5.18.2012

PUBLICANDO INDEPENDENTE

"Eu comecei assim, fazendo por mim mesmo"
Antes de iniciar esse artigo é preciso fazer uma pergunta: o que é "quadrinho independente"? Eu já vi diferentes interpretações - todas muito válidas por sinal -, mas para evitar delongas e citações, eu tratarei quadrinho independente da seguinte forma:

"é o trabalho feito sem o envolvimento de um editor"

Parece simplista demais, tendo em vista que muitos imaginam que a "real" definição vem de uma prerrogativa econômica - lançar sozinho, tirando do próprio bolso, mas parando pra pensar a grana pode vir de qualquer local, desde financiamento paterno a ganhos por editais de cultura - mas eu não vejo assim. Bem como "editor", do jeito que acredito que tem de ser, é uma figura semelhante a Sérgio Bonelli, que estava presente em todas as partes do processo de produção, dando pitaco - criativo, mercadológico etc. - do roteiro à distribuição.

Pensando dessa forma, surge logo a dúvida: "se não tem editor, quem exerce essa função?" - elementar - o próprio artista, o qual, novamente simplificando tudo, não chamo de editor porque muitas vezes - ou, na maioria das vezes - produz se utilizando de seu critério pessoal e não possui muita noção de outras partes do processo, ou seja, sabe escrever/desenhar/colorir, mas não entende de impressão ou distribuição ou público-alvo e vice-versa.

Quando se está sancionado por uma editora - e, porventura, um bom editor - as questões de quem/como/onde a veiculação da obra vai ocorrer são meio irrelevantes porque não viram uma preocupação prioritária do autor. A editora sabe quem se interessaria por aquele material (inclusive aqueles que nem fazem ideia de que ele existe), qual o melhor formato a esse público e como chegar até ele. Inclusive, tendo uma noção a curto, médio e longo prazo do sucesso - e do insucesso - que o trabalho pode atingir. Quando se faz a coisa por si só, no entanto, isso meio que foge ao controle do produtor e acaba sendo o maior problema de quem faz as coisas no meio "independente".

E essa "parte final do processo" é que acaba sendo realmente relevante e influenciando todo o resto: valores, formatos, impressão etc. Por isso, antes de sair empolgadíssimo pensando em imprimir na gráfica da esquina toda sua megassaga de 300 páginas, pense em quem, como e onde sua história vai estar.

DESCOBRINDO-SE

Vai parecer meio rude o que vou dizer, mas é preciso ter vergonha na cara - além de coragem, claro, e um bom plano - pra admitir seu lugar nos quadrinhos. Pense bem: você é Mark Waid? Adam Hughes? Danilo Beyruth? Daniel Brandão? Alguém além dos seus colegas de sala e família conhecem seu trabalho? Você participa de alguma rede social de desenhistas como o deviantart ou o CGHub e possui mais de 1000 acessos em cada, consegue ter pelo menos 30 acessos por mês? Você tem um blog? Trabalha pra alguma editora/agência de publicidade/estúdio/estamparia? Já montou um portfolio? Não? Então, meu caro, por que eu iria atrás do seu trabalho? No que ele seria relevante pra quem já leu Watchmen ou Cavaleiros das Trevas ou Turma da Mônica? Antes de publicar qualquer coisa em qualquer canto, seja como for, é preciso que essas perguntas possam ser respondidas, perguntas que se resume a uma - repetindo as palavras de Scott McCloud - "Qual seu lugar nos quadrinhos?"

Você acha que tem boas histórias a contar? Ok, convença-me: conte uma história interessante em uma página ou em duas ou em quatro. Escreva um conto em três páginas e divulgue. Mostre ao mundo que suas ideias podem ser modernas, novas, criativas e interessantes e que você pode ser até um bom "reciclador de ideias", fazendo o que era bom/razoável/ruim ter um aspecto interessante e não somente repete as fórmulas dos 2000 enlatados que assiste/lê por dia na internet ou TV. Divulgue-se.

Vitor Cafaggi passou alguns anos produzindo gratuitamente
Punny Parker até ser conhecido e poder fazer as próprias
obras com a certeza de que iria ter algum retorno, tanto
em sucesso quanto financeiramente.
Na verdade você sabe que não é um grande contador de histórias, mas que pode ser um ótimo narrador de quadrinhos e tem um desenho bonito e estiloso? Ora, então procure alguém que tenha boas histórias e conte-as! Sempre há roteiristas precisando de desenhistas. Na pior das hipóteses, veja que obras já estão em domínio público e reconte-as do seu jeito. Divulgue-se.

Não importa como, o que importa é que você tem uma habilidade que muitos não têm e essa habilidade é a chave que vai te levar ao primeiro passo de sua jornada: ser conhecido, fazer com que as pessoas queiram ter mais de você. Uma vez esse objetivo atingido é hora de delimitar sua área de alcance.

