cada uma cem seu ritmo particular, expõe a delicadeza na concepção de cada personagem, na construção dos detalhes dos cenários e da mensagem impressa, absorvida em sua leitura. "Cada um a seu modo" é um presente, seja para seu próprio deleite, ou para presentear, com requinte, um amigo de bom gosto. Ficamos no aguardo da próxima obra Júlio!

    Aurilene Estevam de Aguiar.

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    1. Há algo a mais nesse quadrinho que me agrada muito e que desconfio ter começado a matéria com isso: o desprentensiosismo. 'Cada um a seu modo' é uma ilha de calma em meio a tantos quadrinhos - seja no meio independente ou no mainstream - rápidos e terrivelmente energizados, querendo ser produções de hollywood ou as mais vendidas das livrarias. Desapegado desse tipo de coisa, o Júlio entregou uma obra que é como um respirar aliviado, um domingo com que vc ama. Ela se serve magnificamente disso e por isso é tão doce e agradável.

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