4.05.2012

O ETERNO E A ETERNIDADE

Dia 10 de março, Moebius morreu. Ele foi um dos maiores artistas que existiu. Em uma semana, isso já tinha virado notícia velha. Agora então, nem sei. Antes dele, ainda esse ano, outros tantos também partiram. Artistas de importância ímpar, pioneiros e geniais dentro de suas searas. Mas a verdade é que muitos não vão mais lembrá-los.

Talvez nem devam. Mesmo que essa seja uma afirmação ridícula por parecer generalizada demais.

A verdade é que o mundo pede por renovação de suas artes. Quando o assunto é quadrinhos, que possuem uma "fase de vida" muito curta, estritamente ligada às mudanças sociais, aí sim a coisa se torna evidente: mestres do passado são superados pelo mercado "narrativo" ditado pela tecnologia e novas formas de entretenimento. Boas fórmulas são repetidas exaustivamente em tão pouco tempo que é impossível não se desejar uma mudança.

No entanto, que mudança seria essa?

Houve uma época que os quadrinhos não passavam de desenhos lado a lado em piadinhas forçadas. Will Eisner, Winsor McCay e vários outros trouxeram iluminação, narrativa, design de página, histórias e personagens mais complexos e elementos que elevaram essa mídia a um ponto em que ela pode realmente ser reconhecida como ARTE. Anos depois, quando essas mesmas fórmulas precisavam de renovação, Frank Miller, Neil Gaiman, Allan Moore e outros malucos deram um novo salto, consolidando temas adultos e amadurecendo as HQs. Desde então nada foi como antes. Ou melhor, nada mais é de outro jeito...

"Na verdade e na mentira, no bem e no mal, [Will Eisner, Moebius, Al Rio, John Buscema etc.] representam uma época [ou, no caso, várias]... que agora se encerra! Novos heróis surgirão, mas não serão melhores homens!"
Willy 'Poe' Richards - Mágico Vento 100

Essa é uma grande verdade. A Era dos Quadrinhos chegou ao fim. Os tablets e eletrônicos de portabilidade trazem uma nova possibilidade de narração de histórias, mas, infelizmente não têm trazido novas histórias. E os autores regurgitam fórmulas antigas, repetindo-as como referências com fonte 2 tamanhos menor e recuo de 3 centímetros, o que serve como base para um argumento, mas não sustenta ou imortaliza uma história.

Sei que pareço negativo com todas as minhas afirmativas. Mas venho aqui com a função mínima de arauto carregando o aviso de uma verdade que está excessivamente óbvia em nossas caras: os mestres estão partindo. É preciso aceitar isso. É triste e desolador e é ainda pior saber que seu legado pode vir a ser esquecido. E a coisa parece ainda pior porque não existe ninguém para substituí-los, para, enfim, guiar as gerações que cada vez se afastam mais deles.

Falta quem inspire os novos. Simplesmente porque somente nos murmuramos sobre a perda daqueles que nos inspiraram ao invés de aprendermos com eles e darmos o passo seguinte.

Afinal, que autores estamos nos tornando? E pra que leitores? Acho que são questões pertinentes e que tem de começar a ser respondidas por nós mesmos.

6 comentários:

  1. Quanto ao perigo de tecnologia, ontem tava entrando numa loja de eletrônicos e qual foi minha surpresa ao me deparar com a estante principal da loja cheia de toca vinis. O vinil, tão ameaçado de desaparecimento, hoje virando febre novamente! O que é bom permanece cara! Aqui falo de música pq é a área que eu entendo mais. Mas com literatura também é a mesma coisa. Por mais que haja tecnologia o livro nunca vai acabar. Pode diminuir o consumo deles, mas o que é bom nunca acaba. Enfim cara, esses caras vão dos quadrinhos vão aparecer, é só esperar... Excelente texto! Parabéns!

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    1. Olha só quem enriquece essas paragens com sua presença! Cara, com toda certeza. O que é bom é eterno. As mídias digitais são uma forma de termos facilmente o que queremos, mas nenhuma deles suprime a emoção do tátil e do clássico, porque afinal, o que importa não é a forma em que uma determinada mídia sai, mas sim o conteúdo dela. Boa música é boa música em vinil, cd ou mp3, assim como quadrinhos ou literatura!

      Valeu pela presença!

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  2. Cara, isso se resolve muito facilmente:
    Torne-se um mestre! Busque pela excelencia e as coisas se resolvem. Talvez não nessa geração. Talvez o reconhecimento seja póstumo, mas faça. Faça porque precisa ser feito.

    O mercado está passando por um fase bem morna, mas no meio underground tem surgido histórias legais como nunca. Acho que nunca na história houve um volume tão grande de artistas autorais com nível semelhante ou superior ao mercado. Pessoas que não dão a mínima se vão viver disso, se terão uma resposta positiva da grande massa. Eles apenas sabem o que precisa ser feito e o fazem.

    Isso pode ser observado na cenografia, com inumeros canais do youtube que nada devem a um programa de TV, músicos que compõem e se apresentam por paixão, e também nos quadrinhos com autores que produzem pra nichos segregados do mercado (como quadrinhos voltados a necessidades femininas)

    Eisner ofereceu ao mercado algo que o mercado não queria(ou não sabia que queria). É bem provável que mesmo que as portas lhe fossem fechadas ele continuasse com a sua produção autoral.

    Fora do mercado não existem bordas, não há castrações. É só você e a sua obra. E isso é o que manterá o quadrinho vivo. Mesmo que o mainstream entre em colapso e tudo vá a falencia ainda haverão pessoas empenhadas em contar boas histórias e pessoas dispostas a ouvi-las, a se encantar, a escapar por um instante desta cela que nós chamamos de realidade.

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  3. Dificilmente se valoriza o novo; é preciso que se torne velho para ser considerado mestre e é preciso que morra para que se torne ídolo. isso tenho verificado na religião, na música e no desenho.

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    1. Taí algo bem interessante, Ednardo. Muitas vezes o reconhecimento vem com a idade, ou após a "passagem". De certa forma isso é bom, pois o sucesso em tenra idade costuma comprometer a pessoa e sua arte.

      Acho que esse é um bom ponto pra uma nova discussão.

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