LOGÍSTICA E DISTRIBUIÇÃO

Quando se tem um trabalho feito, tudo o que se quer é que ele chegue a alguém, que as pessoas leiam, apreciem, mandem algum retorno. Com relação a isso não existe ambiente melhor do que a internet. Fácil e gratuitamente você pode montar um site/blog/perfil em rede social em que tudo o que você faz é postar seu trabalho. Com os tablets e ipads da vida isso ampliou o alcance e as possibilidades. Mesmo assim ainda tem gente que se perde no caminho das pedras. Como? Se sua obra é boa, se seu desenho é legal, se sua vontade não acaba, como as pessoas ainda não te viram? E mais importante: como fazer para que vejam? Conversando com bloggers e gente que possui algum retorno on line, pude identificar algumas atitudes que os ajudam nisso:

Will Tirando é um exemplo de site com design simples, bonito
e com conteúdo da hora!
1. REGULARIDADE. Decida um momento em que você vai postar algo e mantenha-se nele. Pelo que notei, o tempo entre uma postagem e outra define muito bem o retorno de visualização - claro que ninguém vai forçar a barra e publicar 20 trabalhos por dia, um a dois por dia é um bom número, 3 vezes por semana é excelente e uma vez por semana é aceitável, mais ou menos que isso é correr o risco de perder público.

2. BELEZA, DESIGN E SIMPLICIDADE. Outra coisa importante é como você vai mostrar seu trabalho. Pense em um design minimamente atraente e que combine com aquilo que você está oferecendo. Serviços gratuitos costumam ser bem limitados quanto à personalização de seus ambientes, mas podem ser uma grande chance de oferecer simplicidade em um visual criativo. Sempre mostre o design de seu site à outra pessoa e escute opiniões. Às vezes o que você acredita ser "muito massa" é poluído e desagradável. O WIX é uma boa opção para quem gosta muuuuito de personalizar e sabe utilizar o flash.

Um Sábado Qualquer de Carlos Ruas investiu bem
em subprodutos.
3. SUBITENS E MERCHANDISING. Outra opção comum em blogs é a venda de subprodutos como blusas, chaveiros, agendas, bonequinhos etc. Para quem está começando acho um pouco difícil pensar em algo como os dois últimos itens, mas os primeiros costumam ser um investimento de baixo orçamento e com um retorno considerável se você tiver visitas de pelo menos 50 pessoas ao mês. Caso contrário não custa nada fazer parceria com alguém que faça trabalhos manuais e ambos dividem custos e lucros. Pensar também em um joguinho on line ou outras formas de diversão interativa pode vir a trazer positivos e inesperados resultados. Um bom site nacional de serviço para trabalhar com contas na internet é o PAGSEGURO.

4. PROMOVA-SE SEMPRE. Vá a eventos, convenções, entre em outros sites, compartilhe nas redes sociais, visite estúdios de outros artistas, divulgue, mostre. Não há limites pra isso, mas não deixe de fazê-lo, porque é algo essencial.

MATERIAIS IMPRESSOS

Apesar de toda a interatividade, há aqueles que preferem os bons impressos - e não são poucos - pois, por alguma razão os materiais impressos mantém-se quase como itens colecionáveis únicos, como se feitos especificamente para cada um que os comprasse; um pensamento bem peculiar, mas válido. Afinal, se na internet é de todo mundo, o impresso é único e de propriedade, "cuidado e compartilhamento" somente daquele que o comprou, ou seja, há uma satisfação individual e fetichista de ter uma material físico. O simples fato de ele ser independente - e, por isso, limitadíssimo - faz com que adquiri-lo se torne algum tipo de "vitória de poucos", mas, enfim, longe de mim ficar aqui procurando as razões das pessoas ainda quererem papel.

A verdade é que sem o auxílio de uma editora, tudo o que o autor precisa é... gastar, mesmo que a grana não venha dele! Destinar parte do impresso a pessoas-chave que façam alguma divulgação, como sites de podcast, críticos de jornais/revistas/blogs etc., é uma boa saída para se fazer conhecido - e neste instante, cabe aqui a lição máxima: "falem mal, mas falem de mim e indiquem meu site". Fora, logicamente, toda a publicidade que pode-se fazer na rede mundial ou fora dela. Depois disso, é concentrar-se em manter "pontos de venda" que tanto podem ser seu próprio site, como alguma banca ou loja onde você consiga fazer parceria e tire uma porcentagem menor que a comum (uma das médias pra perda em banca é de 25% o valor de capa para o vendedor, por exemplo).

Apesar disso, possivelmente os melhores lugares para venda de quadrinhos independentes impressos ainda são as convenções e encontros, onde o público participante está realmente à procura do gênero. Então, fique atento aos eventos os quais você pode participar e ter alguma visibilidade, como o FIQ. Certas vez os irmãos Bá e Moon falaram que no começo de sua carreira gastaram uma nota preta somente indo a festivais no mundo inteiro e... bem, funcionou pra eles, né? Três dicas básicas a quem decide ir pra evento e divulgar seu material: seja sempre cordial, venda seu próprio material - as pessoas sempre desejam falar com os autores e pegar autógrafos - e separe cópias pra quem possa ser uma boa divulgação pra você.

Pois bem, pessoal, é isso. Espero que o texto possa ter esclarecido algumas dúvidas e aberto à mente de que é possível fazer acontecer sim, só leva tempo, dedicação e disciplina.

Até o próximo texto!

6 comentários:

  1. Obrigado as dicas foram bem valiosas

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  2. Excelentes dicas! Vou guardá-las comigo para os momentos de dúvida. ^^

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    1. é o "guia luís" da publicação independente! hahahaha

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  3. Adorei as dicas.
    Obrigado, abriu meus olhos sobre aspectos da produção que não estava realmente considerando.
    Se eu ficar famoso agora a culpa é sua. (risos)
    Obrigado.

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  4. Excelentes dicas, muito bom mesmo.
    Valeu!
    o/

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